
O Papa Francisco lembrou hoje o papel dos diáconos na Igreja nascente e recordou a figua de Estevão para mostrar as consequências “da maledicência e dos interesses mesquinhos”. O Papa recordou “os mártires de hoje”.
Leia, na íntegra e em Português, a catequese do Papa Francisco
Catequese sobre os Atos dos Apóstolos: 9. Estevão “cheio do Espírito Santo” (At 7,55) entre a diaconia e o martírio
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Através do livro de Atos dos Apóstolos, continuamos a seguir uma viagem: a viagem do Evangelho para o mundo. São Lucas, com grande realismo, mostra tanto a fecundidade desta jornada quanto o surgimento de alguns problemas na comunidade cristã. Desde o início sempre houve problemas. Como harmonizar as diferenças que coabitam dentro dela sem que ocorram contrastes e divisões?
A comunidade não acolheu apenas os judeus, mas também os gregos, que são pessoas da diáspora, não-judeus, com a sua própria cultura e sensibilidade e com outra religião. Hoje dizemos “pagãos”. E estes eram bem-vindos. Esta coexistência determina o equilíbrio frágil e precário; e diante das dificuldades aparece o joio, e qual é o pior joio que destrói uma comunidade? O joio da murmuração, o joio da coscuvilhice: os gregos murmuram por causa da desatenção da comunidade às suas viúvas.
Os apóstolos iniciam um processo de discernimento que consiste em perceber bem as dificuldades e procurar soluções de conjunto. Encontram então uma maneira de dividir as várias tarefas de modo a que possa existir um crescimento sereno de todo o corpo eclesial e evitar negligenciar tanto a “a essência” do Evangelho quanto o cuidado dos membros mais pobres.
Os apóstolos estão cada vez mais conscientes de que a sua principal vocação é a oração e a pregação da Palavra de Deus: orar e proclamar o Evangelho; e resolvem a questão estabelecendo um núcleo de «sete homens de boa reputação, cheios de espírito e sabedoria» (Atos 6, 3), que, depois de receberem a imposição das mãos, cuidarão do serviço das mesas. Trata-se dos diáconos que são criados para isto, para o serviço. O diácono na Igreja não é um padre de segunda, é outra coisa; não é para o altar, mas para o serviço. Ele é o guardião do serviço na Igreja. Quando um diácono gosta muito de ir para o altar, erra. Este não é o caminho dele. Esta harmonia entre o serviço à Palavra e o serviço à caridade representa o fermento que faz o corpo eclesial crescer.
E os apóstolos criam sete diáconos, e entre os sete “diáconos” destacam-se Estevão e Filipe. Estevão evangeliza com força, mas a sua palavra encontra a resistência mais teimosa. Não encontrando outra maneira de detê-lo, o que fazem os seus oponentes? Escolhem a solução mais mesquinha para aniquilar um ser humano: isto é, a calúnia ou o falso testemunho. E sabemos que a calúnia mata sempre. Este “cancro diabólico”, que surge do desejo de destruir a reputação de uma pessoa, também ataca o resto do corpo eclesial e danifica-o seriamente quando, devido a interesses mesquinhos ou para encobrir os seus próprios padrões, há uma coligação para difamar alguém.
Conduzido ao Sinédrio e acusado por falsas testemunhas – o mesmo que eles fizeram com Jesus e o mesmo que farão com todos os mártires através de falsas testemunhas e calúnias – Estevão proclama uma releitura da história sagrada centrada em Cristo, para se defender. E a Páscoa de Jesus que morreu e ressuscitou é a chave para toda a história da aliança. Diante desta superabundância do dom divino, Estevão denuncia bravamente a hipocrisia com a qual os profetas e o próprio Cristo foram tratados. E lembre-as da história dizendo: «Qual dos profetas os vossos pais não perseguiram? Qual foi o profeta que os vossos pais não tenham perseguido? Mataram os que predisseram a vinda do Justo, a quem traístes e assassinastes» (Atos 7, 52). Ele não usa meias palavras, mas fala claramente, dizendo a verdade.
Isto provoca uma reação violenta nos ouvintes, e Estevão é condenado à morte, condenado ao apedrejamento. Ainda assim ele manifesta o verdadeiro “estofo” do discípulo de Cristo. Não procura brechas, não apela a personalidades que podem salvá-lo, mas coloca a sua vida nas mãos do Senhor e a oração de Estevão é linda naquele momento: «Senhor Jesus, recebe o meu espírito.» (At 7,59) – e morreu como filho de Deus, perdoando: «Senhor, não lhes imputes este pecado» (At 7,60).
Estas palavras de Estevão ensinam-nos que não são os bons discursos que revelam a nossa identidade como filhos de Deus, mas apenas o abandono da própria vida nas mãos do Pai e o perdão para aqueles que nos ofendem para que assim vejam a qualidade da nossa fé.
Hoje existem mais mártires do que no começo da vida da Igreja, e os mártires estão por toda parte. A Igreja de hoje é rica em mártires, é irrigada pelo sangue que é «semente de novos cristãos» (Tertuliano, Apologético, 50,13) e garante crescimento e fecundidade ao povo de Deus. Os mártires não são “santos”, mas homens e mulheres em carne e osso que – como diz o Apocalipse – «lavaram as suas vestes, tornando-as brancas no sangue do Cordeiro» (7,14). Eles são os verdadeiros vencedores.
Pedimos também ao Senhor que, olhando os mártires de ontem e de hoje, possamos aprender a viver uma vida plena, acolhendo o martírio da fidelidade diária ao Evangelho e da conformação a Cristo.
Tradução Educris a partir do original em italiano




