{"id":1672,"date":"2021-10-12T09:02:18","date_gmt":"2021-10-12T09:02:18","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/2021\/10\/12\/juponline-pt-6-fev\/"},"modified":"2021-10-12T09:02:18","modified_gmt":"2021-10-12T09:02:18","slug":"juponline-pt-6-fev","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/juponline-pt-6-fev\/","title":{"rendered":"JUPONLINE.PT (6 fev)"},"content":{"rendered":"<p><strong>JUPONLINE.PT (6 fev)<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">CIGANOS: UMA HIST\u00d3RIA DE RACISMO<\/span><\/p>\n<p><em>continua\u00e7\u00e3o do n\u00ba 100<\/em><\/p>\n<p>\u201cSem trabalho a vida que qualquer pessoa \u00e9 feita de in\u00fameros expedientes e esquemas de sobreviv\u00eancia, que no caso dos ciganos se institucionalizaram. (\u2026) Nesta esfera de empobrecimento ascendente, surge a sa\u00edda para tr\u00e1ficos \u00e0 margem da lei, selando o preconceito que j\u00e1 existia. H\u00e1, claro, uma economia paralela da droga, assim como crimes violentos, tal como o h\u00e1 entre os \u00ablocais\u00bb, mas ningu\u00e9m julga o grupo de locais como um todo ou a sua fam\u00edlia por inteiro.<em> <\/em>Depois, mesmo que tal derive de uma equa\u00e7\u00e3o l\u00f3gica de pobreza \u00e0 criminalidade, o perigo de aceitar sem mais esse racioc\u00ednio, significa perpetuarmos o estigma de que a cultura de pobreza \u00e9 criminosa, ou de que qualquer marginal da sociedade \u2013 como se assume e \u00e9 definido aqui o cigano \u2013 \u00e9 \u201cnaturalmente\u201d um delinquente, omitindo da quest\u00e3o quem definiu essa equa\u00e7\u00e3o, quem determinou essas situa\u00e7\u00f5es, quem determina as condi\u00e7\u00f5es da economia e as possibilidades da subsist\u00eancia do dia-a-dia.\u201d (Alambique, IV, 2012)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A par deste confinamento for\u00e7ado em zonas indesej\u00e1veis das cidades e demais localidades, que refletem pol\u00edticas sociais irrespons\u00e1veis, que visaram primeiro a\u00a0guetiza\u00e7\u00e3o\u00a0da pobreza\u00a0em detrimento da resposta a flagelos sociais evidentes, o\u00a0cigano\u00a0\u00e9 v\u00edtima de\u00a0din\u00e2micas de poder, de vigil\u00e2ncia e coa\u00e7\u00e3o\u00a0que apenas contribuem para refor\u00e7ar o seu lugar na margem. James aponta para o\u00a0policiamento extremo\u00a0de que s\u00e3o alvo, n\u00e3o apenas por for\u00e7as de seguran\u00e7a que est\u00e3o frequentemente suscet\u00edveis a um extremar ideol\u00f3gico nocivo, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s das institui\u00e7\u00f5es sociais, educativas ou de sa\u00fade, que, ao inv\u00e9s de cumprirem o seu papel, agem como for\u00e7as policiais, recolhendo e partilhando dados que comprometem estas comunidades.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u201cNa atualidade, os portugueses da Vidigueira n\u00e3o ficam nem mais ricos nem menos pobres por perseguirem os ciganos que a\u00ed vivem. Os bejenses n\u00e3o ficam mais seguros por erguerem um muro \u00e0 volta de mais um gueto cigano, nem t\u00e3o pouco os pais e professores que os metem em turmas s\u00f3 para ciganos, ou os tentam enviar para outras escolas. Nem quem os insultam nos supermercados ganha mais ao fim do m\u00eas por essa raiva. Mas todos eles certamente sentem-se \u201cmais portugueses, mais patri\u00f3ticos, mais cultos, mais limpos, mais certos da sua \u00absuperioridade\u00bb identit\u00e1ria.\u201d (Alambique, IV, 2012)<\/p>\n<p>\u00c9, por isso, ap\u00f3s um exerc\u00edcio de reflex\u00e3o, o mais intelectualmente honesto poss\u00edvel, necess\u00e1rio repudiar toda e qualquer narrativa que assente sobre a premissa do\u00a0<strong>\u201cportugu\u00eas de bem\u201d<\/strong>, que procura incutir um tom moralizador \u00e0 pobreza, apontando dedos \u00e0queles que, ano ap\u00f3s ano, d\u00e9cada ap\u00f3s d\u00e9cada, t\u00eam suportado, est\u00e1ticos, a inoper\u00e2ncia de um Estado que, para camuflar a gest\u00e3o danosa dos sucessivos governos, nunca se coibiu de a instrumentalizar.<\/p>\n<p>Os ciganos constru\u00edram, connosco, nacionalidade.\u00a0Adolpho Coelho, em\u00a0<em>Os ciganos de Portugal: com um estudo sobre o cal\u00e3o <\/em>(1892), evoca os\u00a0\u201cmais de 250 homens d\u2019essa ra\u00e7a\u201d\u00a0que\u00a0\u201calistados no ex\u00e9rcito portugu\u00eas, desde a restaura\u00e7\u00e3o do reino\u201d serviram \u201cnas fronteiras \u00abcom zelo e valor com que j\u00e1 foram muito apremeados\u00bb.\u201d\u00a0Evoca, ainda, no esp\u00edrito de Thom\u00e9 Pinheiro da Veiga, \u201co caso d\u2019aquelle pobre cigano que serviu a sua p\u00e1tria adoptiva \u00abtr\u00eas annos cont\u00ednuos com suas armas e cavallo \u00e1 sua custa, sem soldo\u00bb, combatendo at\u00e9 \u00e0 morte por uma p\u00e1tria que, 400 anos depois, ainda persegue a sua etnia.<\/p>\n<p>Para finalizar, diz o autor que\u00a0<strong>\u201cesse facto basta para resgatar a ra\u00e7a cigana do opprobio de mais de quatro seculos e para nos fazer pensar em chamar os seus actuaes descendentes, por uma politica mais racional e humana que a dos nossos antepassados, ao conv\u00edvio da civilisa\u00e7\u00e3o.\u201d<\/strong><strong> <\/strong>Contudo, e como comprova a franca ades\u00e3o a uma linha ret\u00f3rica que tem como porta-estandarte o \u00f3dio a esta minoria, em abono de uma ideia de nacionalidade baseada na ignor\u00e2ncia, n\u00e3o podemos abster-nos de lutar pelo reconhecimento dos ciganos enquanto portugueses, legitimados por um legado de s\u00e9culos que nem reis conseguiram vergar.<\/p>\n<p><strong>Rafael Jesus<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JUPONLINE.PT (6 fev) CIGANOS: UMA HIST\u00d3RIA DE RACISMO continua\u00e7\u00e3o do n\u00ba 100 \u201cSem trabalho a vida que qualquer pessoa \u00e9 feita de in\u00fameros expedientes e esquemas de sobreviv\u00eancia, que no caso dos ciganos se institucionalizaram. 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