
Papa Francisco recorda a importância da “hospitalidade” entre os cristãos e deasafiou os fiéis a serem “hospitaleiros para com os migrantes” condenando os que “não permitem aos migrantes o aporte seguro” e os deixam prisioneiros “de criminosos traficantes”.
Leia, na íntegra, a catequese do Papa Francisco
Catequese: Semana de oração pela unidade dos cristãos. «Eles trataram-nos com gentileza» (cf. Atos 28.2)
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
A catequese de hoje está em sintonia com a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. O tema deste ano, que é o da hospitalidade, foi desenvolvido pelas comunidades de Malta e Gozo, a partir da passagem dos Atos dos Apóstolos, que narra a hospitalidade reservada pelos habitantes de Malta a São Paulo e seus companheiros de viagem, náufragos como ele. Foi precisamente a este episódio que me referi na catequese de há duas semanas.
Comecemos, então, com a experiência dramática deste naufrágio. O navio em que Paulo viaja está à mercê dos elementos. Há catorze dias que estão no mar, à deriva, e como nem o sol nem as estrelas são visíveis, os viajantes sentem-se desorientados, perdidos. Por debaixo deles o mar bate violentamente contra o navio e temem que ele se rompa sob a força das ondas. Acima deles são açoitados pelo vento e pela chuva. A força do mar e da tempestade é terrivelmente poderosa e indiferente ao destino dos marinheiros: eram mais de 260 pessoas!
Mas Paulo, que sabe não ser assim, fala. A fé diz-lhe que a sua vida está nas mãos de Deus, que ressuscitou Jesus dentre os mortos, e que o chamou, Paulo, para levar o Evangelho aos confins da terra. A sua fé também lhe diz que Deus, de acordo com o que Jesus revelou, é um Pai amoroso. Portanto, Paulo dirige-se aos seus companheiros de viagem e, inspirado pela fé, anuncia-lhes que Deus não permitirá que um só fio de cabeça se perca.
Esta profecia torna-se realidade quando o navio encalha na costa de Malta e todos os passageiros chegam em segurança a terra firme. E lá eles experimentam algo novo. Em contraste com a violência brutal do mar tempestuoso, eles recebem o testemunho da “humanidade rara” dos habitantes da ilha. Estas pessoas, estranhas a eles, estão atentas às suas necessidades. Acendem uma fogueira para os aquecer, oferecem abrigo contra a chuva e comida. Mesmo que ainda não tenham recebido a Boa Nova de Cristo, manifestam o amor de Deus em atos concretos de bondade. De facto, a hospitalidade espontânea e os gestos de carinho comunicam qualquer coisa acerca do amor de Deus, e a hospitalidade dos ilhéus malteses é recompensada pelos milagres da cura que Deus opera, através de Paulo, na ilha. Portanto, se o povo de Malta era um sinal da providência de Deus para o apóstolo, ele também era uma testemunha do amor misericordioso de Deus para com eles.
Caríssimos, a hospitalidade é importante; e é também uma importante virtude ecuménica. Antes de tudo, significa reconhecer que os outros cristãos são verdadeiramente nossos irmãos e irmãs em Cristo. Nós somos irmãos. Alguém vos dirá: “Mas este é protestante, aquele ortodoxo …” Sim, mas somos irmãos em Cristo. Não é um ato de generosidade unidirecional, porque quando hospedamos outros cristãos, recebemo-los como um presente que nos é dado. Como os malteses – bons estes malteses – somos recompensados, porque recebemos o que o Espírito Santo semeou nos nossos irmãos e irmãs, e isso torna-se um presente para nós também, porque o Espírito Santo semeia também as suas graças em todos os lugares. Acolher cristãos de outra tradição significa, antes de tudo, mostrar o amor de Deus por eles, porque são filhos de Deus – nossos irmãos – e também significa acolher o que Deus realizou nas suas vidas. A hospitalidade ecuménica exige disposição para ouvir os outros, tomando atenção às histórias pessoais de fé e à história da sua comunidade, uma comunidade de fé com outra tradição diferente da nossa. A hospitalidade ecuménica envolve o desejo de conhecer a experiência que outros cristãos têm de Deus e a expectativa de receber os dons espirituais dela decorrentes. E isto é uma graça, descobrir isto é uma graça. Penso nos tempos passados, na minha terra, por exemplo. Chegaram, naquele tempo, alguns missionários evangélicos e um pequeno grupo de católicos andou a queimar-lhes as tendas. Isto não é: não é cristão. Somos irmãos, somos todos irmãos e devemos ser hospitaleiros.
Hoje, o mar em que Paulo e os seus companheiros naufragaram é mais uma vez um lugar perigoso para a vida de outros marinheiros. Em todo o mundo, homens e mulheres migrantes enfrentam jornadas arriscadas para escapar da violência, da guerra e da pobreza. Como Paulo e seus companheiros, eles experimentam a indiferença, a hostilidade no deserto, rios, mares … Muitas vezes não os deixam desembarcar nos portos. Mas, infelizmente, às vezes eles também encontram hostilidade muito pior que os homens. Eles são explorados por criminosos traficantes: hoje! Eles são tratados como números e como uma ameaça por alguns governantes: hoje! Às vezes, o inóspito rejeita-os como uma onda em direção à pobreza ou aos perigos dos quais eles fugiram.
Nós, como cristãos, devemos trabalhar juntos para mostrar aos migrantes o amor de Deus revelado por Jesus Cristo. Podemos e devemos testemunhar que não há apenas hostilidade e indiferença, mas que toda a pessoa é preciosa para Deus e amada por Ele. As divisões que ainda existem entre nós impedem-nos de ser totalmente o sinal do amor de Deus. Trabalhar juntos para experimentar a hospitalidade ecuménica, especialmente para aqueles cujas vidas são mais vulneráveis, fará de todos nós cristãos – protestantes, ortodoxos, católicos, todos cristãos – melhores seres humanos, melhores discípulos e um povo cristão mais unido. Isto nos aproximará da unidade, que é a vontade de Deus para nós.
Tradução Educris a partir do original em italiano
Educris|23.01.2020




