Opinião: «A caixa dos bons e a caixa dos maus», por Pedro Valinho Gomes

Pedro Valinho Gomes

Investigador no Instituto Religions, Spiritualités,

Cultures, Sociétés (UCLouvain)

Voz da Fátima

Nunca fui fã dos filmes do faroeste. Sempre os achei demasiado previsíveis: há o bom, há o vilão e, depois de uma série de desventuras e volte-faces, o bom lá acaba por salvar a história no último minuto, derrotando o mau. Mas acima de tudo, sempre desconfiei desta tentação tão nossa de pintarmos o humano de preto ou de branco, de os meter na caixa dos bons ou na caixa dos maus, e de expiarmos o nosso sofrimento ou até mesmo a nossa culpa lançando pedras ao grupo dos maus.

Bem sei que este é hoje o enredo padrão de tantas histórias de cinema. Mais preocupante do que isso é que se torne o enredo corrente de muito do nosso discurso político. Porque as palavras não são simples slogans atirados como bandeiras de propaganda para conquistar votos. As palavras significam coisas e fazem coisas. Quando se aponta o dedo a grupos específicos com a acusação de serem a causa de todos os males, quando se pretende justificar a nossa fragilidade económica, cultural e social ostracizando ainda mais as franjas mais frágeis da sociedade, quando o orgulho dum povo se diz com pedras a imigrantes e refugiados, sabemos que vivemos um filme do faroeste de má qualidade. Sabemos também que as palavras não passarão sem deixar feridos.

É irónica a nossa falta de memória coletiva. Se ainda nos lembrássemos do que se passou, por exemplo, nos anos que precederam o genocídio no Ruanda, em 1994! Durante meses a fio, anos até, os perpetradores colocaram na caixa dos maus todos os que pertenciam à etnia Tutsi, simplesmente porque pertenciam à etnia Tutsi. Chamavam-lhes inyenzi, «baratas». Mais do que uma linguagem codificada, a alcunha tinha o efeito perverso de gerar na comunidade uma imagem das vítimas como seres não-humanos. Um processo semelhante se deu na Alemanha Nazi: os deficientes, os homossexuais, os Judeus e outros grupos minoritários foram todos sucessivamente identificados pela sua caracterização específica e colocados na caixa dos maus, pretendendo-se, de alguma forma, formular a ideia coletiva de que a sua especificidade seria uma demonstração de uma espécie de desumanidade e que era desses não-humanos a culpa de todos os seus males. Depois, foi só fechar essa caixa da desumanidade, colocá-la à entrada da cidade e destruí-la aos olhos de todos, sem que ninguém já se importasse. Afinal, nem eram bem humanos!

Mais irónico ainda – trágico mesmo! – é que este ressurgir do discurso do ódio no âmbito político se dê também, hoje como ontem, em meios cristãos. ~

Ressuscitamos rituais do bode expiatório, sacrificando a um deus desconhecido grupos inteiros de irmãs e irmãos, para, num laivo de puritanismo, nos congratularmos com a nossa retidão.

E embainhamos bandeiras com gordos dizeres de gente de bem que é gente de fé – Jesus saves – enquanto procuramos a vítima do nosso sacrifício. E dizemo-nos enviados por Deus a salvar a nação, enquanto ostracizamos meio povo e aqueles que nele se abrigaram.

Jesus não é herói do faroeste. Quando ele passa na banca do vilão, entronado no seu posto de cobrança dos impostos, Jesus não lhe oferece desdém, mas a amizade que há de vir a tornar-se convite interior à conversão. Se ainda acreditássemos na amizade que o evangelho promove, talvez compreendêssemos que ninguém vive na caixa dos bons ou na caixa dos maus. A vida não é tudo preto ou tudo branco. Somos bem mais zebra do que pensamos. Só a amizade tem a força de salvar a história no último minuto.

Educris|13.02.2021

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