Membro do Dicastério para a Cultura e a Educação, órgão da Santa Sé, desafiou os responsáveis diocesanos da catequese a recentrar a iniciação cristã numa pedagogia do caminho, da escuta e da experiência, sublinhando que “só uma catequese da narrativa, do caminho, tem futuro”.
O padre José Miguel Cardoso foi o convidado do primeiro dia do 63.º Encontro Nacional de Catequese, que decorre em Aveiro de 8 a 10 de abril, reunindo cerca de 90 representantes das equipas diocesanas de todo o país. Subordinado ao tema «A Mistagogia: Caminhar com Cristo, do encontro ao discipulado», o encontro procura aprofundar o sentido mistagógico da catequese no atual contexto cultural.
Na conferência intitulada «O hiato entre o coração e o caminho – Redescobrir o sentido mistagógico da iniciação cristã», o sacerdote da Arquidiocese de Braga e colaborador do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano partiu de uma imagem simbólica: uma pintura que representa um jovem a jogar xadrez com o diabo.
“A catequese é um encontro que visa dar competências humanas e espirituais, tendo Cristo como modelo de vida”, afirmou, acrescentando que a missão da catequese é “transmitir uma sabedoria que nos permite vencer no xadrez da vida”.
Para o conferencista, a catequese mistagógica vai além da transmissão de conteúdos e deve ajudar cada pessoa a transformar a fé em experiência concreta. “Se a catequese querigmática visa transmitir um conteúdo, a catequese mistagógica visa dar um passo em frente, isto é, transmitir uma experiência”, explicou.
Segundo sacerdote, muitos projetos pastorais falham “não por falta de formação ou de recursos”, mas por não atenderem verdadeiramente à realidade concreta de quem está diante do catequista
“As escolhas falham muitas vezes porque esquecemos este detalhe. Precisamos compreender o destinatário que está à nossa frente”, alertou.
Ler o tempo presente para acompanhar os jovens
Na sua reflexão, realizada em videoconferência, o sacerdote fez uma análise da cultura contemporânea, marcada pela pós-modernidade, pelo relativismo, pela fragmentação e por uma crescente procura espiritual desligada das pertenças institucionais.
“O lugar de encontro com o divino deixou de ser a religião institucional e passou a ser o sentimento humano ou a emoção pessoal”, observou, sublinhando que hoje muitos procuram espiritualidade sem necessariamente aderirem à fé cristã ou à vida da Igreja.
Neste contexto, considerou essencial que a catequese saiba ler os sinais do tempo e acompanhar os jovens de forma personalizada, respeitando os ritmos de cada um. “Nem todos têm de acreditar ao mesmo tempo, da mesma forma e pelas mesmas razões”, afirmou.
Para ilustrar esta ideia, o padre José Miguel Cardoso apresentou a figura de São Pedro como exemplo de um caminho de fé feito de etapas, fragilidades, avanços e recomeços, desde a radicalidade do chamamento até ao testemunho martirial.
“A fé não é uma certeza absoluta, mas uma pergunta permanente. Não é uma meta, mas é um caminho”, sustentou, defendendo uma catequese capaz de acompanhar os processos interiores de cada pessoa.
Contra o proselitismo e a “catequese dos foguetes”
Na parte final da conferência, o sacerdote deixou algumas pistas pastorais para renovar a prática catequética, insistindo na necessidade de abandonar modelos centrados apenas na transmissão teórica ou em momentos pontuais de entusiasmo.
“Evitar a tentação do proselitismo. Jesus não conta tudo, mas faz pedagogia progressiva. Explica, reexplica e espera o tempo deles para que percebam”, afirmou, evocando o episódio dos discípulos de Emaús como paradigma de uma catequese do caminho.
Para o conferencista, “é fácil convencer uma pessoa, mas é difícil converter alguém”, razão pela qual insistiu na importância da continuidade e da formação dos agentes.
Entre as tentações que hoje se colocam à catequese, apontou três riscos: “os números”, “os foguetes” e “os likes”. Ou seja, a tentação de medir tudo pela quantidade, de reduzir a fé a momentos festivos sem continuidade e de procurar apenas agradar.
“Na era da tecnocracia e da inteligência artificial, há algo que não se conseguirá replicar: oferecer o que mais ninguém consegue, a mistagogia do coração”, afirmou.
O padre José Miguel Cardoso concluiu defendendo que a catequese do futuro terá de formar simultaneamente a razão e o coração.
“A técnica é útil e necessária, mas apenas um coração bem formado pode vencer o diabo no xadrez do jogo da nossa vida”, completou.
O 63º Encontro Nacional de Catequese decorre na Casa Diocesana de Nossa Senhora do Socorro, na Diocese de Aveiro até ao próximo dia 10 de abril.
O segundo dia vai ficar marcado conferencia «O Catequista Mistagogo: Testemunha e Intérprete do Mistério – Como formar catequistas capazes de conduzir os outros à experiência de Deus?», trazida à reflexão pelo padre Juan Freitas, sdb, e pela apresentação dos novos materiais da coleção Emaús trazidos aos responsáveis pelo padre Rui Alberto, da Salesianos Editora, o padre José Henrique Pedrosa, da catequese de Leiria-Fátima, e o padre Tiago Neto, da catequese de Lisboa.
Imagem: PQ
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