
Na audiência-geral desta quarta-feira o Papa Francisco refletiu sobre «A pureza do coração» presente na sexta Bem-Aventurança. Na sua catequese o papa apresentou o “sentido bíblico para o coração” e explicou como atingir “a pureza de coração”.
Leia na íntegra, e em português, a alocução do Santo Padre.
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje lemos juntos a sexta bem-aventurança, que promete a visão de Deus e tem como condição a pureza do coração.
Diz o Salmo: «Por ti meu coração murmura, e os meus olhos te procuram. É a tua face que eu procuro, Senhor. Não escondas de mim o teu rosto[1]» (Sl 27,8-9).
Esta linguagem manifesta a sede de um relacionamento pessoal com Deus, não mecânico, nem um pouco nebuloso, não: pessoal, que também o livro de Job expressa como sinal de um relacionamento sincero. Assim diz o livro de Job: «Os meus ouvidos tinham ouvido falar de ti, mas agora vêem-te os meus próprios olhos». (Job 42,5). Tantas vezes penso que este é o caminho da vida, nos nossos relacionamentos com Deus. Conhecemos a Deus por boato, mas com a nossa experiência vamos andando para a frente, continuamos, avante, e no final conhecemo-Lo diretamente, se formos fiéis … esta é a maturidade do Espírito.
Como podemos chegar a esta intimidade, a conhecer Deus com os nossos olhos? Pode pensar-se nos discípulos de Emaús, por exemplo, que têm o Senhor Jesus junto a si, «mas os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer[2]» (Lc 24,16). O Senhor abrirá os seus olhos no final de uma jornada que culmina no partir do pão e se havia iniciado com uma reprimenda: «Ó desprovidos de inteligência e lentos de coração para acreditar em tudo quanto disseram os Profetas![3]»(Lc 24,25). Assim é a repreensão do começo. Aqui está a origem da sua cegueira: o seu coração está lento e preso. E quando o coração permanece lento e preso, são se vê claramente. As coisas são vistas como que numa nublosa. Aqui está a sabedoria desta bem-aventurança: para poder contemplar é necessário entrar em nós e abrir espaço para Deus, porque, como nos diz Santo Agostinho, “Deus é mais íntimo de mim do que eu mesmo”. (“interior intimo meo”: Confissões, III, 6,11). Para ver Deus não basta trocar de óculos ou de ponto de observação, nem de mudar os autores teológicos que ensinam o caminho: é necessário libertar o coração dos seus enganos! Esta é a única estrada.
Este é um amadurecimento decisivo: quando nos damos conta de que o nosso pior inimigo, frequentemente, está escondido no nosso coração. A batalha mais nobre é aquela que é travada contra os enganos internos que originam os nossos pecados. Porque os pecados mudam a visão interior, mudam a avaliação das coisas, mostram coisas que não são verdadeiras, ou pelo menos que não são tão verdadeiras.
É por isso importante entender o que é a “pureza do coração”. Para o fazer é necessário recordar que para a Bíblia o coração não é somente o lugar dos sentimentos, mas é o lugar mais íntimo do ser-se humano, o espaço interior onde a pessoa é ela mesma. Isto, de acordo com a mentalidade bíblica.
O mesmo Evangelho de Mateus diz: «se a luz que há em ti é trevas, quão grandes serão essas trevas[4]» (6,23). Esta “luz” é o olhar do coração, a perspetiva, a síntese, o ponto a partir do qual se lê a realidade (cf. Exortação Apostólica Evangelii gaudium, 143).
Mas o que significa um coração “puro”? O puro de coração vive na presença do Senhor, conservando no coração o que é digno do relacionamento com Ele; só assim possuiu uma vida “unificada”, linear, não tortuosa, mas simples.
O coração purificado é, portanto, o resultado de um processo que implica uma libertação e uma renúncia. O puro de coração não nasceu como tal, experimentou uma simplificação interior, aprendendo a negar o mal em si mesmo, que na Bíblia se chama de circuncisão do coração (cf. Dt 10,16; 30,6; Ez 44,9; Jr 4, 4).
Esta purificação interior implica o reconhecimento daquela parte do coração que está sob a influência do mal – “Sabes, pai, sinto-me assim, penso assim, vejo assim, e isto é mau”: reconhecer a parte má, a parte que permanece nublada pelo mal – para aprender a arte de sempre ser ensinado e liderado pelo Espírito Santo. O caminho do coração doente, do coração pecaminoso, do coração que não pode ver bem as coisas, porque está no pecado, até à plenitude da luz do coração, é obra do Espírito Santo. É ele quem nos guia nesta jornada. É através deste caminho do coração, que chegamos a “ver Deus”.
Nesta visão beatífica há uma dimensão futura, escatológica, como em todas as bem-aventuranças: é a alegria do Reino dos Céus para onde estamos a andar. Mas há também a outra dimensão: ver Deus significa entender os desígnios da Providência no que acontece connosco, reconhecer a sua presença nos Sacramentos, a sua presença nos irmãos, especialmente nos pobres e nos que sofrem, e reconhecê-lo onde Ele se manifesta (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2519).
Esta bem-aventurança é um pouco fruto das anteriores: se havemos escutado a sede de bem que habita em nós e estamos conscientes de viver em misericórdia, iniciamos então um caminho de libertação que dura a vida inteira e leva ao céu. É um trabalho sério, um trabalho que o Espírito Santo faz se lhe dermos espaço para fazê-lo, se estivermos abertos à ação do Espírito Santo. Por isso podemos dizer que é obra de Deus em nós – nas provações e purificações da vida – e esta obra de Deus e do Espírito Santo leva a uma grande alegria, à verdadeira paz. Não tenhamos medo, abramos as portas do nosso coração ao Espírito Santo para nos purificar e nos levar adiante neste caminho em direção à plena alegria.
[1] Tradução da Conferência Episcopal Portuguesa
[2] Idem
[3] Ibidem
[4] Id
Tradução Educris a partir do original em italiano Negritos: Educris



