Mensagem de Lisboa (Jornal digital - 21 out)

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Israel será o primeiro médico português a admitir ser cigano. “Sinto o peso de ser um exemplo”

Não é o primeiro cigano em medicina em Portugal, garante Bruno Gonçalves (BG), importante mediador na comunidade cigana. Outros há, que sentiram necessidade de esconder a sua identidade cultural, "por receio de represálias". BG acrescenta: “e eu, mesmo que tenha pena, percebo. Na hora de conseguir emprego, isso pode ser uma barreira, um muro, infelizmente”. Israel Paródia é, sim, o primeiro português em medicina que diz alto e em bom som: "sou cigano e com orgulho".

Apresentamos excertos do artigo de Catarina Reis (15/10/21)

 

Israel Paródia (IP), 21 anos, nascido na Batalha, em Leiria, falava para uma turma de crianças numa escola da Amadora, a quem se apresentou como estudante de medicina em Lisboa e “orgulhosamente cigano”. Partilhou com eles uma fotografia onde envergava uma bata branca, e uma criança perguntou se lhe tinham emprestado a bata, “porque, para ela, só fazia sentido que eu tivesse pedido uma a alguém, para aquela fotografia, não que eu tivesse mesmo uma bata.” IP frequenta o terceiro ano de seis de Medicina, na NOVA Medical School (Faculdade de Ciências Médicas), em Lisboa.

Com quatro anos, IP perguntou ao pai qual a profissão mais nobre do mundo. “Médico”. A resposta ecoou na sua cabeça durante anos, tendo-o levado a obter bolsas de mérito; hoje executa a sua formação universitária ao abrigo da bolsa Gulbenkian Mais, que responde a jovens-prodígio estudantes nas mais diversas áreas. Israel leva bem a sério a missão de estudar, chegando a fazê-lo 16 horas por dia. “Tem de ser”, nem questiona. São ensinamentos que traz da sua infância. IP diz que os grandes responsáveis pelas suas ambições são “os pais”. Foram eles que “incentivaram os estudos”, dele e dos irmãos (a irmã mais velha e o irmão mais novo).

Em Leiria, nunca esteve inserido num bairro social, nunca faltou comida na mesa, mas essa memória feliz tem por detrás o sacrifício dos pais. O pai era só um menino quando teve que deixar os estudos no 6.º ano de escolaridade, para ajudar a mãe, viúva, na feira ambulante. Jurou para si que “com os filhos seria diferente” e disse-lhes enquanto cresciam: “estudar é uma prioridade”. “Isto aconteceu quer comigo quer com a minha irmã”, diz IP, a propósito de uma cultura onde, tradicionalmente, as mulheres deixam os estudos mais cedo, depois de prometidas aos seus noivos.

Os números ajudam-nos a perceber, afinal, do que falamos. O mais recente estudo nacional sobre as comunidades ciganas na educação, divulgado pelo Ministério da Educação em 2018, mostra que o número de jovens de etnia cigana nas escolas duplicou em 19 anos. Se no ano letivo de 2016/2017 havia pelo menos 11 018 matriculados no ensino obrigatório, quase 20 anos atrás eram metade disso – 5921.

Para a irmã de IP, os estudos não foram uma paixão. Está casada e, também, a viver em Lisboa, não por força da tradição, mas “porque quis”. “Nós só seguimos os valores que queremos da comunidade. É ofensivo pensarem que somos todos iguais.”