Jornal da Nossa Terra (15 mar)

Jornal da Nossa Terra (15 mar)

Edição dedicada aos ciganos de Moura – continuação do nº 101.

 

O JNT conta histórias de ciganos de localidades do Concelho de Moura:

Benjamim Barão (BB) (“o mediador”), 27 anos, mourense, cigano,” mediador intercultural por convicção e missão”.

Em 2019, foi convidado, por uma Associação de Ciganos de Coimbra, para participar numa viagem de estudo à Polónia. “Visitámos o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, onde, de 3 para 4 de agosto de 1944, os ciganos que aí se encontravam se revoltaram contra os guardas, armados com pás, paus e pedras. Os nazis deportaram alguns para outros campos e gasearam os restantes, cerca de 4 mil, nessa noite. Foi nessa visita, já em Cracóvia, que conheci o Raymond Gurême, um dos últimos ciganos sobreviventes do holocausto nazi. Lembro-me mais ou menos das palavras que nos dirigiu: ‘Não deixem o vosso futuro nas mãos dos loucos. É preciso resistir à discriminação, ao racismo, às expulsões violentas de ciganos’. Foi um privilégio enorme ter conhecido o Raymond, que, infelizmente, já faleceu, em maio do ano passado. … Raymond tinha 15 anos quando foi enviado para campos de concentração, e tem agora 95 anos, e é cigano. Conseguiu escapar 12 vezes dos campos de concentração. É uma pessoa incrível. … O mundo está a precisar muito de pessoas como ele.”

 

BB afirma: “há valores que não se devem perder, por muitas evoluções e progressos que aconteçam. E um deles é a importância da família. Para as comunidades ciganas, a família é nuclear, é essencial. E o respeito pelos mais velhos também. … A família nunca deve perder-se. O respeito pelos pais, pelos mais antigos, é uma coisa muito boa que me ensinaram e que eu estou a passar aos meus filhos.

 

No dia 10 de Agosto de 2020, a ADCMoura* celebrou o seu 27º aniversário a propósito do qual BB escreveu no Facebook: “‘E hoje a casa que me recebeu há 7 anos, a que me recebeu de braços abertos quando ainda não sabia o que era o mundo laboral, a que ainda faz parte do meu quotidiano, faz 27 anos de vida. Parabéns, ADCMoura!’ É preciso ter ao nosso lado um grupo de pessoas, mesmo não ciganas, que sejam amigos desta causa. Na ADCMoura encontrei-as, por isso na ADCMoura sinto-me em casa. Aqui aprendi e aprendo todos os dias, aqui fiz amigos. Aqui sinto-me à vontade para cumprir com as minhas obrigações e responsabilidades. É bom contar com pessoas que se preocupam com a causa cigana. Aquilo que sou, devo à ADCMoura, às pessoas com quem tenho aprendido aqui”.

Seguem-se diversos textos cobre os ciganos da autoria do escritor Urbano Tavares Rodrigues, natural de Moura.

A cultura cigana é ágrafa: transmite-se entre gerações apenas pela palavra. Existem assim pouquíssimos registos históricos referentes a este povo, e os que existem são relativamente recentes e oriundos da cultura maioritária. Os poucos elementos de que dispomos para o estudo da história do povo cigano são relativos à sua língua, lendas e hábitos. (Delphine ATTALI, Claúdia GUERRA, Observatório sociodemográfico das comunidades ciganas, ADCMoura, 2013).

Sob a designação: Ciganos: Abecedário seguem-se de A a Z explicações / ilustrações sobre diversas palavras significativas para a cultura cigana: barraca; (dar) Cabaças (terminar um relacionamento, namoro ou casamento, entre um homem e uma mulher); discriminação; escola; família; gadjé / gadjo (não cigana / não cigano); holocausto; Igreja Filadélfia; jardim-de-infância; lei (cigana); mediador(a) (o concelho de Moura conta com 4 mediadores interculturais, 3 dos quais de etnia cigana, no âmbito do projecto Mediadores Municipais e Interculturais (POISE), promovido pela CMMoura em parceria com a ADCMoura, que asseguram o desenvolvimento de actividades relacionadas com a capacitação de pessoas desfavorecidas, criação de pontes entre cidadãos e instituições, promoção da cooperação e diálogo intercultural e construção de soluções mutuamente satisfatórias); nómada; Opré Chavalé (expressão em romani que significa “Erguei-vos jovens (ciganos)”e que deu nome a um projecto promovido, entre 2014 e 2016, pela Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, em parceria com a Associação Letras Nómadas, co-financiado pelo Programa Cidadania Activa – EEA Grants gerido pela Fundação Calouste Gulbenkian e com o apoio do Programa Escolhas e a Fundação Montepio, destinado a capacitar e acompanhar estudantes ciganos no acesso e frequência do ensino superior. Este projecto deu lugar ao actual programa OPRE (Programa Operacional de Promoção da Educação), promovido em parceria pelo Alto-Comissariado para as Migrações e pela Associação Letras Nómadas. Dirige-se a estudantes das comunidades ciganas que pretendem ingressar ou que estejam a frequentar o ensino superior); participação (o associativismo cigano carece de ser reanimado, não só como factor mobilizador da comunidade, mas como representante e advogado dos interesses que congrega); quarentena; RSI (o Rendimento Social de Inserção “revelou-se uma medida da maior importância face à situação de pobreza extrema em que se encontra parte da comunidade cigana. Permitiu enfrentar situações de total incapacidade material para suprir as necessidades básicas, mas foi também factor importante para estabelecer algumas pontes entre o Estado e a comunidade cigana. Permitiu ainda estabelecer contratualizações com as famílias ciganas através das quais as crianças passaram a frequentar a escola, as mulheres e as crianças a serem cobertas pela saúde materno-infantil, os(as) adultos (as) a terem acesso à formação recorrente e profissional, etc.” AR;

“a par da redução dos nichos de trabalho tradicionais (feiras, mercados e trabalhos agrícolas sazonais), (o RSI) arrastou consigo expectativas frustradas face à inserção laboral e social na sociedade maioritária, introduzindo uma nova postura de passividade, contrária ao que era comummente reconhecida como uma força nas comunidades ciganas, como o empreendedorismo, ainda que fosse mais visível na economia informal. Nesse sentido, esta medida é também vista negativamente pelas comunidades ciganas, se não forem introduzidas, a par, medidas efectivas de inserção laboral, uma vez que contribui para alimentar o estigma de parasitismo social (Mirna Montenegro)); sastipen (boa saúde em Romani); TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação; união de facto; viagem; xenofobia; zíngaro (cigano).

Segue-se uma pequena bibliografia sobre ciganos e um passatempo com perguntas, remetendo as soluções para o próximo nº.

* Associação para o Desenvolvimento do Concelho de Moura