{"id":1518,"date":"2018-01-22T08:37:01","date_gmt":"2018-01-22T08:37:01","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/2018\/01\/22\/os-ciganos-dao-testemunho\/"},"modified":"2018-01-22T08:37:01","modified_gmt":"2018-01-22T08:37:01","slug":"os-ciganos-dao-testemunho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/os-ciganos-dao-testemunho\/","title":{"rendered":"OS CIGANOS D\u00c3O TESTEMUNHO"},"content":{"rendered":"<p>OS CIGANOS D\u00c3O TESTEMUNHO<\/p>\n<p><em>Do n\u00ba de dezembro de 2017 da revista Nevi Yag (que significa \u201cfogo novo\u201d em Romani &#8211; \u00f3rg\u00e3o do CCIT \u2013 Comit\u00e9 Cat\u00f3lico Internacional para os Ciganos) reproduzimos uma entrevista que Gabor Gyorgyovich (GG), da dire\u00e7\u00e3o do CCIT, fez ao P. Orsos Zoltan (OZ), cigano h\u00fangaro; a entrevista decorreu na par\u00f3quia de OZ, na Hungria).<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>GG: <strong>de onde vieste e de que condi\u00e7\u00f5es de vida?<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>OZ: nasci numa cabana cigana em Lov\u00e1szi. Tinha seis anos quando, com os meus irm\u00e3os, fomos separados da nossa fam\u00edlia por causa das condi\u00e7\u00f5es de vida deplor\u00e1veis. Na nossa fam\u00edlia sofremos muitas priva\u00e7\u00f5es, fome. O meu pai foi preso por diversas vezes por roubo de alimentos. Na escola n\u00e3o t\u00ednhamos motiva\u00e7\u00e3o, t\u00ednhamos sido educados numa liberdade completa. Em casa n\u00e3o t\u00ednhamos sequer um espa\u00e7o vital atribu\u00eddo \u00e0s crian\u00e7as. Quando t\u00ednhamos muitas visitas, para n\u00f3s, as crian\u00e7as, n\u00e3o sobrava onde dormir. Nem sequer se punha a quest\u00e3o de ir \u00e0 escola no dia seguinte. Muitas vezes entr\u00e1vamos em p\u00e2nico ao ver o nosso pai que tinha \u201cmolhado a garganta\u201d. Eu tinha inveja da felicidade familiar dos meus companheiros n\u00e3o ciganos que tinham preconceitos relativamente a mim e aos meus irm\u00e3os. Eles ignoravam a minha experi\u00eancia, por uma parte por causa da atmosfera da nossa fam\u00edlia e por outra, por causa dos seus preconceitos. O meu desejo mais profundo era sair deste mundo fechado, mas o medo, a fome, a incerteza, a falta de motiva\u00e7\u00e3o e de afeto, esfumaram todas as minhas esperan\u00e7as. Estes sentimentos de mal estar desapareceram quando me encontrei em Balatonber\u00e9ny, em casa dos meus pais adotivos.<\/p>\n<p>GG: <strong>os anos de adolesc\u00eancia trouxeram-te algum al\u00edvio? Esses anos ficaram marcados por que alegrias e desgostos? Havia algu\u00e9m que acreditava<\/strong> em ti?<\/p>\n<p>OZ: As minhas primeiras experi\u00eancias foram bastante desencorajadoras. Eu pensei que com nesta &#8220;mudan\u00e7a&#8221; as coisas iriam mudar, porque a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o local era cigana, mas enganei-me. Os meus companheiros constataram que eu queria aprender a s\u00e9rio e esta constata\u00e7\u00e3o despertou a sua avers\u00e3o. Os n\u00e3o Ciganos tinham medo de mim e consideraram-me como um jovem antip\u00e1tico e os Ciganos n\u00e3o compreenderam as minhas inten\u00e7\u00f5es. No liceu, durante um tempo, eu era o \u00fanico Cigano. Se houvesse um roubo, imediatamente mostravam desconfian\u00e7a relativamente a mim. Muitas vezes fui apanhado num fogo cruzado. O problema era que as pessoas n\u00e3o me conheciam. Os primeiros acontecimentos positivos vieram dos meus companheiros de internato. Esses conheceram-me verdadeiramente bem, e rodearam-me com o seu afeto e apoio. Contra as insinua\u00e7\u00f5es pude sempre contar com a sua ajuda. Devo-lhes muito. gra\u00e7as a eles eu pude sentir que eles tinham confian\u00e7a e que contavam comigo. No decurso dos anos que passei no liceu, muitas das minhas feridas\u00a0 mentais sararam. Terminei os meus estudos com excelentes notas.<\/p>\n<p>GG: <strong>como nasceu a tua voca\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s de que etapas chegaste ao sacerd\u00f3cio?<\/strong><\/p>\n<p>OZ: Foram os meus pais adotivos que me levaram \u00e0 igreja. A primeira missa \u00e0 qual assisti com sentimentos variados, foi uma dece\u00e7\u00e3o para mim.\u00a0 Tinha a impress\u00e3o que toda a gente olhava para mim e tudo isso me parecia estrangeiro. A primeira coisa que chamou a minha aten\u00e7\u00e3o foi o Evangelho. Nunca na minha vida tinha ouvido um ensinamento como aquele. Era um sentimento inquietante, eu poderia dizer que uma voz interna me disse: &#8220;aproxima-te para eu te poder ver!&#8221;\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Eu estava no fundo da igreja, mas senti um impulso para ir para a frente. Depois da missa, perguntei ao sacrist\u00e3o para poder ocupar o primeira fila. Ele\u00a0 fez-me um sorriso encantador e disse-me: &#8220;ajuda \u00e0 missa!&#8221;\u00a0 Assim aconteceu que em breve me encontrei entre as crian\u00e7as do coro. Pouco tempo depois, domingo ap\u00f3s domingo, escutei com admira\u00e7\u00e3o as homilias do nosso p\u00e1roco, e este pensamento ousado n\u00e3o me largava: ser\u00e1 poss\u00edvel que tamb\u00e9m eu me possa dedicar a esta voca\u00e7\u00e3o? Se olho para tr\u00e1s para a minha inf\u00e2ncia, vejo que Deus sempre velou por mim e me conduziu e me chamou a ser o seu &#8220;mensageiro&#8221;. O meu caminho para a f\u00e9 foi a direito, foi cheio de sofrimentos. Enfim, foi o Evangelho que mudou a minha vida. Descobri a sua for\u00e7a determinante para curar a vida humana. Se podia mudar a minha vida, tamb\u00e9m podia faz\u00ea-lo com as vidas dos outros. Foi por isso que escolhi como lema as palavras de S. Paulo: <em>&#8220;Tornei-me ministro da Igreja pelo minist\u00e9rio que Deus me confiou: realizar junto de v\u00f3s\u00a0 a vinda da Palavra de Deus.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>GG: <strong>resumindo as tuas experi\u00eancias de 14 anos de sacerd\u00f3cio, como \u00e9 que v\u00eas a situa\u00e7\u00e3o dos Ciganos h\u00fangaros?<\/strong><\/p>\n<p>OZ: N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o desesperante como se pensa, em geral. De resto, partilhando a opini\u00e3o do P. G\u00e9za D\u00fcl, entre n\u00f3s, trata-se mais de uma quest\u00e3o de mis\u00e9ria do que de uma quest\u00e3o cigana. Para mim, a pastoral n\u00e3o se limita a &#8220;ocupar-se dos Ciganos&#8221;, mas ela significa a sensibiliza\u00e7\u00e3o da sociedade maiorit\u00e1ria para ser mais acolhedora, e, ao mesmo tempo, a procura de uma melhor compreens\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o por parte dos Ciganos. A qualidade da rela\u00e7\u00e3o deixa muito a desejar entre as duas popula\u00e7\u00f5es. Na minha opini\u00e3o, a efic\u00e1cia da pastoral depende mais dos Gadg\u00e9: sem eles, a nossa atividade ficar\u00e1 sem resultados. Eu vim para o meio dos meus paroquianos com um cora\u00e7\u00e3o aberto e desinteressado, mas, frequentemente, muitos entre eles me consideram um &#8220;instrumento&#8221;. A minha popularidade, relativamente elevada, que alcancei nos anos que passei nos media, n\u00e3o quero utiliz\u00e1-la de outro modo que n\u00e3o seja um instrumento de evangeliza\u00e7\u00e3o. Eu tenho convites, um pouco de todas as partes, e tamb\u00e9m eu pr\u00f3prio vou ver frequentemente\u00a0 os meus paroquianos. Efetuando visitas paralelas \u00e0s fam\u00edlias, constatei que os Ciganos me acompanharam para todo o lado, ao passo que junto dos Gadg\u00e9 encontrei indiferen\u00e7a. Visitei diversas par\u00f3quias e, segundo o que vi e ouvi, penso que a nossa Igreja vive tempos revolucion\u00e1rios. O desafio \u00e9 a catolicidade que n\u00e3o existe sem os Ciganos. Apesar dos problemas para assumir a sua identidade e a perda das suas ra\u00edzes, a capacidade dos Ciganos n\u00e3o oferece qualquer d\u00favida, o Esp\u00edrito Santo sopra tamb\u00e9m neles. N\u00f3s devemos explicar-lhes que Cristo n\u00e3o veio para os controlar. A n\u00f3s cabe-nos apresentar a imagem de Cristo que habita neles. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Atualmente h\u00e1 um grande problema: a assimila\u00e7\u00e3o e a luta quotidiana pela sobreviv\u00eancia ocupam um lugar priorit\u00e1rio acima de todas as outras coisas. Cito a observa\u00e7\u00e3o que ouvi em qualquer lado:&#8221; tu est\u00e1s t\u00e3o bem que tu n\u00e3o \u00e9s mais Cigano&#8221;. Na pastoral, encontro por vezes uma certa avers\u00e3o, da parte dos bispos e padres. Pela minha parte, tento fazer com que se consciencializem para que n\u00e3o se pode esperar a mudan\u00e7a, a n\u00e3o ser pela escolaridade, pelo trabalho e pelo cora\u00e7\u00e3o. Eu consegui formam uma comunidade ativa e um conjunto musical. Na administra\u00e7\u00e3o, posso contar com jovens da par\u00f3quia. Em setembro, vai ser lan\u00e7ado um curso com o fim de formar colaboradores da pastoral. O que nos falta ainda: uma casa comunit\u00e1ria, um col\u00e9gio para crian\u00e7as com talento e, antes de mais, &#8220;homens ponte&#8221; que possam servir de &#8220;modelos&#8221; para os outros. &#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OS CIGANOS D\u00c3O TESTEMUNHO Do n\u00ba de dezembro de 2017 da revista Nevi Yag (que significa \u201cfogo novo\u201d em Romani &#8211; \u00f3rg\u00e3o do CCIT \u2013 Comit\u00e9 Cat\u00f3lico Internacional para os Ciganos) reproduzimos uma entrevista que Gabor Gyorgyovich (GG), da dire\u00e7\u00e3o do CCIT, fez ao P. 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