Ângelus: É preciso «ruminar» a Palavra para que atinja «todas as áreas da vida», afirma o Papa

Francisco aconselhou hoje os crentes a fazerem-se acompanhar “de um evangelho de bolso”, para que ao longo do dia possam “ruminar a Palavra” ,a fim de que esta “ressoe nos seus corações” e leve à ação

Leia, na íntegra, a reflexão do Santo Padre antes da oração mariana do Ângelus

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Na liturgia de hoje, o Evangelho fala de um escriba que se aproxima de Jesus e lhe pergunta: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» (Mc 12,28). Jesus responde citando as Escrituras e afirma que o primeiro mandamento é amar a Deus; deste deriva, como consequência natural, o segundo: amar o próximo como a si mesmo (cf. vv. 29-31). Ao ouvir esta resposta, o escriba não só reconhece que é justo, mas ao fazê-lo, reconhecendo que é justo, repete quase as mesmas palavras ditas por Jesus: «Muito bem, Mestre; tens razão em dizer que […] amá-lo de todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios» (vv. 32-33).

Podemos perguntar-nos: ao dar o seu consentimento, por que sente o escriba a necessidade de repetir as mesmas palavras de Jesus? Esta repetição é ainda mais surpreendente se pensarmos que estamos no Evangelho de Marcos, que tem um estilo muito conciso. Qual é o objetivo desta repetição? Esta repetição é um ensinamento para todos nós que ouvimos. Porque a Palavra do Senhor não pode ser recebida como qualquer outra informação.  A Palavra do Senhor deve ser repetida, assumida e guardada. A tradição monástica dos monges usa um termo ousado, mas muito concreto. Diz assim: a Palavra de Deus tem que ser “ruminada”. “Ruminar” a Palavra de Deus. Podemos dizer que é tão nutritivo que deve atingir todas as áreas da vida: envolver, como diz Jesus hoje, todo o coração, toda a alma, toda a inteligência, todas as forças (cf. v. 30). A Palavra de Deus deve ressoar, ressoar, ser um eco dentro de nós. Quando há esse eco interno que se repete, significa que o Senhor habita no nosso coração. E diz-nos, como aquele bom escriba do Evangelho: «Não estás longe do Reino de Deus» (v. 34).

Queridos irmãos e irmãs, o Senhor não procura tantos comentadores habilidosos das Escrituras, mas corações dóceis que, acolhendo a sua Palavra, se deixem transformar por dentro. Por isso é tão importante familiarizar-se com o Evangelho, tê-lo sempre ao alcance – inclusivamente trazer consigo um pequeno Evangelho no bolso, na mala – para lê-lo e relê-lo, para se apaixonar. Quando o fazemos, Jesus, a Palavra do Pai, entra nos nossos corações, torna-se íntimo e damos fruto Nele. Tomemos como exemplo o Evangelho de hoje: não basta lê-lo e compreender que devemos amar a Deus e aos nossos vizinhos. É necessário que este mandamento, que é o “grande mandamento”, ressoe em nós, seja assimilado, se torne a voz da nossa consciência. Então não fica letra morta, na gaveta do coração, porque o Espírito Santo faz brotar em nós a semente daquela Palavra. E a Palavra de Deus age, está sempre em movimento, é viva e eficaz (cf. Hb 4,12). Assim, cada um de nós pode tornar-se uma “tradução” viva, diferente e original. Não uma repetição, mas uma “tradução” viva, diferente e original da única Palavra de amor que Deus nos dá. Isso, por exemplo, vemos na vida dos santos: nenhum é igual ao outro, todos são diferentes, mas todos com a mesma Palavra de Deus

Tomemos um exemplo deste escriba hoje. Repitamos as palavras de Jesus, façamo-las ressoar em nós: “Amar a Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente e com todas as tuas forças e o próximo como a mim mesmo”. E questionemo-nos: este mandamento realmente me orienta? Este mandamento reflete-se na minha vida diária? Far-nos-á bem esta noite, antes de dormir, fazer um exame de consciência sobre esta Palavra, para ver se hoje amamos o Senhor e demos um pouco de bem aos que encontrámos. Que cada encontro seja para dar um pouco de bem, um pouco de amor, que vem desta Palavra. Que a Virgem Maria, na qual o Verbo de Deus se fez carne, nos ensine a acolher nos nossos corações as palavras vivas do Evangelho.

Tradução Educris a partir do original em italiano

Educris|31.10.2021

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