Domingo XVI do Tempo Comum: «Reunidos à volta de Jesus»

Jr 23,1-6; Sl 23; Ef 2,13-18; Mc 6,30-34

1. O Evangelho deste Domingo XVI do Tempo Comum (Marcos 6,30-34) insere-se numa bela sequência de preciosos textos. Importante não perder de vista o fio de ouro (ou de sentido) que entretece os episódios que, com extrema habilidade, Marcos coloca diante dos nossos olhos. Em Marcos 6,1-6, Jesus é rejeitado na sua pátria, prolepse de tudo o que lhe vai acontecer. No episódio seguinte, Marcos 6,7-13, Jesus envia os «Doze» em missão. Envia-os dois a dois, leves e ledos, sem nada a que se agarrar ou os faça distrair. A sua única bagagem é o Evangelho. Logo a seguir, em Marcos 6,14-29, é narrada a versão popular do martírio de João Batista, que difere da versão política de Flávio Josefo. Em Marcos 6,30, «os Apóstolos» (hoi apóstolloi) reúnem-se junto de Jesus, e narraram-lhe tudo o que tinham feito e ensinado (Marcos 6,30). É aqui e assim que começa o Evangelho de hoje.

2. De notar, em primeiro lugar, que o envio em missão dos «Doze» aparece premonitoriamente colocado entre a rejeição de Jesus e o martírio de João Batista. Esta leitura sai ainda reforçada se tivermos em conta que o episódio do martírio de João Batista rasga em duas partes a missão dos «Doze», intrometendo-se entre o envio de junto de Jesus e o anúncio feito pelos «Doze» (Marcos 6,7-13), e o regresso de «os Apóstolos» (hoi apóstoloi) a Jesus (Marcos 6,30).

3. De notar, em segundo lugar, a permanente referência a Jesus por parte dos «Doze». Na verdade, é Jesus que os envia, e envia-os dois a dois, é d’Ele que partem, é d’Ele que são arautos, mensageiros ou testemunhas, é a Ele que regressam, é a Ele que fazem a «relação» de tudo (pánta) o que tinham feito e ensinado. Compreende-se de quanto se lê nas linhas e entrelinhas que a mensagem que lhes é confiada por Jesus tem de ser anunciada tal qual, não lhes competindo ajustá-la aos seus gostos ou aos desejos dos seus destinatários. E é por isso que, no seu regresso a Jesus têm de lhe fazer uma relação de tudo o que tinham feito e ensinado, porque é perante Jesus que têm de responder. Note-se que não fazem a Jesus uma «relação» por alto, mas uma «relação» exaustiva: de «tudo».

4. Uma inteligência mais profunda do envio «dois a dois» faz-nos ver que «os Doze» não vão em nome próprio, mas são apenas testemunhas daquele que os enviou. E, porque é de testemunho que se trata, para que este seja válido, requer-se a presença de duas ou três testemunhas (cf. Deuteronómio 19,15 e João 8,17). Mas o envio «dois a dois» faz-nos ver ainda que entre «os Doze» e Jesus há um vínculo profundo, valendo aqui a palavra de Jesus: «Onde estão dois ou três reunidos em meu nome, ali estou Eu no meio deles» (Mateus 18,20).

5. Depois de noticiado este regresso a Jesus e da menção ao relatório exaustivo da missão feito a Jesus, os «Doze» são, pela primeira vez, chamados «os Apóstolos» (hoi apóstoloi) (Marcos 6,30). Nunca até aqui, neste Evangelho, foram chamados «os Apóstolos». E Jesus retoma agora a iniciativa, vinculando-os ainda mais, se assim se pode dizer, a si mesmo, convidando-os à comunhão com Ele («Vinde») e ao descanso, separando-os para o efeito da multidão que os apertava (Marcos 6,31). Já se sabe que quem quiser ter uma vida cómoda e sossegada, não está apto para o serviço do Evangelho. Mas também não se deve recorrer a um ativismo desenfreado. O ativismo desenfreado não é um comportamento cristão. «E partiram na barca para um lugar deserto, à parte» (Marcos 6,32). No Evangelho de Marcos, a «barca» (tò ploîon) demarca um espaço privilegiado que Jesus partilha unicamente com os seus discípulos.

6. Fica-se unicamente pela barca a estreita comunhão de Jesus com os seus discípulos. É mesmo só a comunhão que sai realçada, pois nada nos é dito sobre nenhum particular assunto de conversa durante a viagem. Saídos na barca da pressão da multidão, ei-los que, ao sair da barca, ficam outra vez no meio da multidão. E o narrador lá está para nos dizer que «Ele viu» (eîden) (Marcos 6,34). É a quinta vez, neste Evangelho, que o narrador nos diz que Jesus «viu» (Marcos 1,10; 1,16; 1,19; 2,14; 6,34).  A primeira vez, «viu» os céus abertos e o Espírito a descer (Marcos 1,10). A segunda vez, «viu» Simão e André (Marcos 1,16). A terceira vez, «viu» Tiago e João (Marcos 1,19). A quarta vez, «viu» Levi (Marcos 2,14). Nestas quatro primeiras vezes, este «ver» de Jesus desencadeia um agir novo e decisivo. Também agora, na quinta vez, o olhar de Jesus abre para uma página de sublime misericórdia (esplagchnísthê) (Marcos 6,34), que leva Jesus a reunir e abraçar aquela multidão de ovelhas sem pastor, e a ensiná-las demoradamente, dando resposta plena à preocupação de Moisés no deserto, à entrada da Terra Prometida, pedindo a Deus um novo guia «para que a comunidade do Senhor não seja como um rebanho sem pastor» (Números 27,17). Uma comunidade cai em ruínas quando é atropelada pelo individualismo e pelo egoísmo dos seus membros, e torna-se um povo sem pastor quando não tem nem reconhece normas e valores comuns. Portanto, primeiro Jesus assume sobre si a figura do Bom Pastor, e ensiná-los-á demoradamente. Depois, repartirá com eles o pão. O grão do espírito precede o grão de trigo.

7. Este Jesus, que assume sobre si os traços do Bom Pastor, que se reparte totalmente entre os seus Apóstolos e o povo, impressionou grandemente as primeiras gerações cristãs. É assim que a figura do Bom Pastor, carregando uma ovelha aos ombros, faz parte das primeiras representações que encontramos nos frescos, relevos e estátuas já nas antigas catacumbas. Ainda recentemente arqueólogos Israelitas encontraram perto do antigo porto de Cesareia Marítima um anel de ouro, da época romana, com a imagem de Jesus como o Bom Pastor. Esta representação é certamente uma das mais significativas de Jesus, e é belo ver como ela perdura ao longo dos séculos. Como para dizer que todos se podem aproximar de Jesus, dado que Ele se enche de compaixão por todos.

8. Jeremias 23,1-6 constitui um marco, traça uma fronteira entre um tempo velho e a cair de podre, marcado por aquele «Ai (hôy) dos pastores que perdem e dispersam as ovelhas do meu rebanho, oráculo do SENHOR!» (Jeremias 23,1), que retoma aquele «Ai» que arrasa o tirano rei Joaquim (609-597) e o toma como paradigma dos maus pastores (Jeremias 22,18), que será sepultado como um jumento (Jeremias 22,19). O grande profeta de Anatot vê bem a ruína dos poderosos, mas vê e sente na própria pele também a desgraça que se abate sobre os pobres, porque não há pastores bons e justos que lhes indiquem os caminhos a seguir (Jeremias 23,2). O próprio Deus se propõe reunir e cuidar em primeira mão das suas ovelhas (Jeremias 23,3), e promete enviar no futuro um descendente de David, um «Gérmen justo» (tsemah tsaddîq), um pastor bom e justo, que trará consigo o direito e a justiça (Jeremias 23,5), e o seu nome será «O SENHOR, nossa justiça» (YHWH tsidqenû) (Jeremias 23,6). Este nome novo, referido no plural [«nossa justiça»], atinge e condena também o rei Sedecias (tsidqiyah) (597-587), cujo nome significa «O SENHOR, minha justiça», referido no singular, e que, devido aos seus cambalachos políticos entre a Babilónia e o Egito, acarretou sobre o povo de Judá o desastre de 587. Mas é sobretudo notório que o «Gérmen justo», que receberá o nome de «O SENHOR, nossa justiça», da descendência de David, e que salvará o seu povo, aponta já para Jesus, o Bom Pastor, que sente compaixão pelas suas ovelhas, como se vê no Evangelho de hoje.

9. Na lição da Carta aos Efésios 2,13-18, Paulo põe diante de nós todos, judeus e pagãos, a ação salvadora e unificadora de Jesus Cristo. Nele, na sua Cruz, no seu Corpo, novo Templo, não há mais lugar para separações, cai o muro que, no velho Templo, separava o átrio dos pagãos do átrio dos judeus. Jesus Cristo, aproximando-se de todos, aproximou-nos a todos, os de longe e os de perto, destruiu ódios e toda a espécie de barreiras, e estabeleceu a Paz entre nós. O Evangelho, que é Cristo, une, reúne, enlaça, entrelaça, gera fraternidade. Bem à vista também no Evangelho de hoje.

10. Quanto ao mais, todo o tempo é tempo para nos deixarmos conduzir pela mão carinhosa e pela voz maternal e melodiosa do Bom e Belo Pastor, cantando o Salmo 23. Sim, Ele recebe bem os seus hóspedes: faz-nos uma visita guiada pelos seus prados muito verdes, cheios de águas muito azuis, unge com óleo perfumado a nossa cabeça, estende no chão do seu céu a «pele de vaca» (shulhan), que é a sua mesa, serve-nos vinhos generosos… É a alegria da nossa família reunida. Confessou o filósofo francês Henri Bergson: «As centenas de livros que li nunca me trouxeram tanta luz e conforto como os versos do Salmo 23».

11. Aproveitamos para deixar já aberta a página que se segue no Evangelho de Marcos: o pão, o pão, o pão! Fazemos notar que no texto grego, original, o nome «Jesus» aparece em Marcos 6,30, texto hoje lido, e desaparece, para reaparecer 89 versículos depois, em Marcos 8,27, quando Jesus parte com os seus discípulos para Cesareia de Filipe. São 89 versículos (mais de 13% do Evangelho de Marcos que, no seu todo, conta 677 versículos), em que desaparece o nome «Jesus» para aparecer em catadupa o nome «pão» por 21 vezes! A pedagogia bíblica e hebraica sabe bem que esconder uma realidade é chamar a atenção para ela, pois toda a gente quer saber o que lá está escondido! Trata-se, portanto, de um extraordinário texto sobre a Eucaristia com o claríssimo convite ao leitor para aprender a ver Jesus no pão! Mas nos próximos cinco Domingos (XVII a XXI), não leremos Marcos, mas João 6, que contém o grande discurso do pão da vida.

António Couto

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