{"id":792,"date":"2010-05-19T09:34:00","date_gmt":"2010-05-19T09:34:00","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/2010\/05\/19\/publico-19-fev-diversos\/"},"modified":"2010-05-19T09:34:00","modified_gmt":"2010-05-19T09:34:00","slug":"publico-19-fev-diversos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/publico-19-fev-diversos\/","title":{"rendered":"P\u00fablico (19 Fev) &#8211; DIVERSOS"},"content":{"rendered":"<p>O cigano acha que \u00e9 melhor que o n\u00e3o cigano<br \/>\n<!--more--><br \/>\nP\u00fablico (19 Fev)<br \/>\nO cigano acha que \u00e9 melhor que o n\u00e3o cigano<br \/>\nValorizam os mais velhos. Recusam o trabalho assalariado. S\u00e3o orgulhosos. T\u00eam uma imagem negativa dos n\u00e3o-ciganos. Como os n\u00e3o-ciganos t\u00eam deles. Maria Jos\u00e9 Casa-Nova, investigadora da Universidade do Minho, estuda h\u00e1 anos a minoria menos querida do pa\u00eds.<br \/>\n\u201cOrgulham-se de tratar bem como ningu\u00e9m das suas crian\u00e7as, dos seus idosos, dos seus doentes. Satisfazem grande parte dos desejos infantis \u2013 optam pela explica\u00e7\u00e3o em vez do castigo. Encaram os mais velhos como mem\u00f3rias vivas \u2013 cabe ao filho mais novo casar e morar com os pais. Quando um cigano \u00e9 internado, a l\u00f3gica de tratamento transfere-se para o hospital: a fam\u00edlia desloca-se em peso \u2013 para o enfermo n\u00e3o se sentir sozinho perante a doen\u00e7a, perante o \u2018outro\u2019.\u201d Estas, entre outras, s\u00e3o conclus\u00f5es a que Maria Jos\u00e9 Casa-Nova (MJCN) chega num trabalho intitulado \u201cEtnografia e produ\u00e7\u00e3o de conhecimento \u2013 reflex\u00f5es cr\u00edticas a partir de uma investiga\u00e7\u00e3o com ciganos portugueses\u201d, que foi lan\u00e7ado em Fev em Lisboa e em Braga, e \u00e9 parte do doutoramento que defendeu no Departamento de Antropologia da Universidade de Granada (Espanha).<br \/>\nMJCN que estuda a comunidade cigana desde 1991 e que \u00e0 volta dos ciganos se criou um estatuto de desfavorecido, imagem esta que considera vir \u201cdo desconhecimento\u201d deles. Entre 2003 e 2006 a investigadora estudou profundamente 55 agregados com mais de 190 pessoas do norte de Portugal. S\u00e3o a minoria menos querida dos portugueses lusos e reagem a essa rejei\u00e7\u00e3o, nomeadamente, atrav\u00e9s de estrat\u00e9gias de evitamento e\/ou de submiss\u00e3o ou estrat\u00e9gias de fechamento sobre si pr\u00f3prio e de altivez e\/ou arrog\u00e2ncia no contacto, que s\u00e3o tamb\u00e9m formas de esconder a percep\u00e7\u00e3o da sua inferioriza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA lei cigana, oral e ancestral, regula as suas atitudes e ac\u00e7\u00f5es e \u00e9 paralela \u00e0 lei do pa\u00eds. Os comportamentos mais graves, que acarretam desonra ou morte, s\u00e3o sancionados pelos homens mais velhos, de prest\u00edgio, que enformam o tribunal cigano. O casamento \u00e9 uma das pr\u00e1ticas mais regulamentadas: ami\u00fade,  os pais combinam o casamento das suas crian\u00e7as, para assegurar que os descendentes n\u00e3o ficam solteiros, nem casam com estranhos. S\u00f3 a mulher pode \u201cdar caba\u00e7as\u201d (romper o compromisso). 47 dos 55 n\u00facleos familiares estudados resultam de uni\u00f5es endog\u00e2micas \u2013 entre primos sobretudo e apenas oito s\u00e3o uni\u00f5es exog\u00e2micas: seis com pa\u00edlhas e duas com pa\u00edlhos. Tal escass\u00eas \u00e9 fruto da press\u00e3o para  manter a pureza da etnia. A virgindade \u00e9 hipervalorizada e por isso as raparigas casam entre os 14 e os 19 anos e os rapazes entre os 15 e os 21 anos. \u201cA mulher funciona como a for\u00e7a e fragilidade da comunidade, dado que nela reside o orgulho, a honra ou a desonra do homem (pai, irm\u00e3o, noivo, marido)\u201d Isto torna-a \u2018ref\u00e9m\u2019 da comunidade, impede-a de \u201ctraject\u00f3rias escolares prolongadas e ou de uma inser\u00e7\u00e3o profissional que n\u00e3o se constitua (como as feiras) numa extens\u00e3o da esfera dom\u00e9stica\u201d. \u201cO controlo comunit\u00e1rio e grupal sobre o indiv\u00edduo \u00e9 uma constante quotidiana\u201d.<br \/>\nA escolaridade \u00e9 reduzida entre os ciganos portugueses e mais ainda entre as mulheres, mas MJCN vislumbrou sinais de mudan\u00e7a: a gera\u00e7\u00e3o de 40 anos da comunidade estudada \u00e9 analfabeta; a de 30 anos vai do analfabetismo ao 2\u00ba ano do 1\u00ba ciclo; a de 20 anos j\u00e1 vai at\u00e9 ao 4\u00ba ano, e MJCN captou estrat\u00e9gias como reprovar de prop\u00f3sito para continuar na escola. \u201cA escola funciona para elas como um espa\u00e7o de liberdade, como um espa\u00e7o de rela\u00e7\u00f5es inter- \u00e9tnicas e de sociabilidade, que lhes est\u00e1 proibido fora do espa\u00e7o escolar pela vigil\u00e2ncia de que s\u00e3o alvo\u201d. MJCN sublinha ainda a import\u00e2ncia de descontruir estere\u00f3tipos e construir um conhecimento efectivo e tal \u201cs\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel na base da conviv\u00eancia nos mais diversos espa\u00e7os de sociabilidade: do trabalho ao hospital, do jardim \u00e0s associa\u00e7\u00f5es, da seguran\u00e7a social \u00e0 escola, ao bairro; e defende que um dos desafios actuais \u00e9 \u201cpensar a diferen\u00e7a, qualquer diferen\u00e7a, a partir da pr\u00f3pria diferen\u00e7a, sem que isso implique uma inferioriza\u00e7\u00e3o ou uma domina\u00e7\u00e3o do \u2018outro\u2019\u201d. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cigano acha que \u00e9 melhor que o n\u00e3o cigano<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_et_pb_use_builder":"","_et_pb_old_content":"","_et_gb_content_width":"","footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-792","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ciganos-sao-noticia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/792","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=792"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/792\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=792"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=792"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/onpciganos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=792"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}