{"id":1507,"date":"2017-11-06T08:48:42","date_gmt":"2017-11-06T08:48:42","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/2017\/11\/06\/portugal-catolico-a-beleza-na-diversidade-um-capitulo-sobre-a-comunidade-cigana\/"},"modified":"2017-11-06T08:48:42","modified_gmt":"2017-11-06T08:48:42","slug":"portugal-catolico-a-beleza-na-diversidade-um-capitulo-sobre-a-comunidade-cigana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/portugal-catolico-a-beleza-na-diversidade-um-capitulo-sobre-a-comunidade-cigana\/","title":{"rendered":"PORTUGAL CAT\u00d3LICO. A BELEZA NA DIVERSIDADE: UM CAP\u00cdTULO SOBRE A COMUNIDADE CIGANA"},"content":{"rendered":"<p><strong>PORTUGAL CAT\u00d3LICO. A BELEZA NA DIVERSIDADE: UM CAP\u00cdTULO SOBRE A COMUNIDADE CIGANA<\/strong><\/p>\n<p><em>Do cap\u00edtulo sobre a &#8220;comunidade cigana&#8221;, da autoria da Professora Doutora Manuela Mendon\u00e7a, Presidente do Secretariado Diocesano de Lisboa da Pastoral dos Ciganos, no livro &#8220;Portugal Cat\u00f3lico. A Beleza na Diversidade&#8221;, publicado pelo C\u00edrculo de Leitores e que foi oferecido ao Papa Francisco, publicamos o seguinte excerto:<\/em><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>CIGANOS EM PORTUGAL<\/strong><em> <\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>&#8230; A presen\u00e7a do grupo cigano em Portugal tem mais de cinco s\u00e9culos. O primeiro testemunho escrito que se lhe refere \u00e9 anterior a 1516. Trata-se de uma poesia sarc\u00e1stica, em que aparece ligado \u00e0 magia (<em>Cancioneiro Geral<\/em>). Em 1521, Gil Vicente escreveu o <em>Auto das Ciganas<\/em>. &#8230; Considerando o conhecimento manifesto nestes textos, acreditamos numa presen\u00e7a do grupo em Portugal desde a segunda metade do seculo XV.<\/p>\n<p>Olhados inicialmente com curiosidade pelas popula\u00e7\u00f5es, rapidamente se manifestou a desconfian\u00e7a nesses rec\u00e9m-chegados, de vida e apar\u00eancia estranhas. Eram n\u00f3madas que, sem meio de subsist\u00eancia, se dedicavam a actividades menos convencionais. Considerados marginais, em breve se viram acusados de toda a esp\u00e9cie de males que assolavam o reino. E a sucessiva chegada de novos grupos intensificou o descontentamento dos portugueses.<\/p>\n<p>Os ciganos passaram ent\u00e3o a ser olhados como indesejados. Por isso as queixas n\u00e3o se fizeram esperar, registando-se as primeiras nas Cortes de 1525. Pedia-se ao rei que \u201c\u2026aja por bem que em tempo algum entrem ciganos em vossos reinos, porque deles n\u00e3o resulta outro proveito sen\u00e3o muitos furtos que fazem e muitas feiti\u00e7arias que fingem saber\u2026\u201d. Na sequ\u00eancia, D. Jo\u00e3o III determinou que \u201c\u2026 n\u00e3o entrem ciganos em meus reinos\u2026\u201d. E, em 1526, o mesmo rei faria a primeira lei de expuls\u00e3o, \u201c\u2026 os ciganos n\u00e3o entrem no reino e saiam os que nele estiverem\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo de 300 anos, seguiram-se novas leis e consequentes julgamentos. Deles resultaram as condena\u00e7\u00f5es \u00e0s gal\u00e9s e ao ex\u00edlio. Por esta via seguiram os ciganos portugueses para \u00c1frica e para o Brasil. E, no entanto, a sua presen\u00e7a em Portugal continuou a ser um facto, sendo certo que a persegui\u00e7\u00e3o fechou o grupo, cristalizando leis e h\u00e1bitos.<\/p>\n<p>Com a monarquia liberal, os ideais de <em>liberdade, igualdade e fraternidade<\/em> tamb\u00e9m se aplicaram aos ciganos. Por isso, em 1822 foi concedida a cidadania a todos os nascidos em Portugal; em 1852 a lei determinou que ningu\u00e9m poderia ser condenado apenas por ser cigano. Estas medidas beneficiaram, obviamente, o grupo perseguido. No entanto, n\u00e3o foram suficientes para que ele fosse plenamente reconhecido.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os ideais republicanos iriam favorecer este povo. Se, no entanto, em 1911 se lhe reconhecia \u201c\u2026 a igualdade, do ponto de vista jur\u00eddico\u201d, a lei determinava\u00a0 \u201c\u2026 uma severa vigil\u00e2ncia sobre os ciganos\u2026 cuja identidade \u00e9 sempre duvidosa\u2026\u201d (Decreto 6950, de 26\/6\/1920, arts 182 a 185<em>)<\/em>. Estes artigos viriam a ser revogados a 20\/5\/1980, pela Resolu\u00e7\u00e3o 179\/80 do Conselho da Revolu\u00e7\u00e3o, por serem inconstitucionais. Mas os ciganos continuavam a ser olhados como censur\u00e1veis e colocados sob suspeita, o que se confirma em diversas <em>Posturas Municipais<\/em>. Apesar de consagrada a inviolabilidade de domic\u00edlio, a lei continuou a determinar uma \u201cespecial vigil\u00e2ncia relativamente aos n\u00f3madas\u201d. E, no entanto, a actual Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa consagra o direito \u00e0 \u201cigualdade\u201d (artigo 13).<\/p>\n<p>A partir de 1960 verificou-se uma significativa altera\u00e7\u00e3o no quotidiano tradicional deste povo que, como tantos portugueses, em grande n\u00famero deixou o mundo rural atra\u00eddo pelo meio urbano. Estabelecidos em bairros de barracas, tal como muitas outras fam\u00edlias que comungavam a mesma esperan\u00e7a de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, muitos ciganos se foram progressivamente sedentarizando. Mas, vivendo nestas franjas sociais, continuam a ser um grupo estigmatizado, que mant\u00e9m as tradicionais caracter\u00edsticas materiais: dificuldades econ\u00f3micas, de integra\u00e7\u00e3o social, habita\u00e7\u00e3o degradada, insucesso escolar ou aus\u00eancia de escolaridade e imprepara\u00e7\u00e3o profissional. O cigano continua a ser agente passivo de um processo que n\u00e3o foi acompanhado convenientemente, tanto a n\u00edvel econ\u00f3mico como social, cultural e at\u00e9 religioso.<\/p>\n<p>Por outro lado, a sedentariza\u00e7\u00e3o, que potenciou durante anos a venda ambulante, n\u00e3o evita a sua extin\u00e7\u00e3o. Todavia, essa actividade mant\u00e9m-se, na comunidade cigana, como \u201cmodelo\u201d ainda pensado como profiss\u00e3o ideal para o adulto. Tal determina que o jovem, quase sempre desinteressado da escola a partir da adolesc\u00eancia, n\u00e3o se prepare profissionalmente para outra ocupa\u00e7\u00e3o. Actualmente, a grande maioria n\u00e3o ultrapassa o 6\u00ba. ano de escolaridade.<\/p>\n<p>De entre as marcas tradicionais da cultura cigana deve evidenciar-se a sua profunda religiosidade. Um importante elemento, desde cedo transmitido \u00e0s crian\u00e7as, \u00e9 o temor de Deus. Os ciganos portugueses mant\u00eam, relativamente ao sobrenatural, a marca tradicional: Deus \u00e9 pensado como um Cigano na m\u00e1xima perfei\u00e7\u00e3o, poderoso e triunfante, protector da Fam\u00edlia, generoso como um Pai; Deus humano e pr\u00f3ximo, que ama e oferece a natureza.\u00a0 Algu\u00e9m a quem se recorre,\u00a0 Algu\u00e9m com quem se dialoga.<\/p>\n<p>Associado a essa religiosidade, o culto e respeito pelos mortos \u00e9 igualmente apreendido pelas crian\u00e7as. Aos mortos, oferece-se o pranto; rende-se homenagem; colocam-se problemas; constroem-se monumentos funer\u00e1rios e permanece-se longas horas com eles no cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>E como responde a comunidade cat\u00f3lica aos problemas destes portugueses? Localmente, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, algumas crian\u00e7as e adolescentes frequentam as catequeses paroquiais e alguns jovens integram grupos juvenis. Todavia, tal constitui excep\u00e7\u00e3o. Para esta realidade muito contribuiu a ades\u00e3o quase total da popula\u00e7\u00e3o cigana \u00e0 Igreja Evang\u00e9lica \u201cCigana\u201d, que considera \u201csua\u201d e que surgiu em Portugal nos anos setenta. Com Pastores ciganos, este modo de se relacionar com o \u201cdivino\u201d responde \u00e0s respectivas sensibilidades. Se, na comunidade cat\u00f3lica, o cigano se dilui no meio do grande grupo e \u00e9 chamado a uma forma de express\u00e3o que n\u00e3o compreende, na \u201csua\u201d Igreja ele manifesta-se tal como \u00e9, sem receio de sair dos c\u00e2nones que o obrigam a um comportamento est\u00e1tico. Nesta forma de ades\u00e3o ao espiritual se inserem quase todas as fam\u00edlias e, com elas, crian\u00e7as e jovens.<\/p>\n<p>Este quadro define a maior parte da popula\u00e7\u00e3o cigana portuguesa. No entanto, importa salientar a exist\u00eancia de duas minorias dentro desta comunidade, embora nas ant\u00edpodas uma da outra:<\/p>\n<p>&#8211; A dos (poucos) elementos que fizeram um percurso escolar normal, tendo obtido certifica\u00e7\u00e3o profissional ou mesmo licenciaturas.<\/p>\n<p>&#8211; Os grupos n\u00f3madas, que caminham sem um m\u00ednimo de condi\u00e7\u00f5es. Deslocam-se em carro\u00e7as puxadas por cavalos ou mulas, dormem em terrenos particulares ou p\u00fablicos, mas as determina\u00e7\u00f5es concelhias ainda em vigor n\u00e3o lhes permitem manter-se nos munic\u00edpios para l\u00e1 de determinado n\u00famero de horas\/dias.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a realidade tr\u00e1gica de fam\u00edlias a quem permanentemente se nega, ainda que por omiss\u00e3o, o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, \u00e0 escola, \u00e0 dignidade\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PORTUGAL CAT\u00d3LICO. A BELEZA NA DIVERSIDADE: UM CAP\u00cdTULO SOBRE A COMUNIDADE CIGANA Do cap\u00edtulo sobre a &#8220;comunidade cigana&#8221;, da autoria da Professora Doutora Manuela Mendon\u00e7a, Presidente do Secretariado Diocesano de Lisboa da Pastoral dos Ciganos, no livro &#8220;Portugal Cat\u00f3lico. 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