Newsletter ObCig (out 2021)

Newsletter ObCig (out 2021)

Deste número da Newsletter do Observatório das Comunidades Ciganas, das secções Vozes Ciganas sobre “A Participação Político-Cívica de Pessoas Ciganas” e Divulgação – Associativismo, destacamos os seguintes artigos de que apresentamos excertos:

Maria João Silveira, candidata às eleições autárquicas no concelho de Estremoz

Maria João Silveira (MJS), de 39 anos, 4ª classe, trabalha no Lar de Santa Cruz, em Estremoz, como auxiliar de ação direta e candidatou-se às eleições autárquicas no concelho de Estremoz.

ObCig: Percurso de participação na esfera pública. Em que altura da sua vida começou a sentir necessidade de participar na esfera pública e porquê?

MJS: A minha motivação já vem desde muito nova, desde que eu me lembro como pessoa, logo ali na fase da adolescência. Tive oportunidades, houve alturas que ficou mais esquecido, mas sim desde que eu me lembro. Motivações, é tentar melhorar as coisas… Eu falo no sítio onde vivo, não falo em geral, eu falo na zona onde vivo, no Alentejo, no Alto-Alentejo, na minha cidade. É tentar melhorar a vida das pessoas que cá vivem, terem outras oportunidades, tentar melhorar principalmente as moradias onde as pessoas vivem, porque há muita casa degradada cá na nossa zona, tentar que as pessoas tenham uma vida mais digna.

ObCig: E o envolvimento mais político-partidário? Pode falar-nos acerca das suas motivações para o mesmo?

MJS: Na altura, que eu me lembre, de começar a falar na política foi em casa com a minha mãe, à hora do almoço, à hora do jantar com o meu pai, com a minha irmã. A minha mãe falava muito da política, porque a minha mãe diz sempre que desde o 25 de Abril que ela sempre votou, ela e o meu pai. Queria que os meus irmãos votassem, ela ainda hoje liga para os meus irmãos para irem votar, para não se esquecerem… Liga para a minha irmã. Foi em casa, foi assim com a minha mãe. A minha mãe não é que ela entendesse muito de política, mas gostava da política e sabia que a política era importante, que o voto era importante. E então quando eu fiz 18 anos, a primeira coisa que ela fez foi levar-me a votar. E eu agora fiz o mesmo com o meu filho, o meu filho também foi votar. E pronto, é uma coisa muito normal, sempre se falou, não era que a minha mãe fosse muito entendida, mas ela sempre sabia o que era a esquerda, o que era a direita, o que era o partido socialista, o que era o partido laranja, como ela o chamava. Não era que ela tivesse alguém que lhe explicasse, mas ela sempre soube e sempre se interessou. E era uma pessoa aqui na cidade de Estremoz que conhecia toda a gente na Câmara. Hoje em dia não conhece ninguém, porque é tudo novo, mas ela na Câmara conhecia toda a gente, anda lá dentro, ela conhecia toda a gente. Foi por aí… depois claro eu também gostei, e gosto, apesar de a ouvir a ela, também acho que isto está dentro de nós, nasce connosco.

 

ObCig: Responsabilidade política. Se fosse eleita, que problemáticas procuraria inscrever na agenda política e porquê?

MJS: A agenda política, gostaria que aqui na nossa zona, mesmo na nossa zona de Estremoz, o nosso maior problema é o bairro das quintinhas, onde as pessoas ainda vivem na era medieval, vivem sem condições nenhumas. E onde o resto da comunidade aponta o dedo sem saber em que condições as pessoas vivem lá. É principal…tínhamos de reeducar a etnia cigana, mas também tínhamos de reeducar o resto da população, porque não é só apontar o dedo e reeducar a etnia cigana, mas também reeducar o resto da população, porque o resto da população aponta o dedo sem saber porquê… tem que começar a aprender a falar e saber do que está a falar. Não é só apontar o dedo, sem saber como é que as pessoas vivem, em que estado é que as pessoas estão, qual a situação. E a revolta às vezes das pessoas, porque as pessoas estão cansadas de ser olhadas de lado, de lado, constantemente por tudo e por nada. Basta andarem na rua para serem olhados de lado. E isso acho que é um dos maiores problemas aqui na minha zona. Claro que depois queria resolver outros, mas o maior de todos, dentro de Estremoz, e que as pessoas tentam varrer para baixo do tapete é esse, o bairro das quintinhas.

ObCig: O que acha que o seu olhar traria de novo ao universo político e de intervenção-inovação social?

MJS: O que o meu olhar poderia trazer de novo e penso que muita gente, principalmente muita mulher ia concordar comigo, primeiro, primeiro ponto: Deixarem de olhar que é “mulher cigana”, não é uma mulher, simplesmente é uma mulher. A minha etnia é a minha etnia, isso é comigo e com os meus. Olharem para mim como uma mulher e ouvirem-me, principalmente ouvirem-me. E depois tentarem ouvir-me daquilo que eu conheço, porque nós para sabermos de algo, temos de ir à vivência de quem vive aquilo. Eu se for para a Amazónia eu tenho de ir viver com os Índios para saber a vivência dos Índios. Eu sendo cigana posso ajudar a comunidade cigana ouvindo-me. Não é (…) estudar e os outros irem fazer por mim, não, é ouvirem-me a mim e eu ir para a frente com mais pessoas como eu, como tantas que há por aí, mas onde não nos deixam falar, onde falam por nós, onde não nos dão voz. Gostam muito de nós, somos umas mulheres inovadoras, diferentes, não, não (,) somos iguais a qualquer outra mulher. Somos mulheres ciganas, mas somos principalmente mulheres e gostaria que nos olhassem assim, como mulheres. Claro que depois temos aquele ponto, posso ajudar a minha etnia, claro que sim, posso, mas não é só ajudar a minha etnia. Acho que o resto da população toda portuguesa também precisa muito de ser ajudada, porque acho que a população portuguesa ainda tem assim um bocadinho a cabeça que vive lá ainda muito muito no século XIV. É a minha opinião. O que eu gostaria de trazer de novo era que o meu povo entrasse mais no mundo da política e não só. No mundo do trabalho em geral. Mas no mundo da política, homens, mulheres, jovens, velhos, um pouco de tudo, da geração toda, porque acho que nós também temos que dar a conhecer as nossas culturas porque nem tudo o que passa para fora é verdade, é a realidade um pouquinho distorcida, culpa nossa também por sermos tão fechados, mas durante séculos foi a nossa salvação, mas que hoje em dia, neste século, já não se justifica. Mas sim, acho que se nós trouxéssemos coisas da nossa cultura para a realidade da cultura portuguesa no geral, acho que era uma mais-valia. Porque nós conseguimos resolver coisas de maneira muito mais prática, mais facilmente do que o resto da população, onde complicam muito, fazem muito, sei lá, fazem bichos de sete cabeças em coisas muito simples que nós num fechar de olhos resolvemos. Somos muito mais práticos nesse sentido. Onde eu continuo a dizer, não é tudo mau, como em todas as comunidades, como em todas as sociedades há bom e mau em todo o lado. Há coisas muito boas na minha etnia que eu não trocava nunca por nenhuma sociedade que exista. Depois há coisas boas, claro, no resto da sociedade que se calhar a minha etnia precisava de começar a fazer e a usar. Mas que nós temos coisas muito boas, temos, e não somos nenhum bicho de sete cabeças e não é metade do que passa para fora, não é nem um terço da realidade. São realidades muito distorcidas, completamente distorcidas.