
Francisco lembra exemplo de vida no Panamá, em oposição ao «inverno demográfico europeu». Na primeira audiência-geral após a viagem àquele país da América central por ocasião da JMJ19 o Papa refletiu sobre a experiência que considerou «uma graça para toda a Igreja»
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Hoje irei debruçar-me convosco na Viagem Apostólica que fiz nos últimos dias no Panamá. Convido-os a dar graças comigo ao Senhor por esta graça que Ele quis dar à Igreja e ao povo daquele amado país. Agradeço ao Presidente do Panamá e às outras Autoridades, os Bispos; e agradeço a todos os voluntários – houve tantos – pelo acolhimento caloroso e familiar, o mesmo que vimos em pessoas que em toda parte se apressavam para me cumprimentar com grande fé e entusiasmo. Uma coisa me impressionou muito: as pessoas levantavam os filhos nos braços. Quando o papamóvel passava levantavam os filhos e diziam: “Eis meu orgulho, eis o meu futuro!”. E mostravam as crianças. E eram muitos! E os pais ou mães têm orgulho desse filho. Eu pensei: quanta dignidade neste gesto, e quanto é eloquente para o inverno demográfico que estamos a viver na Europa! O orgulho desta família são os filhos. A segurança para o futuro são as crianças. O inverno demográfico, sem filhos, é difícil!
O motivo desta viagem foi a Jornada Mundial da Juventude, mas os encontros com os jovens entrelaçaram-se com a realidade do País: as Autoridades, os Bispos, os jovens presos, as pessoas consagradas e um lar. Tudo esta como que “contagiado” e “misturado” pela presença alegre dos jovens: uma festa para eles e uma festa para o Panamá, e também em toda a América Central, marcada por tantas tragédias e necessitada de esperança e de paz, e bem da justiça.
Esta Jornada Mundial da Juventude foi precedida pelo encontro dos jovens de povos nativos e afro-americanos. Um gesto simpático: fizeram cinco dias de encontro, jovens indígenas e jovens descendentes. Eles são muitos nesta região. Abriram a porta para a Jornada Mundial. E esta é uma iniciativa importante que mostrou ainda melhor o rosto multifacetado da Igreja na América Latina: a América Latina é mestiça. Então, com a chegada de grupos de todo o mundo, formou-se a grande sinfonia de rostos e línguas, típica deste evento. Ver todas as bandeiras da desfilar juntas, dançando nas mãos de jovens alegres por se encontrarem é um sinal profético, um contra-sinal em relação à triste tendência atual dos nacionalismos conflituosos, que levantam muros e viram as costas à universalidade, ao encontro entre os povos. É um sinal de que os jovens cristãos são fermento em paz no mundo.
Esta JMJ teve uma forte marca mariana, porque o seu tema eram as palavras da Virgem ao Anjo: «Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1:38). Foi forte ouvir estas palavras ditas pelos representantes dos jovens dos cinco continentes e, acima de tudo, vê-las nos seus rostos. Enquanto houver novas gerações capazes de dizer “aqui estou” a Deus, haverá um futuro no mundo.
Entre as etapas da JMJ, há sempre a Via Crucis. Caminhar com Maria atrás de Jesus que carrega a cruz é a escola da vida cristã: ali aprende-se o amor paciente, silencioso e concreto. Vou contar-vos um segredo: Gosto muito de fazer a Via Crucis, porque se anda com Maria a Jesus. E trago sempre comigo uma Via Crucis de bolso que me foi oferecida por uma pessoa muito apostólica em Buenos Aires. E quando tenho tempo, tomo e sigo a Via Crucis. Pegai a Via Crucis também, porque é seguir Jesus com Maria no caminho da cruz, onde Ele deu a sua vida por nós, pela nossa redenção. Na Via Crucis aprende-se o amor paciente, silencioso e concreto. No Panamá, os jovens trouxeram com Jesus e Maria o fardo da condição de tantos irmãos e irmãs sofredores na América Central e no mundo inteiro. Entre eles, há muitas vítimas jovens de diferentes formas de escravidão e pobreza. E nesse sentido foram momentos muito significativos a liturgia penitencial que celebrei num lar de reabilitação para menores e a visita ao Lar “Bom Samaritano“, que abriga pessoas com HIV /AIDS.
O ponto culminante da JMJ e da viagem foram a Vigília e a Missa com os jovens. Na Vigília – naquele acampamento cheio de jovens que fizeram a Vigília, dormindo lá e às 8 horas da manhã de pé para participarem na Missa – na Vigília o diálogo vivo foi renovado com todos os rapazes e raparigas, entusiasmados e até capazes de fazer silêncio e de ouvir. Passaram do entusiasmo para a escuta e à oração silenciosa. A eles propus Maria como aquela que, na sua pequenez, mais do que qualquer outra, “influenciou” a história do mundo: chamámo-la a “influencer de Deus”. No seu “fiat”, os belos e fortes testemunhos de alguns jovens foram refletidos. No domingo, na grande celebração eucarística final, Cristo ressuscitado, com a força do Espírito Santo, novamente falou aos jovens do mundo chamando-os a viver o Evangelho no hoje, porque os jovens não são “amanhã”; não, eu sou o “hoje” para o “amanhã”. Eles não estão “no meio tempo”, mas são hoje, hoje, da Igreja e do mundo. Apelei à responsabilidade dos adultos, para que as novas gerações não careçam de educação, trabalho, comunidade e família. E esta é a chave do momento atual do mundo, porque estas coisas estão a faltar. Instrução, isto é, educação. Trabalho: quantos jovens estão sem ele. Comunidade: sentir-se bem-vindo, na família, na sociedade.
O encontro com todos os bispos da América Central foi para mim um momento de consolo especial. Juntos, fomos instruídos com o testemunho do santo bispo Oscar Romero, para aprender melhor a “sentir com a Igreja” – foi o seu lema episcopal – em proximidade com os jovens, os pobres, os sacerdotes, o santo povo fiel de Deus.
E um forte valor simbólico teve a consagração do altar da catedral restaurada de Santa Maria La Antigua, no Panamá. Estava fechada há sete anos para a restauração. Um sinal de beleza redescoberta, para a glória de Deus e para a fé e a festa do seu povo. O Crisma que consagrou o altar é o mesmo que unge os batizados, as pessoas, padres e bispos confirmados. Possa a família da Igreja, no Panamá e no mundo inteiro, extrair do Espírito Santo sempre nova fecundidade, para que a peregrinação dos jovens discípulos missionários de Jesus Cristo possa continuar e espalhar-se sobre a terra.
Tradução Educris a partir do original em italiano
Educris|31.01.2019



