Jornal da Nossa Terra (15 mar)

Jornal da Nossa Terra (15 mar)

Edição dedicada aos ciganos de Moura – continuação do nº 100.

 

O JNT conta histórias de ciganos de localidades do Concelho de Moura:

Natanaela Reis (“a menina-mulher”) do Sobral da Adiça que afirma: “sabe, a ADCMoura* é a minha segunda mãe.”.

José Emídio (“o ambulante”), também do Sobral, cujo modo de vida de vendedor ambulante não resistiu à crise económica, à burocracia, às taxas, à ASAE e à consequente extinção de feiras.

 

Adérito Cardas (AC) (“o pastor”), nascido em S. Aleixo da Restauração, da Igreja Evangélica Filadélfia de Portugal. Esta Igreja “de matriz protestante”, foi criada em meados do século passado em França, tendo-se expandido rapidamente pelo mundo como um grande movimento de evangelização das comunidades ciganas, tendo chegado a Portugal na década de 70. A sua forte implantação traduz-se hoje em cerca de 80 por cento de devotos entre a população cigana portuguesa, tradicionalmente católica, figurando o Alentejo e em especial o concelho de Moura como os campeões nacionais do proselitismo evangélico. Tal como no resto do país, a penetração da Igreja Evangélica em Moura e a sua influência avassaladora nos modos de vida e nos hábitos culturais ciganos tem sido apontada como positiva. AC começou por ser comerciante de automóveis pela Internet. Na igreja de Pias, ministrava o “culto” três vezes por semana, que aproveitava para dirimir disputas de “contrários”, mostrando às partes (famílias) desavindas o caminho do perdão e da reconciliação e usava também toda a sua autoridade moral na pacificação dos “indomáveis” e “indisciplinados”, censurando, nos seus sermões, situações de alcoolismo, toxicodependência, tráfico de drogas e outras condutas reprováveis. De certa forma, o poder do pastor tende a substituir-se à kris, o “tribunal” cigano que lida com regras pacificadoras dentro da comunidade. A aplicação da lei cigana deixa assim de estar circunscrita ao universo laico para passar a estar na órbita da esfera religiosa. AC dedica-se a outras causas de amor ao próximo. Através de contactos privilegiados que mantém com empresários agrícolas espanhóis, chama a si o recrutamento dos ciganos interessados em trabalhar nos campos e pomares de Huelva. Tratalhes ainda da «papelada» e do alojamento. Trabalho sazonal, com contrato, descontos e salários convidativos, que chega a ocupar duas dezenas de famílias de Moura (o casal ou o seu elemento masculino), de Março a Outubro. Nesta primeira campanha de abril e maio de 2021, a mão-de-obra destina-se à apanha de morango, framboesa e mirtilo. Também Adérito costuma fazer, pelo menos, uma campanha destas por ano. “Em Espanha não há racismo como aqui. Estou inscrito no Centro de Emprego de Moura e nunca me chamaram para trabalho.”

 

Ada Barão (AB) (“a guia-intérprete)

AB é cigana, tem 21 anos, é solteira, tem o 9º ano e aspira ao 12º e à universidade; é guia-intérprete no Museu Municipal de Moura. AB vive entre a surpresa de uns e o espanto de outros, e o apoio e compreensão de ambos os mundos, cigano e não-cigano, nunca tendo sentido qualquer assomo de discriminação pelas suas escolhas. Refere que os outros “acham que sou uma cigana moderna e que todas nós devíamos ser assim.” Para ela, “’ter maneiras de senhor(a)’ não é sinónimo de perder o ‘orgulho de ser cigano(a).’ Pelo contrário, quanto mais aprendermos e conhecermos a cultura do Outro, mais preparados e capacitados estaremos para defender a nossa cultura, numa base de diálogo, de compreensão das diferenças e daquilo que nos une. Isso aplica-se a ciganos e não-ciganos. ‘Nós, ciganos, também temos muitas coisas a ensinar aos não-ciganos’”. “Adoro aquilo que faço! Sinto-me realizada! No futuro, gostava de estudar História.”

Benjamim Barão (BB) (“o mediador”), 27 anos, mourense, cigano,” mediador intercultural por convicção e missão”. Frequentou o curso de Técnico de Instalações Elétricas, na Escola Profissional de Moura, escola onde gostou de estudar “pela sua abertura à inclusão. Nesta escola encontrei uma grande tolerância face à diferença e face a outras culturas. Proporcionou-me conviver com não-ciganos, ciganos, pretos, romenos, ucranianos…e fez de mim aquilo que sou hoje, uma pessoa mais preparada para a vida, para o diálogo intercultural e para a multiculturalidade. Nesta escola nunca houve preconceitos, nem tabus. Estou grato à Escola e a todos os(as) professores(as) que nela trabalham ou que já trabalharam.”

Em 2013 integrou uma comitiva de 30 jovens, ciganos e não ciganos de toda a UE, que participaram num evento do Centro Juvenil Europeu, que se realizou em Budapeste, na Hungria. “Lembro-me de ter contactado com mulheres ciganas de outros países que eram professoras universitárias, estudantes de medicina, que estavam casadas e não tinham filhos, e que acharam estranho quando lhes disse que na minha região não havia raparigas ciganas nas universidades e que grande parte delas já tinha filhos. Eu também achei uma novidade o caso delas. Conheci pessoas muito diferentes, todas extraordinárias e de grande capacidade, casais ciganos, ciganos gays, ciganas lésbicas... A minha realidade, aqui em Moura, nunca me tinha deixado ver um mundo tão diferente e rico. Este foi um dos trampolins para ser o que sou hoje. Este foi um dos trampolins para ser o que sou hoje. Outros contactos e outras viagens se seguiram. Acabei por conhecer quase todas as pessoas deste meio. Este mundo da luta pelos direitos das minorias ainda é tão pequeno que acabamos por nos conhecer todos. Também quero dizer que devo esta e outras viagens ao Pedro Calado, ex-Alto-Comissário das Migrações, também responsável pela criação do Programa Escolhas, que apostou desde cedo em mim e fez muito pelos jovens ciganos, dando-lhes voz e palco.

Em 2016 andou por Serpa, Reguengos, Beja, Moura e Sobral da Adiça,  com o jornalista Tiago Carrasco, o Daniel Costa Neves, um fotógrafo reconhecido que já ganhou prémios internacionais e o actor e escritor norte-americano Jeff Wood, que vive em Berlim, e que é o editor da revista (Berlin Quarterly), onde sairia a reportagem com o título Ciganos of Alentejo. Fomos “de bairro em bairro, de acampamento em acampamento - até acompanhámos uma família nómada! -, saber mais sobre a vida e as dificuldades das famílias ciganas. Foi muito importante ter dado a conhecer a realidade da comunidade cigana desta região numa revista internacional de cultura, tão prestigiada. Para mim foi um privilégio acompanhar estas pessoas tão amigas e tão simples.

Em 2017 esteve no Palácio de Belém, com o grupo de estudantes universitários e bolseiros ciganos do projecto Opré Chavalé, num encontro com o Presidente da República. “Diante do Presidente, cada um falou do seu percurso e da sua experiência. Foi um dia importante para nós ciganos. Destaco a oportunidade de se falar dos ciganos num espaço democrático. E ter o Presidente da República a receber-nos e ouvir-nos é um reconhecimento brutal daquilo que os ciganos são e fazem e também do Programa Opré Chavalé. Representou uma motivação extra para os ciganos que apostam nos estudos para melhorarem as suas vidas. Eu como cigano estudante tive essa oportunidade, esse privilégio, de ter estado com o Presidente. Quando eu lhe disse que vinha de Moura, respondeu: «Moura!? Aí bebe-se bom vinho.» “

Em 2019, foi convidado, por uma Associação de Ciganos de Coimbra, para participar numa viagem de estudo à Polónia. “Visitámos o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, onde, de 3 para 4 de agosto de 1944, os ciganos que aí se encontravam se revoltaram contra os guardas, armados com pás, paus e pedras. Os nazis deportaram alguns para outros campos e gasearam os restantes, cerca de 4 mil, nessa noite. Foi nessa visita, já em Cracóvia, que conheci o Raymond Gurême, um dos últimos ciganos sobreviventes do holocausto nazi. Lembro-me mais ou menos das palavras que nos dirigiu: ‘Não deixem o vosso futuro nas mãos dos loucos. É preciso resistir à discriminação, ao racismo, às expulsões violentas de ciganos’. Foi um privilégio enorme ter conhecido o Raymond, que, infelizmente, já faleceu, em maio do ano passado. … Raymond tinha 15 anos quando foi enviado para campos de concentração, e tem agora 95 anos, e é cigano. Conseguiu escapar 12 vezes dos campos de concentração. É uma pessoa incrível. … O mundo está a precisar muito de pessoas como ele.”

BB afirma: “há valores que não se devem perder, por muitas evoluções e progressos que aconteçam. E um deles é a importância da família. Para as comunidades ciganas, a família é nuclear, é essencial. E o respeito pelos mais velhos também. … A família nunca deve perder-se. O respeito pelos pais, pelos mais antigos, é uma coisa muito boa que me ensinaram e que eu estou a passar aos meus filhos.

No dia 10 de Agosto de 2020, a ADCMoura celebrou o seu 27º aniversário a propósito do qual BB escreveu no Facebook: “‘E hoje a casa que me recebeu há 7 anos, a que me recebeu de braços abertos quando ainda não sabia o que era o mundo laboral, a que ainda faz parte do meu quotidiano, faz 27 anos de vida. Parabéns, ADCMoura!’ É preciso ter ao nosso lado um grupo de pessoas, mesmo não ciganas, que sejam amigos desta causa. Na ADCMoura encontrei-as, por isso na ADCMoura sinto-me em casa. Aqui aprendi e aprendo todos os dias, aqui fiz amigos. Aqui sinto-me à vontade para cumprir com as minhas obrigações e responsabilidades. É bom contar com pessoas que se preocupam com a causa cigana. Aquilo que sou, devo à ADCMoura, às pessoas com quem tenho aprendido aqui”.

Seguem-se diversos textos cobre os ciganos da autoria do escritor Urbano Tavares Rodrigues, natural de Moura.

A cultura cigana é ágrafa: transmite-se entre gerações apenas pela palavra. Existem assim pouquíssimos registos históricos referentes a este povo, e os que existem são relativamente recentes e oriundos da cultura maioritária. Os poucos elementos de que dispomos para o estudo da história do povo cigano são relativos à sua língua, lendas e hábitos. (Delphine ATTALI, Claúdia GUERRA, Observatório sociodemográfico das comunidades ciganas, ADCMoura, 2013).

Sob a designação: Ciganos: Abecedário seguem-se de A a Z explicações / ilustrações sobre diversas palavras significativas para a cultura cigana: barraca; (dar) Cabaças (terminar um relacionamento, namoro ou casamento, entre um homem e uma mulher); discriminação; escola; família; gadjé / gadjo (não cigana / não cigano); holocausto; Igreja Filadélfia; jardim-de-infância; lei (cigana); mediador(a) (o concelho de Moura conta com 4 mediadores interculturais, 3 dos quais de etnia cigana, no âmbito do projecto Mediadores Municipais e Interculturais (POISE), promovido pela CMMoura em parceria com a ADCMoura, que asseguram o desenvolvimento de actividades relacionadas com a capacitação de pessoas desfavorecidas, criação de pontes entre cidadãos e instituições, promoção da cooperação e diálogo intercultural e construção de soluções mutuamente satisfatórias); nómada; Opré Chavalé (expressão em romani que significa “Erguei-vos jovens (ciganos)”e que deu nome a um projecto promovido, entre 2014 e 2016, pela Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, em parceria com a Associação Letras Nómadas, co-financiado pelo Programa Cidadania Activa – EEA Grants gerido pela Fundação Calouste Gulbenkian e com o apoio do Programa Escolhas e a Fundação Montepio, destinado a capacitar e acompanhar estudantes ciganos no acesso e frequência do ensino superior. Este projecto deu lugar ao actual programa OPRE (Programa Operacional de Promoção da Educação), promovido em parceria pelo Alto-Comissariado para as Migrações e pela Associação Letras Nómadas. Dirige-se a estudantes das comunidades ciganas que pretendem ingressar ou que estejam a frequentar o ensino superior); participação (o associativismo cigano carece de ser reanimado, não só como factor mobilizador da comunidade, mas como representante e advogado dos interesses que congrega); quarentena; RSI (o Rendimento Social de Inserção “revelou-se uma medida da maior importância face à situação de pobreza extrema em que se encontra parte da comunidade cigana. Permitiu enfrentar situações de total incapacidade material para suprir as necessidades básicas, mas foi também factor importante para estabelecer algumas pontes entre o Estado e a comunidade cigana. Permitiu ainda estabelecer contratualizações com as famílias ciganas através das quais as crianças passaram a frequentar a escola, as mulheres e as crianças a serem cobertas pela saúde materno-infantil, os(as) adultos (as) a terem acesso à formação recorrente e profissional, etc.” AR;

“a par da redução dos nichos de trabalho tradicionais (feiras, mercados e trabalhos agrícolas sazonais), (o RSI) arrastou consigo expectativas frustradas face à inserção laboral e social na sociedade maioritária, introduzindo uma nova postura de passividade, contrária ao que era comummente reconhecida como uma força nas comunidades ciganas, como o empreendedorismo, ainda que fosse mais visível na economia informal. Nesse sentido, esta medida é também vista negativamente pelas comunidades ciganas, se não forem introduzidas, a par, medidas efectivas de inserção laboral, uma vez que contribui para alimentar o estigma de parasitismo social (Mirna Montenegro)); sastipen (boa saúde em Romani); TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação; união de facto; viagem; xenofobia; zíngaro (cigano).

Segue-se uma pequena bibliografia sobre ciganos e um passatempo com perguntas, remetendo as soluções para o próximo nº.

* Associação para o Desenvolvimento do Concelho de Moura