EDITORIAL

Durante mais de mil anos, as pessoas de etnia cigana têm sido parte integrante da civilização europeia e da portuguesa, em particular, há mais de seiscentos anos. Apesar desta pertença histórica, a sua situação ao longo dos séculos caracterizou-se, quase sempre, pela discriminação persistente e pela exclusão social, o que remeteu a maioria das comunidades ciganas para situações de extrema pobreza e para a promoção de estereótipos e preconceitos muito presentes na sociedade. Editorial Durante mais de mil anos, as pessoas de etnia cigana têm sido parte integrante da civilização europeia e da portuguesa, em particular, há mais de seiscentos anos. Apesar desta pertença histórica, a sua situação ao longo dos séculos caracterizou-se, quase sempre, pela discriminação persistente e pela exclusão social, o que remeteu a maioria das comunidades ciganas para situações de extrema pobreza e para a promoção de estereótipos e preconceitos muito presentes na sociedade. Os estereótipos que se construíram e se cristalizaram tendem a ignorar os aspectos culturais e fazer emergir os ciganos como um "problema social", o que tem levado a diversas iniciativas que pretendem "integrá-los" no resto da sociedade à força. Porém, quando se pretende promover uma integração no espaço social e não se tem em conta o factor cultural e étnico das pessoas, estas manifestam algumas "inadaptações sociais", daí que o processo de integração dos ciganos só pode ser feito com base no respeito pela identidade cultural e étnica dos mesmos. É inadmissível que no século XXI, em países ditos desenvolvidos como o nosso, onde a bandeira dos direitos humanos é permanentemente hasteada pelos responsáveis do destino do País, continue a existir um grupo, não muito pequeno, de cidadãos portugueses, em situação de marginalização e exclusão social. A Igreja tem um papel fundamental na promoção de soluções que contribuam para que termine a situação de marginalização e guetização dos ciganos no País. Este papel manifesta-se num verdadeiro interesse pela situação dos pobres, onde se incluem as pessoas de etnia cigana. O interesse pelas situações de pobreza, deve levar a Igreja e os cristãos a promoverem acções e iniciativas que melhorem a vida dos mesmos, manifestando, assim o amor preferencial que Deus tem pelos pobres e humildes. A presença da Igreja junto dos ciganos e dos pobres em geral, deve ser uma presença de amor e esperança, suscitadora de acções de defesa de uma vida mais digna e mais justa, isto é, uma presença que promova a defesa dos seus direitos. A Igreja só estará a cumprir a sua missão de ‘anúncio da Boa-Nova’, quando, através da sua acção, contribuir para a transformação das situações de pobreza degradante e exclusão humilhante em que vivem tantos homens e mulheres ainda hoje. Como seguidores de Cristo, somos desafiados a fazer uma ‘opção preferencial pelos pobres’, o que significa que somos chamados a falar pelos sem-voz e sem direitos, a defender os indefesos e expropriados da sua dignidade humana, a avaliar e sugerir políticas e acções que promovam a real solução das situações de pobreza, entre as quais ocupam lugar central as situações desumanas, de exclusão e marginalização, em que se encontram a maioria das comunidades ciganas em Portugal. P. Frei Francisco Sales Diniz, O.F.M.