{"id":1421,"date":"2016-04-29T08:49:17","date_gmt":"2016-04-29T08:49:17","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/2016\/04\/29\/mulheres-ciganas-universitarias\/"},"modified":"2016-04-29T08:49:17","modified_gmt":"2016-04-29T08:49:17","slug":"mulheres-ciganas-universitarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/mulheres-ciganas-universitarias\/","title":{"rendered":"Expresso \u2013 1\u00ba caderno (2 abr) &#8211; DIVERSOS"},"content":{"rendered":"<p><strong>Expresso \u2013 1\u00ba caderno<\/strong><strong><strong> <\/strong>(2 abr) &#8211; DIVERSOS<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Mulheres Ciganas Universit\u00e1rias<\/span><\/p>\n<p><em>Mudan\u00e7a: Cada vez mais raparigas de etnia cigana estudam para l\u00e1 da prim\u00e1ria. A tradi\u00e7\u00e3o cede \u00e0 crise das feiras, que obriga a novas compet\u00eancias. Projeto pioneiro levou este ano 11 jovens para a universidade<\/em><\/p>\n<p>Teresa Vieira (TV), 26 anos, \u00e9 estudante de Sociologia, no ISCTE, em Lisboa. \u201cTudo normal se ela n\u00e3o fosse cigana. Mulher cigana n\u00e3o anda sozinha, n\u00e3o conduz, n\u00e3o estuda al\u00e9m da quarta classe. Mulher cigana casa cedo, cuida da casa, dos filhos, do marido, vai para o mercado. Mas a tradi\u00e7\u00e3o est\u00e1 a mudar, devagarinho. As feiras deixaram de dar dinheiro\u201d. \u201cAs grandes superf\u00edcies destru\u00edram o neg\u00f3cio (das feiras) e os pais perceberam que tinha de estudar. O meu pai confiou em mim e eu sou 100% certinha\u201d. A necessidade de assegurar a retid\u00e3o do comportamento \u00e9 a marca da educa\u00e7\u00e3o que teve, da etnia que tem. TV orgulha-se de ser cigana, mas a tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se orgulha de ela estudar. \u201cNingu\u00e9m me atira pedras, mas eu n\u00e3o sou a mulher ideal para ningu\u00e9m, nem a nora que algu\u00e9m queira\u201d, explica. \u201cMesmo sendo cigana 24 horas por dia, s\u00f3 porque ousou sair das saias da comunidade e misturar-se com a \u2018comunidade maiorit\u00e1ria\u2019 e \u2018ser mal vista\u2019 por isso. Sente-se diferente de um lado e do outro.\u201d<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Foi por sua vontade que levou os estudos muito para l\u00e1 do habitual e agora sente o reverso da conquista. \u201cAs minhas primas e amigas est\u00e3o todas casadas. Praticamente j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 rapazes solteiros (ciganos) da minha idade.\u201d TV n\u00e3o equaciona casar fora da comunidade.<\/p>\n<p>Entrou para a Universidade em setembro de 2015, integrada no Opr\u00e9 Chaval\u00e9 \u2013 \u201cErguei-vos Jovens\u201d, em romani \u2013 o primeiro projeto nacional de integra\u00e7\u00e3o de jovens de etnia cigana no ensino superior. Promovido pela Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, em parceria com a Associa\u00e7\u00e3o Letras N\u00f3madas, apresentou esta semana o balan\u00e7o do grupo piloto: 11 jovens sub-30, seis rapazes e cinco raparigas, integrados em universidades de todo o pa\u00eds, terminaram todos o primeiro semestre com aproveitamento. Entre os cursos dominam a Anima\u00e7\u00e3o Sociocultural e Servi\u00e7o Social \u2013 querem ser mediadores dentro da comunidade -, mas h\u00e1 tamb\u00e9m Eletr\u00f3nica e Automa\u00e7\u00e3o Naval, Seguran\u00e7a Alimentar e Gest\u00e3o de Recursos Humanos.<\/p>\n<p>O quase equil\u00edbrio de sexos \u00e9 enganador, porque Portugal tem a maior disparidade de g\u00e9nero na comunidade, quase 45% das mulheres ciganas com menos de 16 anos s\u00e3o analfabetas em compara\u00e7\u00e3o com 23% dos homens; 40% das mulheres nunca foram \u00e0 escola, o que s\u00f3 acontece a 21% dos homens, l\u00ea-se no \u00faltimo estudo da Ag\u00eancia dos Direitos Fundamentais da UE.<\/p>\n<p>Estes jovens foram \u201cbusc\u00e1-los a casa\u201d: quem trabalha junto das comunidades os referenciou-os porque reuniam as condi\u00e7\u00f5es \u2013 12\u00ba ano ou mais de 23 anos e o 9\u00ba ano. Depois dois mediadores ciganos do projeto foram falar com as fam\u00edlias, porque a permiss\u00e3o tinha que vir da\u00ed.<\/p>\n<p>Olga Mariano (OM), presidente da Associa\u00e7\u00e3o Letras N\u00f3madas, de 66 anos, explica que \u201ccom o fim das feiras a atitude perante a educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 a mudar. H\u00e1 cada vez mais consci\u00eancia de que \u00e9 a chave para mudar o seu futuro, e que n\u00e3o perdem a identidade cigana por continuarem a estudar\u201d. Foi depois de enviuvar que OM voltou a estudar primeiro frequentando uma forma\u00e7\u00e3o para mediadores culturais, at\u00e9 completar o 12\u00ba ano. \u201cE nunca me afastei um mil\u00edmetro da minha cultura. \u00c9 isso que digo aos pais, que os filhos podem ser tudo aquilo que querem ser sem deixarem de ser quem s\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No grupo piloto que se formou, TV deixou de se sentir diferente, porque j\u00e1 conheceu C\u00e1tia, do Algarve; a Luana, de Viana do Castelo; a T\u00e2nia, da Figueira da Foz. E o Francisco, o Benjamim, o Jos\u00e9, o Eduardo, o Manuel e o Bruno. Ali \u00e9 igual na diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cO Opr\u00e9 Chaval\u00e9 \u00e9 um projeto fant\u00e1stico, que quebra o ceticismo da comunidade. Mas \u00e9 preciso que se prolongue, que passe o programa\u201d, afirma Pim\u00e9nio Teles (PT), membro do Conselho Consultivo do Observat\u00f3rio das Comunidades Ciganas. Ainda n\u00e3o est\u00e1 assegurada a continuidade do projeto, que n\u00e3o avan\u00e7a sem entidades que o financiem. Os alunos t\u00eam as propinas e os transportes pagos para o primeiro ano de curso. Mas o apoio acaba a\u00ed. \u201cNenhum destes 11 estaria na universidade sem o projeto. Estes jovens existem, s\u00f3 precisam de ser incentivados\u201d, diz PT. J\u00e1 h\u00e1, ali\u00e1s, uma lista de candidatos em espera. O sucesso do grupo piloto e o passa-palavra dentro dos bairros acordou sonhos um pouco por todo o pa\u00eds. At\u00e9 OM entregou a sua candidatura no ISCTE, porque se vai licenciar em Servi\u00e7o Social. \u201c\u00c9 s\u00f3 mais uma barreira que cai! Sou cigana, uma barreira; sou mulher, outra barreira; sou vi\u00fava, outra barreira; tenho 60 anos, outra barreira. Agora vou ser universit\u00e1ria.\u201d Com ela leva os filhos Jair, 35, para Psicologia, e Noel, 41, tamb\u00e9m para o Servi\u00e7o Social.<\/p>\n<p>No Fogueteiro, no pr\u00e9dio a seguir ao de OM, Teresa Amorim, 19 anos, fez outra escolha: parar de estudar porque um dia encontrou uma vi\u00fava que lhe disse que era falada. E a tradi\u00e7\u00e3o falou mais alto. Era aluna de cincos e era j\u00e1 a \u00fanica aluna cigana na E.B. Paulo da Gama. \u201cO nossos futuro depende da opini\u00e3o dos outros. Sa\u00ed. Hoje n\u00e3o me faz falta. Adoro ler e escrever todos os dias, mas o sonho de cigana, o meu sonho \u00e9 casar, ter filhos, ser dona de casa. E j\u00e1 estou a passar da idade. \u201cA maioria das meninas ciganas ainda decide como ela.<\/p>\n<p><strong>Legenda foto ATD: <\/strong>O \u201cmuro da vergonha\u201d derrubado em Beja \u2013 desenho do Movimento Internacional ATD (A\u00e7\u00e3o de todos pela Dignidade) Quarto Mundo, em <em>Carta aos amigos do mundo \u2013 F\u00f3rum por um mundo sem mis\u00e9ria<\/em><strong> <\/strong>(fev. 2015) \u2013 not\u00edcia publicada na Caravana<strong> <\/strong>n\u00ba 78 (jul-set 15)<em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Expresso \u2013 1\u00ba caderno (2 abr) &#8211; DIVERSOS Mulheres Ciganas Universit\u00e1rias Mudan\u00e7a: Cada vez mais raparigas de etnia cigana estudam para l\u00e1 da prim\u00e1ria. A tradi\u00e7\u00e3o cede \u00e0 crise das feiras, que obriga a novas compet\u00eancias. 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