Ecclesia – internet (15 set)

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Ciganos: Visita do Papa a comunidade eslovaca tem grande significado «simbólico» – Francisco Monteiro

Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos alerta para «guetos horríveis em Beja» e assume necessidade de lutar «contra o populismo e o anticiganismo»

Francisco Monteiro (FM), diretor-executivo da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos (ONPC), da Igreja em Portugal, considera que a visita do Papa Francisco a uma comunidade cigana, durante a viagem à Eslováquia “foi uma afirmação de que a Igreja é para todas as pessoas”. “A visita teve uma grande importância porque na Eslováquia a comunidade cigana é uma das maiores da Europa de Leste: 400 mil pessoas, 8% da população da Eslováquia é cigana, sendo a maior ou uma das maiores minorias e que tem problemas enormes de pobreza, de miséria”.

 

O Papa Francisco encontrou-se com membros da comunidade cigana, na Eslováquia, num bairro da periferia de Kosice, no leste do país europeu, onde cerca de 5 mil pessoas de origem cigana vivem em condições de degradação e pobreza, sem gás, eletricidade ou água corrente. FM refere que “esta visita do Papa tem um significado muito grande simbólico de afirmação de que a Igreja, como tem dito várias vezes, é para as margens e para todas as pessoas sem qualquer discriminação, sem qualquer distinção, está ao pé de quem está às margens da sociedade”. E salientou que a visita do Papa Francisco à comunidade cigana no bairro Lunik IX “é um exemplo” para o Governo Eslovaco, para a União Europeia (UE), “à qual a Eslováquia pertence”, e também para a Igreja Católica. “Neste bairro depois de terem saído todos menos os ciganos, a Igreja está reduzida aos Salesianos que têm trabalhado intensa e corajosamente contra todas as adversidades locais”. Na Eslováquia, a Igreja Católica desenvolveu-se entre a “minoria grande dos ciganos” e tem “10 padres e cinco religiosas” desta comunidade.

 

O Papa Francisco pediu o fim dos preconceitos, dos juízos cruéis e alertou que todos ficam “mais pobres, pobres em humanidade” e, neste contexto, FM observou que “o Papa não tem papas na língua contra o populismo, pela luta pela igualdade, pela não discriminação, pela inclusão”, lembrando que a visita começou pela Hungria onde é conhecida a posição do seu governo.

Essas palavras são o eco de um dos princípios constitutivos da política inicial da UE (o da coesão social), segundo o qual a sociedade não pode prosperar através da exclusão de partes, de franjas da sociedade, exclusão que “é completamente errada do ponto de vista humano, do Papa, e da economia”.

Na sua intervenção, o Papa Francisco elogiou o sentido de família na tradição dos Rom, e FM destaca que é “uma das características da cultura cigana”, cultura que é, de certa maneira, “a causa da discriminação dos ciganos, que estão em Portugal há 500 anos, e são cerca de “60 mil, 0,6% da população geral. “Foram muito bem recebidos inicialmente como artífices e artistas e acabaram por ser excluídos, perseguidos, escorraçados, por quererem manter a fidelidade à sua cultura; no entanto, as leis da UE dão todo o direito à diversidade das culturas e o Papa vincou isso bem: a diversidade faz parte do cristianismo, faz parte do amor fraterno”.

No início do ano pastoral 2021/2022, o diretor-executivo da ONPC explica que no plano de ação se destaca “a luta” pelo “problema gravíssimo dos nómadas compulsivos no Alentejo”, a luta contra o populismo e o anticiganismo, e “o esfoço para que sejam os próprios ciganos a assumir o seu futuro e a responsabilizar-se por si e pela sua evolução”, um princípio básico da missionação.

“O princípio do gueto é mau, é gerador de conflitos e a consagração social pública da discriminação mas entre guetos e barracas prefiro o gueto”, sublinhou, alertando que “há guetos horríveis em Beja” e elogiando “o bom exemplo” em Alcobaça.