
Francisco terminou hoje ciclo sobre as «bem-Aventuranças» recordando cristãos perseguidos no mundo e afirmando “que as estruturas de pecado” não podem “aceitar a vida do Espírito”.
Leia, na íntegra, a catequese do Papa
Catequese sobre as bem-aventuranças: 9. «Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus» (Mt 5,10).
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Com a audiência de hoje, concluímos o percurso sobre as bem-aventuranças evangélicas. Como ouvimos, a última proclama a alegria escatológica dos perseguidos por causa justiça.
Essa felicidade anuncia a mesma felicidade presente na primeira: o reino dos céus é dos perseguidos e dos pobres de espírito; entendemos que chegamos ao final de um caminho unitário desvendado nos anúncios anteriores.
A pobreza de espírito, as lágrimas, a mansidão, a sede de santidade, a misericórdia, a purificação do coração e as obras de paz podem levar à perseguição por causa de Cristo, mas esta perseguição é, em última instância, motivo de alegria e de grande recompensa nos céus. O caminho das bem-aventuranças é um caminho de Páscoa que leva de uma vida segundo o mundo para aquela segundo Deus, de uma existência guiada pela carne – ou seja, pelo egoísmo – até à guiada pelo Espírito.
O mundo, com os seus ídolos, compromissos e prioridades, não pode aprovar este tipo de existência. As “estruturas do pecado”, [1] frequentemente produzidas pela mentalidade humana, permanecem estranhas ao Espírito da verdade que o mundo não pode receber (cf. Jo 14:17), recusam a pobreza, a mansidão ou a pureza e declaram a vida de acordo com o Evangelho como um erro e um problema, portanto, como algo a permanecer na marginalização. Assim pensa o mundo: “Estes são idealistas ou fanáticos …”. Assim pensam eles.
Se o mundo vive em função do dinheiro, qualquer um que demonstre que a vida pode ser cumprida no dom e na renúncia torna-se um incomodo para o sistema da ganância. Esta palavra “fastidiosa” é chave, porque somente o testemunho cristão, que faz tão bem a tanta gente que o segue, causa fastio àqueles que tem uma mentalidade mundana. Eles vivem isto como uma repreensão. Quando a santidade aparece e a vida dos filhos de Deus emerge, nesta beleza há algo de desconfortável que exige uma posição: ou se permite ser questionado e aberto ao bem ou recusa-se essa luz e endurece-se o coração, até a o ponto da oposição e da fúria (cf. Sab 2, 14-15). É curioso, chama a atenção ver como, nas perseguições dos mártires, a hostilidade aumenta até chegar ao ponto da fúria. Basta ver as perseguições do século passado, das ditaduras europeias: como chegamos à fúria contra os cristãos, contra o testemunho cristão e contra o heroísmo dos cristãos.
Mas isto mostra que o drama da perseguição também é o lugar da libertação da sujeição ao sucesso, da vanglória e dos compromissos do mundo. O que alegra aqueles que são rejeitados pelo mundo por causa de Cristo? Alegram-se por terem encontrado algo que vale mais do que o mundo inteiro. De facto, «que vantagem tem um homem que ganha o mundo inteiro e perde a vida?» (Mc 8,36). Que vantagem existe?
É doloroso lembrar que, neste momento, existem muitos cristãos que sofrem perseguições em várias zonas do mundo, e devemos ter esperança e rezar para que a sua tribulação seja interrompida o mais rápidamente possível. Existem muitos: os mártires de hoje são mais do que os mártires dos primeiros séculos. Expressamos a nossa proximidade com esses irmãos e irmãs: somos um corpo, e esses cristãos são os membros que sangram do corpo de Cristo, que é a Igreja.
Mas devemos também ter cuidado para não ler esta bem-aventurança de uma maneira vitimizadora e com autocomiseração. De facto, nem sempre o desprezo dos homens é sinónimo de perseguição: Um pouco depois Jesus diz que os cristãos são o «sal da terra» e alerta contra o perigo de “perder o sabor”, caso contrário o sal “de nada mais serve a não ser para deitar ao chão e ser pisado pelas pessoas» (Mt 5,13). Portanto, há também um desprezo que é culpa nossa quando perdemos o sabor de Cristo e do Evangelho.
É preciso ser fiéis ao humilde caminho das bem-aventuranças, porque é o que leva a ser de Cristo e não do mundo. Vale a pena lembrar o caminho de São Paulo: quando ele pensava que era justo, era de facto perseguidor, mas quando descobriu que era perseguidor, tornou-se um homem de amor, que enfrentou alegremente o sofrimento da perseguição que sofria (cf. Col. 1,24).
A exclusão e a perseguição, se Deus nos concede a graça, torna-nos semelhantes a Cristo crucificado e, associando-nos à sua paixão, como manifestação de uma nova vida. Esta vida é a mesma de Cristo, que para nós homens e para a nossa salvação foi “desprezado e rejeitado pelos homens” (cf. Is 53, 3; At 8, 30-35). Acolher o seu Espírito pode levar-nos a ter tanto amor nos nossos corações que oferecemos a vida ao mundo sem fazer acordos com os seus enganos e aceitando a sua recusa. Os compromissos com o mundo são um perigo: o cristão é sempre tentado a fazer compromissos com o mundo, com o espírito do mundo. Esta- rejeitar os compromissos e seguir o caminho de Jesus Cristo – é a vida do Reino dos céus, a maior alegria, a verdadeira alegria. E então, nas perseguições, há sempre a presença de Jesus que nos acompanha, a presença de Jesus que nos conforta e a força do Espírito que nos ajuda a seguir em frente. Não desanimemos quando uma vida consistente com o Evangelho atrai a perseguição das pessoas: há o Espírito que nos apoia neste caminho.
______________________________
[1] Cfr. Discurso aos participantes do workshop “Novas formas de fraternidade solidária, inclusão, integração e inovação”, 5 de fevereiro de 2020: «A idolatria do dinheiro, a ganância, a corrupção são todas” estruturas do pecado “- como João Paulo II as definiu – produzidas pela “globalização da indiferença”».
Educris|29.04.2020




