
Ez 2,2-5; Sl 123; 2 Cor 12,7-10; Mc 6,1-6
1. O Evangelho deste Domingo XIV do Tempo Comum (Marcos 6,1-6) enlaça no do Domingo passado (XIII), pondo Jesus a sair de «lá» (ekeîthen) (Marcos 6,1), isto é, de Cafarnaum, da casa de Jairo (Marcos 5,35-43), onde entrou no Domingo passado, mas a sair de «lá» também no sentido de deixar para trás um período de grande atividade, com Jesus a contar ao povo e a explicar aos seus discípulos várias versões da parábola da semente, que é a Palavra e que é o próprio Jesus (4,1-34), a entrar com os seus discípulos na barca e a acalmar a tempestade (4,35-41), a curar o endemoninhado (51-20), a curar a mulher que sofria de uma hemorragia e a retirar do sono da morte a filha de Jairo (5,21-43). Jesus sai de «lá», de tudo isto, para se religar a Marcos 3,21-22.31-35, quando deixou os seus familiares fora da porta. Agora, é Jesus que se dirige para a sua pátria (pátris) (Marcos 6,1), ao encontro dos seus familiares e conterrâneos, que de há muito o conhecem, sendo o sábado e a sinagoga o tempo e lugar desse encontro (Marcos 6,2). Nazaré não é mencionada. Note-se também que aqui é Jesus que toma a iniciativa de se dirigir ao encontro das pessoas, quando em quase todos os episódios anteriores eram as pessoas que iam ao encontro de Jesus. Esta primeira ida de Jesus à sua pátria fica a marcar também, no Evangelho de Marcos, a última vez que Jesus ensina numa sinagoga (cf. Marcos 1,21.23.29.30; 3,1; 6,2); e o sábado apenas será mencionado mais uma vez, precisamente na madrugada da Páscoa, escrevendo então o narrador: «passado o sábado» (Marcos 16,1).
2. E, portanto, tudo neste texto, neste encontro, assume um carácter decisivo. Desde logo a escolha do termo «pátria», que carrega consigo um significado mais intenso e mais amplo do que o mais habitual de «povoação». Com esta forma de dizer, este decisivo encontro com Jesus não fica apenas circunscrito a uma pequena região da Galileia, mas prefigura já o encontro de Jesus com o inteiro Israel, e a mesma rejeição que lhe será movida por este. São mesmo já visíveis desde aqui as resistências ao Evangelho radicadas no nosso coração, e que o Quarto Evangelho porá a claro: «Veio para o que era seu, e os seus não o receberam» (João 1,11). Mas também esta última vez a ensinar na sinagoga, e este sábado que aponta para aquele último «passado o sábado» (Marcos 16,1), devem gravar em nós evocações e apelos decisivos. Tudo o que tem sabor a «último», a «última vez», carrega um particular peso específico.
3. Aventurando-nos um pouco mais dentro do texto, não ficaremos certamente admirados por vermos que estes conterrâneos de Jesus estejam a par das suas humildes e bem conhecidas raízes geográficas e familiares, as quais, na mentalidade antiga, determinam a identidade e a capacidade da pessoa. Notaremos ainda, sem grande espanto, que os conterrâneos de Jesus sabem, em termos anagráficos, muito mais do que o leitor sobre Jesus: dele sabem indicar a família, a profissão, a residência. O que nos deve espantar, isso sim, é que aqueles conterrâneos de Jesus não saibam dizer «DE ONDE» (póthen) lhe vem aquela sabedoria única e aqueles divinos prodígios que realiza. Estabelecendo o paralelismo, quando Jesus entrou a primeira vez em Cafarnaum e deu ordens a um espírito impuro e foi logo por ele obedecido, as pessoas interrogaram-se, abrindo um debate: «O que vem a ser isto?» (Marcos 1,27a), para logo se manifestarem maravilhados e qualificarem a ação de Jesus como «um novo ensinamento com autoridade» (Marcos 1,22.27b). Ao contrário, os conterrâneos de Jesus só se fazem perguntas carregadas de ironia, e escandalizam-se mesmo com ele, fechando-se à sua pessoa e à sua missão (Marcos 6,2-3). Vê-se já daqui: lá mais à frente, à vista da Cruz e do sofrimento, serão os discípulos a escandalizar-se de Jesus (Marcos 14,27), e o anjo do anúncio da Ressurreição não deixará de reunir os dois motivos do escândalo: «Jesus de Nazaré, o Crucificado» (Marcos 16,6).
4. É fácil verificar que, ao ouvirem Jesus, os seus conterrâneos se põem primeiro perguntas sensatas: «De onde lhe vêm estas coisas? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E os prodígios feitos pelas suas mãos?» (Marcos 6,2), para depois passarem a debitar perguntas retóricas e irónicas de que eles sabem bem as respostas: «Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui connosco?» (Marcos 6,3). Tratam-no de forma pouco cortês por «este» (Marcos 6,2.3) e por «filho de Maria» (habitualmente é o nome do pai que se refere), escandalizam-se por causa dele (Marcos 6,3), não querem reconhecer que venha da parte de Deus, assumem para com Ele um comportamento de não disfarçada indiferença: não pretendem matá-lo, como maquinam fariseus e herodianos (Marcos 3,6), mas tão-pouco querem saber da sua missão e da sua mensagem. Face a este «não querer saber dos seus conterrâneos, Jesus clarifica as águas e faz saber que «um profeta não é desprezado senão na sua pátria, entre os seus parentes e na sua casa» (Marcos 6,4), e Marcos põe em evidência, e só ele o faz, que Jesus «não podia» (ouk edýnato) fazer «ali» (ekeî) nenhum milagre (Marcos 6,5), e maravilhava-se por causa da falta de fé (apistía) daquela gente (Marcos 6,6). A partir da frase do leproso: «Se quiseres, podes curar-me» (Marcos 1,40), fala-se sempre do poder de Jesus (Marcos 1,45; 8,4; 9,22; 15,31). Jesus não perdeu esse poder em Nazaré, mas vê-se que se comporta com as pessoas de modo diferente do que faz com as forças da natureza. A estas impõe o seu poder, mas, no que se refere às pessoas, Jesus respeita as suas decisões.
5. Às vezes, por termos os olhos tão embrenhados na terra, nas coisas da terra, não conseguimos ver o céu! Veja-se a iluminante cena da cura do cego de nascença (João 9). Em diálogo com o cego curado, os fariseus acabam por afirmar acerca de Jesus: «Esse não sabemos DE ONDE (póthen) é» (João 9,29), ao que o cego curado responde, apontando, com evidente ironia, a cegueira deles: «Isso é “espantoso” (tò thaumastón): vós não sabeis DE ONDE (póthen) Ele é; e, no entanto, Ele abriu-me os olhos!» (João 9,30). Que é como quem diz: só não vê quem não quer! Tal como o cego, e fazendo uso da mesma linguagem, também Jesus “estava espantado” (ethaúmazen) com a falta de fé dos seus conterrâneos (Marcos 6,6). Note-se bem que a falta de fé aqui assinalada não é apenas a negação de Deus. É a rejeição de Jesus em nome de uma errada conceção de Deus. Podemos dizer mesmo: para salvar a honra de Deus! Veja-se bem até onde pode chegar a nossa cegueira! Sim, não é possível, pensam os conterrâneos de Jesus, que um carpinteiro, filho de Maria e membro daquela família, que todos conhecem, diga o que diz e faça o que faz! De facto, às vezes, para salvar a honra de Deus, acabámos por rejeitar tanta gente boa e humilde!
6. Numa altura em que se continua a falar da «receção» do Concílio II do Vaticano, dado que ainda estamos na esteira da celebração dos 50 anos da sua realização (1962-1965), podemos falar também, com as devidas distâncias, da «receção» de Jesus e do seu Evangelho. O texto diz-nos que os seus conterrâneos não o receberam, não se deixaram atravessar por Ele, pelo Céu que Ele indicava e trazia consigo. Ponte para o próximo Domingo (XV), em que ouviremos o episódio que se segue imediatamente ao de hoje (Marcos 6,7-13). Aí, Jesus enviará os seus Doze Apóstolos, dois a dois, despojados de meios ou de equipamento, para ressaltar bem a importância do Anúncio do Evangelho. Mas a ponte entre os dois textos e respetivos Domingos está em que ouviremos Jesus dizer aos seus Apóstolos: «Qualquer lugar (tópos) que não vos “receba” (déxetai)…» (Marcos 6,11). Os livros dizem que, em Marcos, o verbo «receber» (déchomai) está sempre referido a Jesus. Trata-se de «receber», de «acolher» Jesus. É então também fácil ver qual é o «lugar» que não «recebeu» Jesus. Mas o problema é sempre este: e nós?
7. A figura de Ezequiel, profeta frágil, mas que aponta para um «Deus que dá força» (etimologia do seu nome), por 93 vezes interpelado por Deus com a locução «Filho do Homem», é por Deus incumbido da missão difícil de ser sentinela (tsopeh) (Ezequiel 3,17; 33,7) da casa rebelde de Israel, junto do rio Cobar, em Tel ’Abîb (Ezequiel 1,1-3; 3,15), na Babilónia, uma espécie de «pároco dos exilados». Tel ’Abîb significa «colina da primavera» ou das «espigas». É um lugar duro de exílio, mas, porque lembra a primavera, é também um nome carregado de esperança. Os judeus deram este nome significativo a uma das primeiras colónias que fundaram na Palestina, junto da costa Mediterrânica, em finais do século XIX, onde se situa hoje a capital política de Israel. O rio Cobar é um canal de irrigação, hoje chamado Shatt Ennil, que parte do Eufrates para irrigar a cidade de Nippur, onde os Babilónios instalaram deportados oriundos de diferentes proveniências, entre os quais se contam os deportados de Judá. Na sua fragilidade e na rejeição que experimenta, o profeta Ezequiel ajuda a perceber e a «receber» melhor a figura de Jesus, o Deus feito homem, que a si mesmo se diz nos Evangelhos, por 82 vezes, «Filho do Homem».
8. E São Paulo dá testemunho, na Segunda Carta aos Coríntios (12,7-10) da força nova de Cristo, que o habita: «Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que se manifesta a minha força» (2 Coríntios 12,9). E ainda: «Quando sou fraco, então é que sou forte» (2 Coríntios 12,10).
9. O Salmo 123 mostra-nos a força do olhar através de uma série de olhares que se entrecruzam: os meus olhos, os olhos dos servos, os olhos da escrava, os nossos olhos. Os meus olhos e os nossos olhos estão postos em Deus; os dos servos nas mãos dos seus patrões; os da escrava nas mãos da sua patroa. Há, todavia, uma diferença entre as mãos de Deus e as dos patrões. As mãos dos patrões dão ordens. As mãos de Deus abençoam, dão, salvam, embalam com ternura, fazem graça. Portanto, o homem que reza neste Salmo não junta as mãos, mas abre-as para as de Deus, formando uma espécie de puzzle, para receber os dons de Deus; também não fecha os olhos, mas escancara-os para o céu; e tão-pouco se fecha no seu mundo interior, mas abre-se completamente para fora. O orante deste Salmo reza com as mãos e os olhos abertos, com a alma aberta, não «curvado sobre si», mas completamente levantado para Deus.
António Couto

