{"id":1113,"date":"2013-01-22T09:35:47","date_gmt":"2013-01-22T09:35:47","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/2013\/01\/22\/ainda-ha-ciganos-a-viver-a-primitiva\/"},"modified":"2013-01-22T09:35:47","modified_gmt":"2013-01-22T09:35:47","slug":"ainda-ha-ciganos-a-viver-a-primitiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/ainda-ha-ciganos-a-viver-a-primitiva\/","title":{"rendered":"AINDA H\u00c1 CIGANOS A VIVER \u00c0 \u201cPRIMITIVA\u201d"},"content":{"rendered":"<p>AINDA H\u00c1 CIGANOS A VIVER \u00c0 \u201cPRIMITIVA\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 inacredit\u00e1vel, mas na nossa regi\u00e3o ainda h\u00e1 ciganos que vivem como antigamente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a nossa mem\u00f3ria j\u00e1 que abrange esse \u201cantigamente\u201d, mas sim a literatura e a tradi\u00e7\u00e3o oral.<\/p>\n<p>Pois por c\u00e1 vive ainda pelo menos uma fam\u00edlia sem nunca ter tido casa, sem nunca ter conhecido qualquer conforto, dormindo ao deus dar\u00e1, comendo o que calha e pedindo esmola.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Dizem-nos que \u00e0s vezes s\u00e3o vistos a pernoitar debaixo da ponte de Ponte de Sor e noutros locais.<\/p>\n<p>O Ant\u00f3nio Agostinho nasceu em Nisa h\u00e1 57 anos e vive, se assim se pode dizer, com a m\u00e3e, Leonor Guila, que nasceu em Portalegre n\u00e3o sabe h\u00e1 j\u00e1 quantos anos e vi\u00fava desde h\u00e1 muito de Ant\u00f3nio Fernandes..<\/p>\n<p>A velhota aparenta os sintomas de uma idade que deve ser a sua, com a senilidade a marcar forte presen\u00e7a, conjugando-se com a simplicidade do filho solteiro.<\/p>\n<p>Acrescentam-nos que por vezes tamb\u00e9m uma filha, irm\u00e3 do Agostinho, aumenta a fam\u00edlia, mas essa filha estar\u00e1 durante parte do tempo com outros familiares a residir numa terra pr\u00f3xima do seu circuito habitual.<\/p>\n<p>Pass\u00e1mos pela carro\u00e7a, puxada pelo raqu\u00edtico Ru\u00e7o (foi-nos apresentado mais tarde) e empurrada tamb\u00e9m pelo Agostinho, numa manh\u00e3 de nevoeiro intenso, pr\u00f3ximo do cruzamento da EN.118 com a estrada para Ponte de Sor, ali \u00e0 Margalha.<\/p>\n<p>O apelo daquela vis\u00e3o recortada no nevoeiro fez-nos voltar para tr\u00e1s, com o objectivo \u00fanico de registar a plasticidade daquela imagem.<\/p>\n<p>No entanto perdemo-los, com grande pena, e fic\u00e1mos apenas com aquela imagem fugaz que hav\u00edamos visto pelo retrovisor.<\/p>\n<p>Por coincid\u00eancia nesse mesmo dia e em regresso de terras da Beira encontramos uns ciganos a acampar junto \u00e0 rotunda de Cadafaz e Belver, ali tangente a Gavi\u00e3o.<\/p>\n<p>Eram eles, de quem j\u00e1 sab\u00edamos alguma hist\u00f3ria, que eles nos acrescentaram, e que outros depois nos explicaram melhor.<\/p>\n<p>\u00c9 uma vis\u00e3o primitiva no nosso tempo.<\/p>\n<p>Com alguma admira\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m com uma simpatia carregada de humildade receberam a nossa aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estavam a comer e por causa de n\u00f3s pararam a refei\u00e7\u00e3o, que por talheres tinham as m\u00e3os e por comida arroz conjugado com toucinho, uma pata de galinha e mais alguma coisa num prato.<\/p>\n<p>O lume havia afagado uma panela de ferro onde a comida foi aquecida. Lavada depois, \u00e0 nossa frente, com uma \u00e1gua que n\u00e3o percebemos de onde veio e limpa depois com erva, ali apanhada.<\/p>\n<p>O burro Ru\u00e7o, que entretanto nos\u00a0 havia sido apresentado, entretinha-se a pastar, que ali havia erva naquele ermo, sorte que o burro nem sempre tem, quase o ouvimos garantir.<\/p>\n<p>Entretanto e porque j\u00e1 seriam uma tr\u00eas da tarde, o Agostinho ia montando a barraca.<\/p>\n<p>Com uns pl\u00e1sticos, uns cord\u00e9is e uns paus de vassoura que habilmente ia cortando para fazerem de estaca, ao amparo de um escanzelado sobreiro estava garantida a passagem de mais uma g\u00e9lida noite de inverno e que o sol \u00e0quela hora at\u00e9 parecia querer enganar.<\/p>\n<p>O Agostinho, soubemo-lo, \u00e9 popular por aquelas bandas. Como que faz parte do tempo. Sempre por ali andou.<\/p>\n<p>Diz-nos que o seu poiso anda pelo Castelo Sernado (ou Comenda), por Vale de Gavi\u00f5es, gavi\u00e3o e Ponte de Sor. \u00c9 o seu mundo.<\/p>\n<p>Casa n\u00e3o tem&#8230; nem nunca teve.<\/p>\n<p>Diz-nos ent\u00e3o a m\u00e3e, que \u00e0s vezes come\u00e7a a falar de forma inintelig\u00edvel, que nunca dormiu debaixo de um tecto.<\/p>\n<p>E para tudo o resto? \u201cN\u00e3o h\u00e1 dinheiro\u201d, respondem.<\/p>\n<p>\u201cNunca tivemos casa, fomos criados pelo campo\u201d.<\/p>\n<p>E \u201cse me dessem uma casa? Ent\u00e3o n\u00e3o havia de querer, pelo menos estava debaixo de telha\u201d, exclama Leonor Guila, que at\u00e9 arrebita com a pergunta, apesar de saber que para si nem sonho \u00e9, quando muito miragem.<\/p>\n<p>E quanto \u00e0 sa\u00fade? \u201cPouca\u201d, diz-nos o filho, apontado como sendo o pior da vida que levam \u201co muito frio, e tamb\u00e9m o calor\u201d.<\/p>\n<p>Mas, e vivem de qu\u00ea? \u201cO pessoal tem pena da gente e sempre vai dando\u201d.<\/p>\n<p>Vive-se assim ainda, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, deste modo primitivo em pleno s\u00e9c. XXI.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos se o Agostinho e a sua m\u00e3e s\u00e3o felizes, mas suspeitamos que n\u00e3o. N\u00e3o sabemos tamb\u00e9m se seriam capazes de viver numa casa, e tamb\u00e9m temos d\u00favidas.<\/p>\n<p>Sabemos, isso sim, que passam muito frio. E se n\u00e3o passam fome, muitas vezes comem o que nem imaginamos, de modo que nem sequer suspeit\u00e1vamos. E gra\u00e7as apenas \u00e0 caridade de quem os conhece desde sempre.<\/p>\n<p>Entretanto, da sua pr\u00f3pria etnia, muitos recebem da Seguran\u00e7a Social aquilo a que jamais t\u00eam direito.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que o Agostinho e m\u00e3e vivem num mundo deles, muito pr\u00f3prio, e n\u00f3s vivemos no nosso, que por breves instantes se cruzou com o deles.<\/p>\n<p>N\u00e3o temos no entanto a certeza de qual destes dois mundos \u00e9 mais primitivo, mais rude, mais insens\u00edvel, mas parece-nos que n\u00e3o \u00e9 o deles.<\/p>\n<h2>MC<\/h2>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AINDA H\u00c1 CIGANOS A VIVER \u00c0 \u201cPRIMITIVA\u201d \u00c9 inacredit\u00e1vel, mas na nossa regi\u00e3o ainda h\u00e1 ciganos que vivem como antigamente. N\u00e3o \u00e9 a nossa mem\u00f3ria j\u00e1 que abrange esse \u201cantigamente\u201d, mas sim a literatura e a tradi\u00e7\u00e3o oral. 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