EDITORIAL CARAVANA nº 61

Portugal considera-se a si mesmo um país tolerante, berço do diálogo entre os povos, pai da mestiçagem desde o início da expansão portuguesa. Este orgulho de um país que se diz tolerante, manifesto no acolhimento do recente fenómeno imigratório, cai por terra no confronto com a etnia cigana. EDITORIAL CARAVANA nº 61 Portugal considera-se a si mesmo um país tolerante, berço do diálogo entre os povos, pai da mestiçagem desde o início da expansão portuguesa. Este orgulho de um país que se diz tolerante, manifesto no acolhimento do recente fenómeno imigratório, cai por terra no confronto com a etnia cigana. Deparamo-nos com um discurso racista e xenófobo face aos ciganos, na maioria da população portuguesa não cigana e, mais dramático ainda é ouvirmos este tipo de discurso na boca de representantes do poder local e mesmo em responsáveis da própria Igreja, o qual é, muitas vezes, ultrapassado por acções racistas e xenófobas lamentáveis. Usando uma expressão popular portuguesa, podemos dizer que a questão dos ciganos é como “uma pescadinha de rabo na boca”: acusamo-los de serem pobres por não quererem trabalhar, mas a eles ninguém dá emprego pelo facto de serem ciganos e, por isso, se têm necessidade de recorrer a subsídios do Estado, logo os acusamos de viverem à custa dos nossos impostos. Se vivem em barracas, em terrenos que estavam abandonados há dezenas de anos, logo se procura desalojá-los, com justificação de interesses privados ou públicos dos terrenos, destruindo-lhes os poucos bens e o que lhes resta de dignidade, mas, passados anos, os terrenos continuam abandonados, exibindo as ruínas das barracas que foram o lar de tantas famílias e crianças. Se são realojados em habitação social, logo surge a reacção contra, “porque lhes dão tudo, ao passo que o resto da população tem de comprar casa ou pagar renda; no entanto, se quiserem contrair um empréstimo para comprar casa, ninguém confia neles, porque são ciganos, ou se quiserem arrendar uma casa, surge sempre uma desculpa para não arrendar. Para além disto, deparamo-nos com a hipocrisia actual de querer obrigar os ciganos a concorrer à habitação social em pé de igualdade com a restante da população, quando a sociedade não os trata por igual e os discrimina. Não se pode pedir aos ciganos que se integrem numa sociedade que os rejeita. Felizmente já encontramos muitas famílias ciganas plenamente integradas, mas também encontramos algumas que escondem a sua identidade cigana para poderem ser aceites, o que é lamentável pois contribui para o desaparecimento de uma cultura milenar que também contribuiu para modelar a cultura portuguesa. Apesar do contexto de crise que Portugal atravessa, é chegada a altura de mudar a situação e desmontar preconceitos contra os ciganos. Os responsáveis pelos destinos do país não podem esquecer nem colocar em segundo plano os graves problemas sociais relacionados com a pobreza, particularmente os relacionados com a comunidade cigana, pois, quer queiramos, quer não queiramos, os ciganos são tão portugueses como qualquer outro português, aqui nasceram e vivem em Portugal há quase tantos séculos como os da nacionalidade portuguesa.