CARAVANA 108  –  EDITORIAL

Este número da Caravana dá um relevo muito especial à comemoração do dia 8 de abril, Dia Internacional do Povo Cigano, desde o histórico primeiro Congresso Internacional do Povo Cigano que se realizou em Londres em 8 de abril de 1971. Nesse dia foi proclamado o direito do povo cigano à sua identidade, foram consagrados o seu hino – Gelem Gelem (caminha, caminha) -, a sua bandeira e a personalidade da sua cultura, sendo como tal reconhecida pela ONU.  As celebrações por organizações tanto ciganas,   como não ciganas, com a participação de responsáveis ciganos, foram afirmações das capacidades e potencialidades dos próprios ciganos  para determinar a sua afirmação diferenciada mas responsável nas sociedades em se inserem.

Muito importante é igualmente a afirmação inequívoca do responsável pelo Desenvolvimento Humano na Santa Sé, Cardeal Czerny, S.J., na sua mensagem aos representantes na reunião anual do CCIT (Comité Católico Internacional para os Ciganos) de que os discursos populistas de ódio, intolerância e exclusão dos ciganos são intrinsecamente incompatíveis com o Evangelho.

Algo do muito que se vem fazendo em prol da inclusão social dos ciganos é ainda referido, não sem nos deixar o sentimento amargo do tanto que há ainda por fazer, designadamente na área da habitação na qual não podemos deixar de nos sentir como um faminto diante de uma barra de ouro em que não pode tocar. Com o financiamento do PRR para habitação a ponto de em parte ter que ser devolvido a Bruxelas por não aplicação, e as famílias ciganas compulsivamente nómadas do Alentejo a continuarem a sua desumana sina, não haveria de se dar prioridade absoluta aos gravíssimos problemas humanos destas populações e simplificarem-se os procedimentos burocráticos, supostamente legais – as leis que consagram o direito à habitação não deveriam prevalecer? –, e usar-se este privilégio que a UE nos ofereceu e sermos, por uma vez, agilmente humanos?

Francisco Monteiro