JUPONLINE.PT (6 fev)

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CIGANOS: UMA HISTÓRIA DE RACISMO

continuação do nº 100

“Sem trabalho a vida que qualquer pessoa é feita de inúmeros expedientes e esquemas de sobrevivência, que no caso dos ciganos se institucionalizaram. (…) Nesta esfera de empobrecimento ascendente, surge a saída para tráficos à margem da lei, selando o preconceito que já existia. Há, claro, uma economia paralela da droga, assim como crimes violentos, tal como o há entre os «locais», mas ninguém julga o grupo de locais como um todo ou a sua família por inteiro. Depois, mesmo que tal derive de uma equação lógica de pobreza à criminalidade, o perigo de aceitar sem mais esse raciocínio, significa perpetuarmos o estigma de que a cultura de pobreza é criminosa, ou de que qualquer marginal da sociedade – como se assume e é definido aqui o cigano – é “naturalmente” um delinquente, omitindo da questão quem definiu essa equação, quem determinou essas situações, quem determina as condições da economia e as possibilidades da subsistência do dia-a-dia.” (Alambique, IV, 2012)

 

A par deste confinamento forçado em zonas indesejáveis das cidades e demais localidades, que refletem políticas sociais irresponsáveis, que visaram primeiro a guetização da pobreza em detrimento da resposta a flagelos sociais evidentes, o cigano é vítima de dinâmicas de poder, de vigilância e coação que apenas contribuem para reforçar o seu lugar na margem. James aponta para o policiamento extremo de que são alvo, não apenas por forças de segurança que estão frequentemente suscetíveis a um extremar ideológico nocivo, mas também através das instituições sociais, educativas ou de saúde, que, ao invés de cumprirem o seu papel, agem como forças policiais, recolhendo e partilhando dados que comprometem estas comunidades.

 

“Na atualidade, os portugueses da Vidigueira não ficam nem mais ricos nem menos pobres por perseguirem os ciganos que aí vivem. Os bejenses não ficam mais seguros por erguerem um muro à volta de mais um gueto cigano, nem tão pouco os pais e professores que os metem em turmas só para ciganos, ou os tentam enviar para outras escolas. Nem quem os insultam nos supermercados ganha mais ao fim do mês por essa raiva. Mas todos eles certamente sentem-se “mais portugueses, mais patrióticos, mais cultos, mais limpos, mais certos da sua «superioridade» identitária.” (Alambique, IV, 2012)

É, por isso, após um exercício de reflexão, o mais intelectualmente honesto possível, necessário repudiar toda e qualquer narrativa que assente sobre a premissa do “português de bem”, que procura incutir um tom moralizador à pobreza, apontando dedos àqueles que, ano após ano, década após década, têm suportado, estáticos, a inoperância de um Estado que, para camuflar a gestão danosa dos sucessivos governos, nunca se coibiu de a instrumentalizar.

Os ciganos construíram, connosco, nacionalidade. Adolpho Coelho, em Os ciganos de Portugal: com um estudo sobre o calão (1892), evoca os “mais de 250 homens d’essa raça” que “alistados no exército português, desde a restauração do reino” serviram “nas fronteiras «com zelo e valor com que já foram muito apremeados».” Evoca, ainda, no espírito de Thomé Pinheiro da Veiga, “o caso d’aquelle pobre cigano que serviu a sua pátria adoptiva «três annos contínuos com suas armas e cavallo á sua custa, sem soldo», combatendo até à morte por uma pátria que, 400 anos depois, ainda persegue a sua etnia.

Para finalizar, diz o autor que “esse facto basta para resgatar a raça cigana do opprobio de mais de quatro seculos e para nos fazer pensar em chamar os seus actuaes descendentes, por uma politica mais racional e humana que a dos nossos antepassados, ao convívio da civilisação.” Contudo, e como comprova a franca adesão a uma linha retórica que tem como porta-estandarte o ódio a esta minoria, em abono de uma ideia de nacionalidade baseada na ignorância, não podemos abster-nos de lutar pelo reconhecimento dos ciganos enquanto portugueses, legitimados por um legado de séculos que nem reis conseguiram vergar.

Rafael Jesus