
Antes da recitação da oração mariana do Ângelus, perante milhares de fieis que a el se reuniram na praça de São Pedro, no Vaticano, o Papa Francisco comentou o evangelho deste domingo do tempo comum e desafiou os crentes a “olharem os outros com o olhar de Jesus” e a “deixarem-se tocar” porque “a maior doença é a falta de amor”, apontou
Leia, na íntegra, e em português, a reflexão do Santo Padre
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje, no Evangelho (cf. Mc 5, 21-43), Jesus confronta-se com as duas mais dramáticas situações para nós, a morte e a doença. Delas, ele liberta duas pessoas: uma menina, que morre no momento em que o seu pai foi pedir ajuda a Jesus; e uma mulher que está com sangramentos há muitos anos. Jesus deixa-se tocar pela nossa dor e pela nossa morte e opera dois sinais de cura para nos dizer que nem a dor nem a morte têm a última palavra. Diz-nos que a morte não é o fim. Ele vence este inimigo, do qual não nos podemos livrar sozinhos.
Concentremo-nos, porém, neste período em que a doença ainda está no centro das notícias, no outro sinal, a cura da mulher. Mais do que a sua saúde, foram os seus afetos que foram comprometidos. Porquê? Ela estava com sangramentos e, portanto, de acordo com a mentalidade da época, era considerada impura. Ela era uma mulher marginalizada, não podia ter relações estáveis, não podia ter cônjuge, não podia ter família e não podia ter relações sociais normais porque era “impura”, uma doença que a tornava “impura”. Ela morava sozinha, com o coração ferido. A maior doença da vida, o que é? O cancro? A Tuberculose? A pandemia? Não. A maior doença da vida é a falta de amor, é não poder amar. Esta pobre mulher estava farta do sangramento, sim, mas, consequentemente, da falta de amor, porque não podia estar socialmente com os outros. E a cura que mais importa é a dos afetos. Mas como encontrá-la? Podemos pensar nos nossos afetos: estão doentes ou com boa saúde? Estão doentes? Jesus é capaz de os curar.
A história desta mulher sem nome – chamemo-la assim “a mulher sem nome” – na qual todos nós podemos reconhece-nos, é exemplar. O texto diz que ela teria realizado muitas curas, «gastando sem proveito todos os seus bens, e até piorando» (v. 26). Quantas vezes nós também nos lançamos em remédios errados para saciar a nossa falta de amor? Achamos que o sucesso e o dinheiro nos fazem felizes, mas o amor não se compra, é de graça. Refugiamo-nos no virtual, mas o amor é concreto. Não nos aceitamos como somos e escondemo-nos atrás dos truques da exterioridade, mas o amor não é uma aparência. Procuramos soluções na magia, nos santos, quando nos encontramos sem dinheiro e sem paz, como aquela mulher. Por fim, ela escolhe Jesus e lança-se na multidão para tocar no manto, o manto de Jesus. Aquela mulher procura o contato direto, o contacto físico com Jesus. Principalmente neste tempo, entendemos a importância do contacto, das relações. O mesmo acontece com Jesus: às vezes contentamo-nos em observar alguns preceitos e repetir orações – tantas vezes como papagaios – mas o Senhor espera que o encontremos, abramos o coração a ele, toquemos no seu manto como aquela mulher para sermos curados. Por que, ao entrar em intimidade com Jesus, somos curados nos nossos afetos.
É isto que Jesus quer, aliás, lemos que, mesmo pressionado pela multidão, ele olha em volta para encontrar quem o tocou. Os discípulos disseram-lhe: “Vês a multidão que Te aperta e perguntas…” Não: “Quem me tocou?”. É o olhar de Jesus: são tantas pessoas, mas Ele vai em busca de um rosto e de um coração cheio de fé. Jesus não olha o todo, como nós, mas olha a pessoa. Não pára diante das feridas e erros do passado, mas vai além dos pecados e preconceitos. Todos nós temos uma história, e cada um de nós, no seu íntimo, conhece bem as coisas más da sua própria história. Mas Jesus olha para eles para os curar. Em vez disso, gostamos de olhar para as coisas más dos outros. Quantas vezes, quando falamos, caímos na tagarelice, que é a fofoca sobre os outros, “esfolamos” os outros. Mas vede: que horizonte de vida é este? Não como Jesus, que olha sempre para o meio de nos salvar, olha para o hoje, para a boa vontade e não para a má história que temos. Jesus vai além dos pecados. Jesus vai além dos preconceitos, não se limita às aparências, chega ao coração de Jesus e cura apenas aquela que era rejeitada por todos, uma pessoa impura. Com ternura ele chama-a de “filha” (v. 34) – o estilo de Jesus era proximidade, compaixão e ternura: “Filha …” – e elogia a sua fé, restaurando-lhe a confiança em si mesma.
Irmã, irmão, estais aqui, deixai Jesus olhar e curar o vosso coração. Eu também devo fazê-lo: deixar Jesus olhar para o meu coração e curá-lo. E se já experimentaste o seu olhar terno em ti, imita-o e faz como Ele. Olha em teu redor: verás que muitas pessoas que vivem ao teu lado se sentem magoadas e sozinhas, precisam se sentir amadas: dá o passo. Jesus pede-te um olhar que não se limite ao exterior, mas ao coração; um olhar sem julgamentos – vamos parar de julgar os outros – Jesus pede-nos um olhar sem julgamentos, mas acolhedor. Abramos os nossos corações para acolher os outros. Porque só o amor cura a vida, só o amor cura a vida. Que Nossa Senhora, Consoladora dos aflitos, nos ajude a levar uma carícia aos feridos no coração que encontramos no nosso caminho. E não julgar, não julgar a realidade pessoal e social dos outros. Deus ama a todos! Não julgar, deixar os outros viver e tentar fazer-se próximo com o amor.
Tradução Educris a partir do original em italiano|27.06.2021




