Igreja/Media: «Comunicar o que somos ou permanecer a informar o que fazemos», padre Pedro Guimarães

Especialista aponta “mudança de época” como fundamental para a construção de “um projeto comunicativo” em Igreja

O padre Pedro Guimarães, vicentino português responsável pelo projeto «Missão Onlife», acredita que o grande desafio pastoral na comunicação da Igreja passa “pela dificuldade de testemunhar a fé numa cultura digital onde predomina a informação”.

Na segunda conferência da sétima edição «Do Clique ao Toque», uma iniciativa da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa e do Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião – CITER, em parceria com o Secretariado Nacional da Educação Cristã, o  especialista apontou a necessidade de “uma formação permanente perante os sinais dos tempos”, na busca de “novas respostas”, e que assente num “testemunho feito a partir de uma identidade clara” que vá ao encontro  “crie novos processos entre batizados e aqueles que estão fora da comunidade”.

“Hoje somos desafiados a um olhar de discípulo, atualizando o ‘ver, julgar e agir’. Este primeiro passo parte da certeza de que a Igreja ou tem uma identidade clara ou podemos diluir-nos nas inúmeras propostas comunicativas que hoje estão disponíveis”, alertou.

Abordando o tema «A Comunicação é um Encontro», o sacerdote afirmou não ter dúvidas de que o problema da comunicação “da e na Igreja” não passa “pela técnica, mas na capacidade de nos ligarmos pessoa a pessoa”, como tem sido apontado pelo Papa Francisco.

“Muitos ficámos confusos com os exemplos que o Papa tem dado nas diversas mensagens para o Dia Mundial das Comunicações Sociais. A proposta de Francisco acentua sempre o ‘estar atento aos sinais’[parábola do Bom Samaritano]. O ser capaz ‘de um olhar compassivo’ [jovem rico] e, por fim, a capacidade de ‘pôr-se a caminho’ [discípulos de Emaús]”, desenvolveu.

Nestes episódios estão presentes a necessidade de “cuidar do olhar e da identidade”, num processo que “se funda na Trindade, encarna numa realidade concreta, e inicia um caminho. Só despis escolhe os instrumentos”, sustentou.

“A última característica da descoberta da comunicação como encontro é a dimensão escatológica da nossa fé:  a nossa comunicação aponta para o Céu”

Apontando para “uma mudança de época e não uma época que muda continuamente”, o padre Pedro Guimarães alertou para a necessidade de se assumir que “o fim do tempo linear” traz consigo desafios que, na sua base não são “técnicos, mas relacionais”.

“Para a Igreja toda a técnica deve estar ao serviço do cuidado da pessoa e da sua centralidade. Ora hoje enfrentamos uma mudança de paradigma onde assistimos a uma mudança da noção do tempo/espaço, dos lugares do saber e da memória, do modo próprio modo de se entender a Pessoa. Isso levanta-nos grandes desafios”, disse.

No final da sua reflexão o religioso desafiou as comunidades crentes a “elaborar um projeto comunicativo”, assente na consciência de que “ou comunicamos o que somos ou permanecemos a informar do que fazemos o que não nos permite descobrir a beleza do encontro”.

Para isso, disse, é urgente “apostar na renovação da linguagem e na formação”.

“A Igreja é chamada a educar e a educar-se com e para os media. O que publico, o que partilho, como procuro a verdade… na articulação com o meio escolar e com a família. Está a fazer falta a Igreja assumir aqui o seu papel”, concluiu.

Educris|09.02.2022

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