
Novos recursos educativos que querem contribuir para o empoderamento de crianças dos 7 aos 12 anos na proteção contra abusos, com metodologias lúdicas, envolvimento familiar e formação de adultos
O Grupo VITA, criado pela Conferência Episcopal Portuguesa para a questão dos abusos de menores e adultos vulneráveis em contexto eclesial, apresentou esta terça-feira, no Colégio de São José, em Lisboa, dois novos programas educativos — o «Girassol» e o «Lighthouse Game» — destinados a capacitar crianças entre os 7 e os 12 anos na prevenção de abusos sexuais.
“Os recursos foram desenvolvidos com uma abordagem ativa, sequencial e lúdica, e sublinham a importância da formação contínua e do envolvimento da comunidade educativa e religiosa”, garantiu Rute Agulhas, coordenadora do organismo criado pela Igreja Católica Portuguesa.
Para a responsável existe hoje um “défice na formação e informação sobre o tema”, ao contrário do que já se consegue fazer noutras áreas de risco e onde a prevenção tem já caminho realizado.
“Falamos de prevenção como falamos de segurança rodoviária ou de sismos. Queremos, com estes programas de prevenção do abuso nos menores, ensinar as crianças a reconhecer sinais, a reagir e a revelar. A responsabilidade é de todos nós”, afirmou a coordenadora do Grupo Vita, durante a conferência de imprensa.
Explicando que uma em cada cinco raparigas e um em cada sete rapazes é vítima de algum tipo de abuso, a responsável afirmou ser “essencial promover desde cedo competências de autoproteção e relações saudáveis” e garantiu que os “programas não são sobre questões de género, ideológicas ou de sexualidade”, mas abordam temas como “corpo e toques, segredos, emoções, internet segura ou a importância de dizer ‘não”.
Do jogo ao diálogo: ferramentas para educar com impacto
Os novos recursos resultam de um trabalho alargado de “cerca de dois anos” e foram pré-testados com um grupo de 19 crianças, dos seis aos nove anos, e de 32 crianças dos 10 aos 14 anos.
O programa «Girassol», destinado a crianças dos 7 aos 9 anos, apresenta uma narrativa centrada numa personagem simbólica — o girassol — e inclui um mapa com paragens temáticas, onde os mais novos podem refletir sobre os temas propostos. A ferramenta inclui um manual para adultos com orientações claras, glossário e um caderno de atividades — também disponível em formato digital — para dinamização em contexto escolar, catequético ou escutista.
Já o «Lighthouse Game», pensado para pré-adolescentes dos 10 aos 12 anos, é um jogo digital interativo, com oito temas organizados em cinco níveis, que convida os participantes a “peregrinar” a partir de um farol simbólico. A ferramenta inclui ainda atividades complementares fora do ambiente digital, bem como tarefas simples para promover o envolvimento das famílias.
“Importa treinar comportamentos e perceber situações-problema. Quando empoderamos as crianças, elas sentem-se com maior controlo. E não se verifica impacto emocional negativo”, sublinhou Rute Agulhas, destacando que o sucesso destes programas está na sua aplicação continuada no tempo.
Educar para escolhas saudáveis
A psicóloga Joana Alexandre, uma das autoras dos programas, reforçou que a prevenção “não deve ser pensada pontualmente”, mas sim como um processo contínuo.
Aos presentes a responsável apresentou os benefícios do uso de metodologias de ensino que combinem dramatizações, jogos de papéis, projetos e discussão, sempre com foco no desenvolvimento de competências sociais e que estão presentes nos dois programas.
“As escolas, a catequese e os escuteiros são espaços privilegiados de prevenção”.
Também os adultos não foram esquecidos e em ambos os recursos surge a figura do “adulto dinamizador”, que acompanha o desenvolvimento dos programas.
“Queremos formar adultos para que estejam capacitados a abordar estes temas com as crianças de forma explícita, clara e sensível”, explicou.
A equipa de desenvolvimento contou ainda com Tatiana Pinto e a colaboração de ilustradores da Gato de Bigode. No caso do «Lighthouse Game», o projeto envolveu também alunas de mestrado e teve um forte investimento da Conferência Episcopal Portuguesa, dada a complexidade e dimensão do jogo.
Ambos os programas serão acompanhados por ações de formação específicas para adultos, destinadas a professores, catequistas e outros dinamizadores, para garantir uma implementação eficaz e sensível ao tema.
Os novos recursos contam com um texto de D. José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, na Cúria Romana.
No final da apresentação Rute Agulhas sustentou que “não é só na igreja que se deve fazer prevenção” e reafirmou a convicção de que hoje “a igreja dá um exemplo de caminho a seguir para erradicar este flagelo da sociedade”, desafiando “outros organismos e instituições” a realizarem também o caminho de prevenção.
Formações online com inscrições abertas
Sem “expetativas” sobre o alcance dos dois programas Rute Agulhas informou que estão já previstas formações online. A 7 de outubro, a partir das 18h00, e a 30 de outubro, a partir das 9h00, é possível formar-se no programa «Girassol». O programa «Lighthouse Game» tem já formações agendadas para dias 17 de outubro, pelas 9h00, e a 22 de outubro, às 18h00.
“Queremos chegar longe e dar a conhecer e formar todos os agentes dentro da Igreja. Temos connosco parceiros importante, como o Secretariado Nacional da Educação Cristã (SNEC), as dioceses e a Associação Portuguesa de Escolas Católicas (APEC) que nos ajudarão, por certo, a esta formação e divulgação.
Os interessados em fazer formação podem inscrever-se AQUI
Educris|30.09.2025

