{"id":1631,"date":"2020-10-15T09:03:24","date_gmt":"2020-10-15T09:03:24","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/2020\/10\/15\/voz-da-verdade-13-set-pastoral\/"},"modified":"2020-10-15T09:03:24","modified_gmt":"2020-10-15T09:03:24","slug":"voz-da-verdade-13-set-pastoral","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/voz-da-verdade-13-set-pastoral\/","title":{"rendered":"Voz da Verdade (13 set) &#8211; PASTORAL"},"content":{"rendered":"<p><strong>Voz da Verdade <\/strong><strong>(13 set) &#8211; PASTORAL<\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">\u201cCada face enriquece o todo\u201d <\/span><em>\u2013 p\u00e1gina principal<\/em><\/p>\n<p><em>Cardeal-Patriarca de Lisboa considera que o livro \u201cAprender a ser cigano hoje\u201d \u00e9 uma obra \u201cimprescind\u00edvel para realmente conhecer a comunidade cigana em Portugal\u201d. A autora Mirna Montenegro (MM), testemunha ao Jornal Voz da Verdade (VV) o \u201cqu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 viver nas margens\u201d. <\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">\u201cEstando com eles, percebi o qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 viver nas margens\u201d<\/span><\/p>\n<p><em>A autora da tese de doutoramento \u201cAprender a ser cigano hoje \u2013 empurrando e puxando fronteiras\u201d, agora publicada em livro pela Editorial C\u00e1ritas, fala da sua experi\u00eancia de mais de vinte anos de trabalho junto da comunidade cigana, onde aprendeu a \u201cfazer dos obst\u00e1culos recurso\u201d. Em entrevista ao Jornal Voz da Verdade (VV), Mirna Montenegro (MM) refere que \u201cningu\u00e9m pode ser exclu\u00eddo da sua fun\u00e7\u00e3o de bem-estar com o outro, em qualquer espa\u00e7o\u201d, e que essa miss\u00e3o, para o bem-comum, \u00e9 responsabilidade de todos. Publicamos excertos da entrevista:<\/em><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>VV<\/strong> <em>Come\u00e7ou a apresenta\u00e7\u00e3o do livro \u2018Aprender a ser cigano hoje\u2019 por ler um poema que escreveu no ano 2002, num momento de grande \u00abturbul\u00eancia\u00bb no Bairro da Bela Vista, em Set\u00fabal, que conheceu em 1992 \u2013 e sublinhava que foi ali que achou o sentido da generosidade\u201d e a \u201charmonia na desordem\u201d. Foram essas as maiores descobertas que fez essa realidade lhe foi apresentando?<\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>MM<\/strong> Sim. A maior descoberta foi, no meu curso de educadora, ter tudo planificado e quando chegou ali \u201cter deixado de planificar porque tinha que agarrar o imprevisto, o caos e a desordem\u201d, j\u00e1 que \u201c a forma como se lida com o imprevisto, o acaso e a desordem, n\u00e3o cabe nos livros que nos ensinam na escola. Aprendi a fazer dos obst\u00e1culos recurso, a dar a volta, a improvisar, a procurar coisas positivas onde as pessoas s\u00f3 v\u00eam negativo.\u201d<\/p>\n<p>\u2026 \u201cTudo o que se apregoa nos livros, tem confirma\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica ou n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>VV<\/strong> <em>Na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u2018Evangelli Gaudium\u2019, o Papa Francisco apresenta a figura do poliedro onde devem \u201cconfluir\u201d todas as partes, mantendo a sua originalidade e procurando assim \u201cum bem comum que verdadeiramente incorpore a todos\u201d. Este \u00e9 um objetivo que ainda hoje permanece distante dos nossos respons\u00e1veis pol\u00edticos? <\/em><\/p>\n<p><strong>MM<\/strong> \u201cA inten\u00e7\u00e3o \u00e9 essa. Os caminhos para chegar \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o dessa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 que \u00e0s vezes s\u00e3o desastrados, desajeitados\u2026 D\u00e3o azo \u00e0 viol\u00eancia porque n\u00e3o s\u00e3o suficientemente assertivos, nem incisivo na sua mensagem, no vazio que, \u00e0s vezes, existe e no qual as pessoas que s\u00e3o a favor da viol\u00eancia se metem\u201d.<\/p>\n<p><strong>VV <\/strong><em>Como \u00e9 que olha para a realidade da viol\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p><strong>MM <\/strong>\u201cMuito preocupada e assutada. Uma pessoa que defende ou que tenta dar dignidade \u00e0 pessoa humana dos ciganos ou das pessoas negras \u00e9 ostracizada, violentada at\u00e9 pelos brancos, pelos seus pares. \u00c9 caricato porque se tomo partido ou defendo os que s\u00e3o perseguidos ou rejeitados, sou rejeitada pelos brancos. Isso \u00e9 muito preocupante\u201d.<\/p>\n<p><strong>VV <\/strong><em>\u201cO que foi determinante e o que mais a \u201cpuxou\u201d para ter come\u00e7ado a trabalhar junto das comunidades ciganas, e, em particular, junto das crian\u00e7as?<\/em><\/p>\n<p><strong>MM<\/strong> \u201cEm primeiro lugar, porque sou educadora. A minha forma\u00e7\u00e3o inicial \u00e9 cuidar das crian\u00e7as e faz\u00ea-las desabrochar. Enquanto educadora, fui colocada ali (Bairro da Bela Vista, Set\u00fabal), pelo Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, num projeto de anima\u00e7\u00e3o informal e comunit\u00e1rio. Isso \u00e9 que, para mim, foi a maior d\u00e1diva, um acaso que transformou a minha vida. \u2026 Estando com eles, percebi o qu\u00e3o dif\u00edcil \u00e9 viver nas margens. Foi uma escolha que fiz porque me apaixonei pelo desafio, pela dificuldade, pela interpela\u00e7\u00e3o. \u2026 Sofri na pele o ser emigrante, tamb\u00e9m sofri xenofobia quando estive no estrangeiro. Revi-me nas pessoas que estavam ali comigo, senti-me identificada com elas e tentei, j\u00e1 que tinha esse privil\u00e9gio, fazer o melhor que pudesse e soubesse para emancipar e libertar essas pessoas e dar-lhes melhores perspetivas de vida, estando com elas com a dignidade que merecem.\u201d<\/p>\n<p><strong>VV <\/strong><em>Na sua opini\u00e3o, o que foi mudando e<\/em> <em>o que falta ainda fazer na integra\u00e7\u00e3o destas comunidades no nosso pa\u00eds? Como se gere tanta diversidade?<\/em><\/p>\n<p><strong>MM <\/strong>\u201cA diversidade vai sendo cada vez maior. Gerir o que \u00e9 vis\u00edvel e que nos interpela torna-se uma urg\u00eancia. Gerir a diferen\u00e7a, que \u00e9 invis\u00edvel, \u00e9 uma miss\u00e3o. \u00c0 medida que vamos desocultando as diferen\u00e7as culturais, tornam-se tantas e t\u00e3o diversas que \u00e9 dif\u00edcil geri-las sem melindrar\u201d. Cada um de n\u00f3s deve \u201ctentar n\u00e3o agredir o outro e saber escut\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p><strong>VV <\/strong><em>Essa miss\u00e3o que, como diz, \u00e9 de todos n\u00f3s, tamb\u00e9m passa pela educa\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p><strong>MM<\/strong> \u201cSim, na educa\u00e7\u00e3o e em tudo o que s\u00e3o espa\u00e7os p\u00fablicos. Por exemplo, at\u00e9 nos guichets da administra\u00e7\u00e3o, temos que dar o exemplo, na forma como atendemos as pessoas. Porque uma pessoa que \u00e9 mal atendida, agride. Claro que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 importante e come\u00e7a em casa \u2013 n\u00e3o na escola. Se as fam\u00edlias, quando v\u00e3o ao hospital, \u00e0 Seguran\u00e7a Social, ao centro de sa\u00fade, s\u00e3o mal atendidas, com pedras na m\u00e3o, levam para casa desaforos e desabafos\u2026 as crian\u00e7as ouvem, as crian\u00e7as sentem que os pais foram humilhados e levam isso para a escola. E, muitas vezes, a escola \u00e9 o espelho do que v\u00eam na sociedade. A escola n\u00e3o forma t\u00e1buas rasas. Ningu\u00e9m pode ser exclu\u00eddo da sua fun\u00e7\u00e3o de bem-estar com o outro, em qualquer espa\u00e7o. N\u00e3o \u00e9 a escola que faz milagres.\u201d<\/p>\n<p><strong>VV <\/strong><em>A partir do seu conhecimento, qual<\/em> <em>tem sido o contributo da Igreja Cat\u00f3lica junto das comunidades ciganas em Portugal?<\/em><\/p>\n<p><strong>MM<\/strong> \u201cComo em tudo, h\u00e1 locais onde funciona melhor e outros menos bem. da minha experi\u00eancia, sobretudo no Projeto N\u00f3mada, de trabalho em parceria, conseguimos cativar v\u00e1rias parcerias de pessoas muito crentes e ligadas \u00e0s Igrejas e que participaram nas nossas atividades. Tanto \u00e9 uma parceria a n\u00edvel individual, de gente com uma vida paroquial muito intensa e que adere a estas propostas, como pessoas, numa forma organizada, em locais onde trabalh\u00e1mos, com as miseric\u00f3rdias, com as IPSS de cariz cat\u00f3lico\u2026 N\u00f3s agarr\u00e1vamos todas as pessoas que nos apareciam, no sentido de as levar a aderir a uma ideia de bem-comum, de dignidade do ser humano\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Uma sociedade onde todos caibam<\/span><\/p>\n<p>Na apresenta\u00e7\u00e3o do livro de MM, \u201cAprender a ser cigano hoje \u2013 empurrando e puxando fronteiras\u201d, que teve lugar no dia 3 de setembro, na Feira do Livro, em Lisboa, feita pelo Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente (DMC) apelou a uma maior inclus\u00e3o das comunidades ciganas \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 \u2013 onde cada \u201ccontribui\u00e7\u00e3o\u201d pode e deve ajudar a reconstruir, como um todo o Portugal de amanh\u00e3. Referindo-se \u00e0 ideia do poliedro do papa Francisco, na sua Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u201cA alegria do Evangelho\u201d (n\u00ba 236), \u201ccomo princ\u00edpio constitutivo de sociedades onde caibamos todos, naquilo que temos em comum e que \u00e9 pr\u00f3prio de cada um; \u2026 a atual realidade \u00e9 certamente global, mas que tem muitas faces\u201d, sublinhou D. Manuel Clemente, acrescentando que \u201ccada face enriquece o todo e n\u00e3o se perde o conjunto. Assim, \u00e9 mais verdadeiro\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s somos todos portadores de uma mem\u00f3ria que se cimentou na nossa inf\u00e2ncia e que, por vezes, \u00e9 muito dif\u00edcil de destruir\u201d, referiu o DMC recordando que em Portugal existe atualmente cerca de uma centena de nacionalidades residentes, \u201ccom uma enorme variedade cultural e sociocultural nas hist\u00f3rias que transportam, consciente ou inconscientemente. (\u2026) Esta inclus\u00e3o numa sociedade a reconstruir, n\u00e3o ser\u00e1 o Portugal do antigamente, ser\u00e1 um Portugal novo, que acontecer\u00e1 com todas estas contribui\u00e7\u00f5es bem-vindas\u201d. E classificou esta obra de \u201cimprescind\u00edvel para realmente conhecer a comunidade cigana em Portugal\u201d.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"> <\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Casa comum<\/span><\/p>\n<p>\u201cPara que uma inclus\u00e3o da comunidade cigana possa ter sucesso, DMC apontou um sistema escolar \u2018que est\u00e1 dar frutos\u2019, mas em que tudo se articule, n\u00e3o apenas a proposta oficial da escola \u2013 porque essa \u00e9 geral -, mas tamb\u00e9m a inclus\u00e3o das fam\u00edlias, com as suas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s de mediadores e tudo o mais que a sociedade transporta\u2019. \u2018Se isto acontecer em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade cigana e a todas as outras comunidades que aqui temos, t\u00e3o variadas, elas sentir-se-\u00e3o em casa, naquela casa comum que n\u00f3s havemos de construir e que ainda n\u00e3o existe\u201d. Na cria\u00e7\u00e3o destes \u2018espa\u00e7os comuns de reconstru\u00e7\u00e3o social\u2019, para que todos se \u2018sintam em casa\u2019, mas para isso \u2018teremos que ser muito prudentes, cautelosos, nada ideol\u00f3gicos, muito abertos, muito recetivos\u2019, alertou.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voz da Verdade (13 set) &#8211; PASTORAL \u201cCada face enriquece o todo\u201d \u2013 p\u00e1gina principal Cardeal-Patriarca de Lisboa considera que o livro \u201cAprender a ser cigano hoje\u201d \u00e9 uma obra \u201cimprescind\u00edvel para realmente conhecer a comunidade cigana em Portugal\u201d. 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