{"id":1712,"date":"2022-07-15T08:18:37","date_gmt":"2022-07-15T08:18:37","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/2022\/07\/15\/visao-19-maio\/"},"modified":"2022-07-15T08:18:37","modified_gmt":"2022-07-15T08:18:37","slug":"visao-19-maio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/visao-19-maio\/","title":{"rendered":"Vis\u00e3o (19 maio)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Vis\u00e3o <\/strong>(19 maio)<strong> <\/strong><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Alcina Faneca: \u201cN\u00e3o sou menos cigana porque estudei e me tornei uma mulher independente\u201d<\/span><\/p>\n<p><em>Licenciada em Direito e especializada em Direito Criminal, a advogada de 28 anos, com escrit\u00f3rio em Tr\u00e1s-os-Montes, sempre teve o apoio da fam\u00edlia para seguir o sonho de ser ju\u00edza, mas a sua comunidade apontou-lhe o dedo<\/em> \u2013 por S\u00f3nia Calheiros. <em>excertos<\/em><\/p>\n<p>Alcina Faneca (AF) abriu o seu escrit\u00f3rio h\u00e1 dois meses, em parceria com dois colegas de Esposende, mas est\u00e1 sozinha em Torre de Moncorvo. N\u00e3o pretende ser advogada s\u00f3 de pessoas de etnia cigana, mas de todas as pessoas que a procurarem.<\/p>\n<p>Refere que \u201csempre sonhei ser ju\u00edza desde que comecei a ouvir dizer que as decis\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 etnia cigana nem sempre eram imparciais\u201d. \u201cFaziam-me confus\u00e3o certas situa\u00e7\u00f5es que envolviam as pessoas da comunidade. Queria conseguir fazer justi\u00e7a e reverter a situa\u00e7\u00e3o. Agora, vou ganhar experi\u00eancia e, daqui a meia d\u00fazia de anos, quando a minha filha for mais crescida, concorro ao Centro de Estudos Judici\u00e1rios pela via profissional\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>AF come\u00e7ou a perceber que existia diferen\u00e7a entre ela e as outras raparigas ciganas \u201cprincipalmente quando fui para a faculdade no Porto, por volta dos 20 anos. Depois do ensino secund\u00e1rio (\u2026), algumas quiseram dar seguimento aos estudos e j\u00e1 n\u00e3o puderam, porque a faculdade \u00e9 longe &#8211; a mais pr\u00f3xima fica, pelo menos, a uma hora de casa -, e a\u00ed o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o era-lhes vedado. Mas comigo isso n\u00e3o aconteceu. Quando terminei o 12\u00b0 ano, o meu pai come\u00e7ou logo a procurar a melhor faculdade de Direito para mim\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u201cOs meus pais sempre me disseram, a mim e aos meus irm\u00e3os: \u2018Tens de fazer a diferen\u00e7a.\u2019 Na comunidade, entre as pessoas mais pr\u00f3ximas, havia quem discordasse de eu ir estudar para fora, mas isso n\u00e3o fazia diferen\u00e7a na minha vida. Ouv\u00edamos coment\u00e1rios menos bons, mas o meu pai nunca lhes deu ouvidos, ignorava-os.\u201d<\/p>\n<p>\u201cRespeito a minha comunidade e a forma como quer viver e trabalhar, normalmente a vender, mas n\u00e3o concordo com alguns aspetos. H\u00e1 valores que n\u00e3o aceito para a minha filha, agora com 3 anos, como deixar de estudar aos 13 para casar, que n\u00e3o possa ir para a faculdade, n\u00e3o possa ter amigos rapazes que n\u00e3o sejam ciganos ou n\u00e3o possa sair para jantar fora com as amigas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAs outras mulheres da comunidade n\u00e3o o fazem porque fica mal aos olhos dos outros. Eu n\u00e3o me importo com o que pensam. Todos temos direito \u00e0 liberdade de express\u00e3o e a fazer o que bem entendermos, sem prejudicar os outros. Hoje s\u00f3 n\u00e3o muda quem n\u00e3o quer. Mas viver numa fam\u00edlia muito conservadora pode n\u00e3o ajudar. Nesses casos, a for\u00e7a da fam\u00edlia \u00e9 muito maior do que a da mulher sozinha, e s\u00e3o ainda poucas as mulheres a arriscar ter uma vida diferente\u201d, \u201cTenho muito orgulho em ser cigana\u201d.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sou menos cigana porque estudei, fiz o meu percurso e me tornei uma mulher independente e realizada. Isso s\u00f3 nos torna mulheres mais felizes e completas, sem sermos dependentes de um homem &#8211; um conselho, ali\u00e1s, que sempre ouvi do meu pai. Na universidade, os meus professores, quando souberam que era cigana, at\u00e9 ficaram felizes por ali estar. Na altura, passei por uma situa\u00e7\u00e3o em que o meu pai teve um problema e tive de faltar \u00e0s aulas &#8211; todos facilitaram imenso e ajudaram-me\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso mudar a forma de educar meninas e meninos. \u2026\u00a0 Estamos a progredir e vamos no bom caminho, mas quando vou a escolas fazer palestras, noto que h\u00e1 crian\u00e7as com sonhos, mas tamb\u00e9m entraves familiares que n\u00e3o as deixam avan\u00e7ar. Ningu\u00e9m tem o direito de cortar as asas e n\u00e3o deixar concretizar o sonho. Espero que a minha filha tenha gosto em estudar e siga a profiss\u00e3o que quiser.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vis\u00e3o (19 maio) Alcina Faneca: \u201cN\u00e3o sou menos cigana porque estudei e me tornei uma mulher independente\u201d Licenciada em Direito e especializada em Direito Criminal, a advogada de 28 anos, com escrit\u00f3rio em Tr\u00e1s-os-Montes, sempre teve o apoio da fam\u00edlia para seguir o sonho de ser ju\u00edza, mas a sua comunidade apontou-lhe o dedo \u2013 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-1712","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciganos-sao-noticia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1712","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1712"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1712\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}