{"id":1688,"date":"2022-01-11T10:15:07","date_gmt":"2022-01-11T10:15:07","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/2022\/01\/11\/newsletter-obcig-out-2021-2\/"},"modified":"2022-01-11T10:15:07","modified_gmt":"2022-01-11T10:15:07","slug":"newsletter-obcig-out-2021-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/newsletter-obcig-out-2021-2\/","title":{"rendered":"Newsletter ObCig (out 2021)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Newsletter ObCig <\/strong>(out 2021)<\/p>\n<p><em>Deste n\u00famero da Newsletter do Observat\u00f3rio das Comunidades Ciganas, das sec\u00e7\u00f5es Vozes Ciganas sobre \u201cA Participa\u00e7\u00e3o Pol\u00edtico-C\u00edvica de Pessoas Ciganas\u201d e Divulga\u00e7\u00e3o \u2013 Associativismo, <\/em><em>destacamos os seguintes artigos de que apresentamos excertos:<\/em><\/p>\n<p><em> <\/em><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Maria Jo\u00e3o Silveira, candidata \u00e0s elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas no concelho de Estremoz <\/span><\/p>\n<p>Maria Jo\u00e3o Silveira (MJS), de 39 anos, 4\u00aa classe, trabalha no Lar de Santa Cruz, em Estremoz, como auxiliar de a\u00e7\u00e3o direta e candidatou-se \u00e0s elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas no concelho de Estremoz.<\/p>\n<p><strong>ObCig<\/strong>: <span style=\"text-decoration: underline;\">Percurso de participa\u00e7\u00e3o na esfera p\u00fablica<\/span>. Em que altura da sua vida come\u00e7ou a sentir necessidade de participar na esfera p\u00fablica e porqu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>MJS<\/strong>: A minha motiva\u00e7\u00e3o j\u00e1 vem desde muito nova, desde que eu me lembro como pessoa, logo ali na fase da adolesc\u00eancia. Tive oportunidades, houve alturas que ficou mais esquecido, mas sim desde que eu me lembro. Motiva\u00e7\u00f5es, \u00e9 tentar melhorar as coisas\u2026 Eu falo no s\u00edtio onde vivo, n\u00e3o falo em geral, eu falo na zona onde vivo, no Alentejo, no Alto-Alentejo, na minha cidade. \u00c9 tentar melhorar a vida das pessoas que c\u00e1 vivem, terem outras oportunidades, tentar melhorar principalmente as moradias onde as pessoas vivem, porque h\u00e1 muita casa degradada c\u00e1 na nossa zona, tentar que as pessoas tenham uma vida mais digna.<\/p>\n<p><strong>ObCig<\/strong>: <span style=\"text-decoration: underline;\">E o envolvimento mais pol\u00edtico-partid\u00e1rio<\/span>? Pode falar-nos acerca das suas motiva\u00e7\u00f5es para o mesmo?<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><strong>MJS<\/strong>: Na altura, que eu me lembre, de come\u00e7ar a falar na pol\u00edtica foi em casa com a minha m\u00e3e, \u00e0 hora do almo\u00e7o, \u00e0 hora do jantar com o meu pai, com a minha irm\u00e3. A minha m\u00e3e falava muito da pol\u00edtica, porque a minha m\u00e3e diz sempre que desde o 25 de Abril que ela sempre votou, ela e o meu pai. Queria que os meus irm\u00e3os votassem, ela ainda hoje liga para os meus irm\u00e3os para irem votar, para n\u00e3o se esquecerem\u2026 Liga para a minha irm\u00e3. Foi em casa, foi assim com a minha m\u00e3e. A minha m\u00e3e n\u00e3o \u00e9 que ela entendesse muito de pol\u00edtica, mas gostava da pol\u00edtica e sabia que a pol\u00edtica era importante, que o voto era importante. E ent\u00e3o quando eu fiz 18 anos, a primeira coisa que ela fez foi levar-me a votar. E eu agora fiz o mesmo com o meu filho, o meu filho tamb\u00e9m foi votar. E pronto, \u00e9 uma coisa muito normal, sempre se falou, n\u00e3o era que a minha m\u00e3e fosse muito entendida, mas ela sempre sabia o que era a esquerda, o que era a direita, o que era o partido socialista, o que era o partido laranja, como ela o chamava. N\u00e3o era que ela tivesse algu\u00e9m que lhe explicasse, mas ela sempre soube e sempre se interessou. E era uma pessoa aqui na cidade de Estremoz que conhecia toda a gente na C\u00e2mara. Hoje em dia n\u00e3o conhece ningu\u00e9m, porque \u00e9 tudo novo, mas ela na C\u00e2mara conhecia toda a gente, anda l\u00e1 dentro, ela conhecia toda a gente. Foi por a\u00ed\u2026 depois claro eu tamb\u00e9m gostei, e gosto, apesar de a ouvir a ela, tamb\u00e9m acho que isto est\u00e1 dentro de n\u00f3s, nasce connosco.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>ObCig<\/strong>: <span style=\"text-decoration: underline;\">Responsabilidade pol\u00edtica<\/span>. Se fosse eleita, que problem\u00e1ticas procuraria inscrever na agenda pol\u00edtica e porqu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>MJS<\/strong>: A agenda pol\u00edtica, gostaria que aqui na nossa zona, mesmo na nossa zona de Estremoz, o nosso maior problema \u00e9 o bairro das quintinhas, onde as pessoas ainda vivem na era medieval, vivem sem condi\u00e7\u00f5es nenhumas. E onde o resto da comunidade aponta o dedo sem saber em que condi\u00e7\u00f5es as pessoas vivem l\u00e1. \u00c9 principal\u2026t\u00ednhamos de reeducar a etnia cigana, mas tamb\u00e9m t\u00ednhamos de reeducar o resto da popula\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 apontar o dedo e reeducar a etnia cigana, mas tamb\u00e9m reeducar o resto da popula\u00e7\u00e3o, porque o resto da popula\u00e7\u00e3o aponta o dedo sem saber porqu\u00ea\u2026 tem que come\u00e7ar a aprender a falar e saber do que est\u00e1 a falar. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 apontar o dedo, sem saber como \u00e9 que as pessoas vivem, em que estado \u00e9 que as pessoas est\u00e3o, qual a situa\u00e7\u00e3o. E a revolta \u00e0s vezes das pessoas, porque as pessoas est\u00e3o cansadas de ser olhadas de lado, de lado, constantemente por tudo e por nada. Basta andarem na rua para serem olhados de lado. E isso acho que \u00e9 um dos maiores problemas aqui na minha zona. Claro que depois queria resolver outros, mas o maior de todos, dentro de Estremoz, e que as pessoas tentam varrer para baixo do tapete \u00e9 esse, o bairro das quintinhas.<\/p>\n<p><strong>ObCig<\/strong>: O que acha que o seu olhar traria de novo ao universo pol\u00edtico e de interven\u00e7\u00e3o-inova\u00e7\u00e3o social?<\/p>\n<p><strong>MJS<\/strong>: O que o meu olhar poderia trazer de novo e penso que muita gente, principalmente muita mulher ia concordar comigo, primeiro, primeiro ponto: Deixarem de olhar que \u00e9 \u201cmulher cigana\u201d, n\u00e3o \u00e9 uma mulher, simplesmente \u00e9 uma mulher. A minha etnia \u00e9 a minha etnia, isso \u00e9 comigo e com os meus. Olharem para mim como uma mulher e ouvirem-me, principalmente ouvirem-me. E depois tentarem ouvir-me daquilo que eu conhe\u00e7o, porque n\u00f3s para sabermos de algo, temos de ir \u00e0 viv\u00eancia de quem vive aquilo. Eu se for para a Amaz\u00f3nia eu tenho de ir viver com os \u00cdndios para saber a viv\u00eancia dos \u00cdndios. Eu sendo cigana posso ajudar a comunidade cigana ouvindo-me. N\u00e3o \u00e9 (\u2026) estudar e os outros irem fazer por mim, n\u00e3o, \u00e9 ouvirem-me a mim e eu ir para a frente com mais pessoas como eu, como tantas que h\u00e1 por a\u00ed, mas onde n\u00e3o nos deixam falar, onde falam por n\u00f3s, onde n\u00e3o nos d\u00e3o voz. Gostam muito de n\u00f3s, somos umas mulheres inovadoras, diferentes, n\u00e3o, n\u00e3o (,) somos iguais a qualquer outra mulher. Somos mulheres ciganas, mas somos principalmente mulheres e gostaria que nos olhassem assim, como mulheres. Claro que depois temos aquele ponto, posso ajudar a minha etnia, claro que sim, posso, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ajudar a minha etnia. Acho que o resto da popula\u00e7\u00e3o toda portuguesa tamb\u00e9m precisa muito de ser ajudada, porque acho que a popula\u00e7\u00e3o portuguesa ainda tem assim um bocadinho a cabe\u00e7a que vive l\u00e1 ainda muito muito no s\u00e9culo XIV. \u00c9 a minha opini\u00e3o. O que eu gostaria de trazer de novo era que o meu povo entrasse mais no mundo da pol\u00edtica e n\u00e3o s\u00f3. No mundo do trabalho em geral. Mas no mundo da pol\u00edtica, homens, mulheres, jovens, velhos, um pouco de tudo, da gera\u00e7\u00e3o toda, porque acho que n\u00f3s tamb\u00e9m temos que dar a conhecer as nossas culturas porque nem tudo o que passa para fora \u00e9 verdade, \u00e9 a realidade um pouquinho distorcida, culpa nossa tamb\u00e9m por sermos t\u00e3o fechados, mas durante s\u00e9culos foi a nossa salva\u00e7\u00e3o, mas que hoje em dia, neste s\u00e9culo, j\u00e1 n\u00e3o se justifica. Mas sim, acho que se n\u00f3s troux\u00e9ssemos coisas da nossa cultura para a realidade da cultura portuguesa no geral, acho que era uma mais-valia. Porque n\u00f3s conseguimos resolver coisas de maneira muito mais pr\u00e1tica, mais facilmente do que o resto da popula\u00e7\u00e3o, onde complicam muito, fazem muito, sei l\u00e1, fazem bichos de sete cabe\u00e7as em coisas muito simples que n\u00f3s num fechar de olhos resolvemos. Somos muito mais pr\u00e1ticos nesse sentido. Onde eu continuo a dizer, n\u00e3o \u00e9 tudo mau, como em todas as comunidades, como em todas as sociedades h\u00e1 bom e mau em todo o lado. H\u00e1 coisas muito boas na minha etnia que eu n\u00e3o trocava nunca por nenhuma sociedade que exista. Depois h\u00e1 coisas boas, claro, no resto da sociedade que se calhar a minha etnia precisava de come\u00e7ar a fazer e a usar. Mas que n\u00f3s temos coisas muito boas, temos, e n\u00e3o somos nenhum bicho de sete cabe\u00e7as e n\u00e3o \u00e9 metade do que passa para fora, n\u00e3o \u00e9 nem um ter\u00e7o da realidade. S\u00e3o realidades muito distorcidas, completamente distorcidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Newsletter ObCig (out 2021) Deste n\u00famero da Newsletter do Observat\u00f3rio das Comunidades Ciganas, das sec\u00e7\u00f5es Vozes Ciganas sobre \u201cA Participa\u00e7\u00e3o Pol\u00edtico-C\u00edvica de Pessoas Ciganas\u201d e Divulga\u00e7\u00e3o \u2013 Associativismo, destacamos os seguintes artigos de que apresentamos excertos: Maria Jo\u00e3o Silveira, candidata \u00e0s elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas no concelho de Estremoz Maria Jo\u00e3o Silveira (MJS), de 39 anos, 4\u00aa [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1688","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciganos-sao-noticia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1688","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1688"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1688\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1688"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1688"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1688"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}