Professora de EMRC, da Diocese do Porto, fala da missão de ensinar EMRC e vê a disciplina como “espaço de sentido e pertença”.

Há 28 anos que Sara Magalhães entra nas salas de aula para ensinar Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC). No Agrupamento de Escolas Lousada Este, na Diocese do Porto, a professora acredita que a disciplina continua a ser muito mais do que um espaço de transmissão de conteúdos e é hoje “lugar de escuta, de integração, de descoberta pessoal e de construção de sentido”.
Em plena Semana Nacional da EMRC, a docente descreve a disciplina como “uma tábua de salvação” para muitos alunos.
“A disciplina de Moral recupera, não o aluno, mas a pessoa”, afirma.
Ser professora de Moral foi uma descoberta
A ligação de Sara Magalhães à EMRC nasceu de forma inesperada. Apesar de ter estudado Teologia, explica que inicialmente não pensava seguir o ensino da disciplina.
“Foi uma descoberta”, conta. “Quando tirei o curso de Teologia não tinha essa clareza.”
Foi o contacto direto com os alunos que transformou o percurso profissional numa vocação ao serviço dos mais novos.
“Comecei a dar aulas e isso foi literalmente uma descoberta da forma como eu me entregava aos alunos e do que eu recebia deles”, recorda.
Ao longo de quase três décadas de ensino, a professora diz ter aprendido mais com os estudantes do que aquilo que lhes ensinou.
“Ser professora de Moral claramente é uma missão”, sublinha, para destacar a convicção de que muitas vezes a presença do professor de EMRC faz com que “os alunos sintam que finalmente alguém olha para eles”.
Para a docente da Diocese do Porto, a relevância da disciplina não está “apenas nos conteúdos programáticos”, mas sobretudo no “espaço humano” que oferece aos alunos.
“Muitas vezes eles dizem que percebem claramente qual é a finalidade. Esta disciplina faz sentido”, explica.
Segundo a professora, a EMRC permite aos jovens “expressarem-se de forma diferente daquela que encontram noutras disciplinas”.
“A disciplina dá-lhes um protagonismo que noutras disciplinas eles não têm”, afirma.
Sara Magalhães considera que as aulas funcionam como uma “plataforma de sentido”, ajudando os alunos a compreenderem-se a si próprios e aos outros.
“Finalmente olham para mim, para as minhas necessidades, para os meus problemas”, relata, referindo-se ao testemunho dos próprios estudantes.
Um antídoto contra o individualismo
Na entrevista, a professora identifica também a EMRC como “uma resposta aos desafios sociais atuais”, marcados pelo individualismo, pelos discursos de exclusão e pela lógica puramente económica.
“Pode ser um bom antídoto para estes individualismos que estamos a viver”, considera.
Para a docente, a disciplina ajuda os jovens a questionarem o seu propósito e o seu lugar no mundo.
“Qual é o meu lugar no mundo? Eles começam a entender isso através da disciplina de Moral”, explica.
Formação ajudou a enfrentar desafio do primeiro ciclo
Apesar da longa experiência no ensino, este ano trouxe uma novidade ao percurso de Sara Magalhães: pela primeira vez começou a lecionar no primeiro ciclo.
A mudança levou-a a participar numa ação de formação dedicada à construção da paz na sala de aula e à criação de recursos pedagógicos adaptados às crianças mais novas.
“Eu sempre entendi que o primeiro ciclo era a base de tudo. E não é fácil”, admite.
A professora reconhece que precisava de novas ferramentas pedagógicas para trabalhar com alunos mais pequenos.
“Estou habituada a alunos maiores e não tinha ferramentas nenhumas”, confessa.
Ainda assim, garante que a distância até ao local da formação “não se tornou problema nenhum”, devido à importância do tema e da partilha entre colegas.
Todos têm espaço e voz
Outro dos aspetos destacados por Sara Magalhães é a capacidade da disciplina para integrar alunos de diferentes culturas, origens e experiências religiosas.
“Eles integram-se tão bem”, afirma, referindo-se aos estudantes migrantes ou não crentes que frequentam as aulas de EMRC.
Na sua perspetiva, a disciplina oferece um espaço de pertença onde cada aluno pode expressar-se livremente.
“Todos são protagonistas”, explica. “Têm espaço, têm voz e podem dizer o que pensam e o que sentem.”
Para a docente, esta dimensão de acolhimento e diálogo continua a ser uma das marcas mais fortes da Educação Moral e Religiosa Católica nas escolas portuguesas.
Educris|22.05.2026


