EDITORIAL CARAVANA 68

EDITORIAL CARAVANA

 

Portugal sofreu recentemente os efeitos de violenta tempestade que deixou um rasto de destruição por toda a parte. Vimos nos meios de comunicação as imagens desoladoras de muitas empresas, principalmente agrícolas que se viram a braços com a destruição das culturas lutando agora para recuperar as estruturas e garantir os postos de trabalho dos seus trabalhadores. Assistimos também a alguma destruição em habitações e em automóveis, provocada essencialmente pela queda de árvores.

 

Estes acontecimentos, que nos tocam profundamente e nos fazem sentir solidários com os que sofreram na pele as suas consequências fizeram-nos refletir: E os ciganos? Onde está a notícia sobre as centenas de ciganos que, vivendo em condições miseráveis, viram as suas “barracas” destruídas e inundadas, perdendo os poucos haveres que possuíam? Será que os pobres e miseráveis, que vivem completamente excluídos no meio dos pinhais, lixeiras e outras situações semelhantes, não têm direito a notícia? A sua existência e os seus dramas de vida são de tal forma insignificantes para a sociedade que até mesmo a comunicação social os ignora e exclui.

Sabemos que na recente tempestade muitas famílias ciganas ficaram em situação desesperante. Sabemos que no seio dessas famílias estão muitas crianças que necessitam de proteção porque a situação em que ficaram não é só desumana mas é, sobretudo, desumanizante. Sabemos também que a Segurança Social e outras Instituições tentam ir ao encontro das necessidades mais urgentes, mas por falta de meios e, por vezes, devido a uma burocracia institucionalizada, não conseguem dar respostas com a rapidez que a situação exige.

Num país como o nosso, que conta com um inumerável parque habitacional devoluto, é incompreensível que as autoridades responsáveis já não tenham resolvido o problema da situação de limite humano em que muitos ciganos e tantos outros pobres vivem, devido à precariedade das suas habitações.

Perante esta situação e de tantas outras situações de injustiça que o nosso sistema social criou, emerge um sentimento de inconformidade que é o mesmo expresso por Deus a Caim perante o assassinato de Abel: “Que fizeste ao teu irmão?” (Gn 4, 10).

 

P. Frei Francisco Sales Diniz, O.F.M.