Audiência-geral: «A vocação cristã é esponsal»

“Toda a vocação cristã é esponsal, porque é o fruto do vínculo de amor em que todos somos regenerados, o vínculo de amor com Cristo”, disse hoje o Papa Francisco na audiência-geral

Leia, na íntegra, a catequese do Papa Francisco.

“Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Gostaria hoje de concluir a catequese sobre a Sexta Palavra do Decálogo – “Não cometer adultério” -, evidenciando que o amor fiel de Cristo é a luz para viver a beleza da afetividade humana. De facto, a nossa dimensão emocional é um chamamento ao amor, que se manifesta na fidelidade, aceitação e misericórdia. Isto é muito importante. Como se manifesta o amor? Na fidelidade, na aceitação e na misericórdia.

No entanto, não se deve esquecer que este mandamento se refere explicitamente à fidelidade matrimonial e, portanto, é bom refletir mais profundamente sobre o seu significado matrimonial. Esta passagem das Escrituras, esta passagem da Carta de São Paulo, é revolucionária! Pensar, com a antropologia da época, e dizer que o marido deve amar a sua esposa como Cristo ama a Igreja: É uma revolução! Talvez, naquela época, seja a coisa mais revolucionária que se disse sobre o casamento. Sempre no caminho do amor. Podemos perguntar-nos: este mandamento de fidelidade, a quem é destinado? Somente aos esposos? Na realidade, este mandamento é para todos, é uma Palavra de Deus paternal dirigida a todo o homem e mulher.

Lembremo-nos de que o caminho da maturidade humana é o próprio caminho do amor que vai do cuidado à capacidade de oferecer cuidados, de receber a vida à capacidade de dar a vida. Tornar-se homem e mulher adultos significa chegar à atitude matrimonial e paternal, que se manifesta nas várias situações da vida como a capacidade de assumir o peso de outrem e amá-lo sem ambiguidade. É, portanto, uma atitude global da pessoa que sabe como assumir a realidade e entrar num relacionamento profundo com os outros.

Que é então o adúltero, o lascivo, o infiel? Ele é uma pessoa imatura, que mantém a sua própria vida e interpreta as situações tendo por base o seu próprio bem-estar e satisfação. Então, para se casar, não é suficiente celebrar o casamento! Precisamos fazer uma jornada do “eu” para o “nós”, pensar por nós mesmos e pensar em dois, viver sozinhos e viver em condições adversas: é um caminho bonito, é um caminho bonito. Quando chegarmos ao descentramento, então toda a ação é esponsal: trabalhamos, falamos, decidimos, encontramos os outros com uma atitude acolhedora e oblativa.

Todas as vocações cristã, neste sentido, e alarguemos agora um pouco mais a perspetiva, é esponsal. O sacerdócio é-o porque é o chamamento, em Cristo e na Igreja, a servir a comunidade com toda a afeição, cuidado concreto e sabedoria que o Senhor dá. A Igreja não precisa de aspirantes ao papel de sacerdotes – não, não servem, é melhor que fiquem em casa – servem homens aos quais o Espírito Santo toca o coração com um amor incondicional pela Esposa de Cristo. No sacerdócio, amamos o povo de Deus com toda a paternidade, ternura e força de um marido e de um pai. Assim também a virgindade consagrada em Cristo é vivida com fidelidade e alegria como uma relação conjugal e frutífera de maternidade e paternidade.

Repito: toda vocação cristã é esponsal, porque é o fruto do vínculo de amor em que todos somos regenerados, o vínculo de amor com Cristo, como nos lembrou a passagem de Paulo no princípio. A partir da sua fidelidade, da sua ternura, da sua generosidade, olhamos com fé o matrimónio e todas as vocações, e compreendamos plenamente o sentido da sexualidade.

A criatura humana, na sua inseparável unidade de espírito e corpo e na sua polaridade masculina e feminina, é uma realidade muito boa, destinada a amar e a ser amada. O corpo humano não é um instrumento de prazer, mas o lugar do nosso chamamento ao amor, e no amor autêntico não há lugar para a luxúria e para a sua superficialidade. Homens e mulheres merecem mais do que isso!

Portanto, a Palavra «Não cometer adultério», mesmo que de forma negativa, conduz-nos ao nosso chamamento original, isto é, ao pleno e fiel amor esponsal que Jesus Cristo nos revelou e nos deu (cf. Rm 12, 1).

Tradução Educris a partir do original em italiano

Imagem: vatican.va

31.10.2018

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