
Através da BBC inglesa, o Papa Francisco fez chegar um apelo aos participantes da conferência de Glasgow pelo clima e desafiou a todos a um compromisso “pelo bem comum” com a criação
Leia, na íntegra, a radiomensagem do Papa Francisco
Caros ouvintes da BBC, bom dia!
As mudanças climáticas e a pandemia Covid-19 expõem a vulnerabilidade radical de tudo e de todos e levantam inúmeras dúvidas e perplexidades sobre os nossos sistemas económicos e sobre as modalidades organizacionais das nossas sociedades.
As nossas seguranças ruíram, o nosso apetite por poder e o nosso impulso pelo controlo estão de desmoronar-se.
Descobrimo-nos fracos e cheios de medo, submersos numa série de “crises”: sanitária, ambiental, alimentar, económica, social, humanitária, ética. Crises transversais, fortemente interligadas e prenúncio de uma “tempestade perfeita”, capaz de romper os “laços” que unem a nossa sociedade no precioso dom da Criação.
Todas as crises exigem visão, capacidade de planeamento e rapidez de execução, repensando o futuro da nossa casa comum e do nosso projeto comum.
Estas crises colocam-nos diante de opções radicais que não são fáceis. Todo o momento de dificuldade contém, de facto, também oportunidades que não podem ser desaproveitadas.
Podem afrontar-se fazendo com que prevaleçam comportamentos de isolamento, protecionismo e exploração; ou podem representar uma ocasião autêntica de transformação, um verdadeiro ponto de conversão, e não apenas no sentido espiritual.
Esta última via é a única que conduz a um horizonte “luminoso” e só pode ser percorrido através de uma renovada corresponsabilidade global, uma nova solidariedade fundada na justiça, no facto de compartilharmos um destino comum e na consciência da unidade da família humana, projeto de Deus para o mundo.
Trata-se de um desafio de civilização a favor do bem comum e de uma mudança de perspetiva, de pensamento e de olhar, que deve colocar a dignidade de todos os seres humanos de hoje e de amanhã no centro de todas as nossas ações.
A lição mais importante que estas crises nos transmite é a de que devemos construir juntos, porque não existem fronteiras, barreiras, muros políticos atrás dos quais nos possamos esconder. E nós sabemos: um uma crise não se sai sozinho.
Há poucos dias, em 4 de outubro, encontrei-me com líderes religiosos e cientistas para assinar um Apelo conjunto que clama por ações mais responsáveis ??e coerentes tanto para nós mesmos quanto para os nossos líderes. Na ocasião, fiquei impressionado com o depoimento de um dos cientistas que disse: “A minha neta, que acaba de nascer, em 50 anos terá que viver num mundo inabitável, se as coisas continuam assim”.
Não podemos permitir isto!
O empenho de cada um nesta mudança urgente de rumo é fundamental; compromisso que deve ser nutrido também a partir da própria fé e espiritualidade. No Chamamento Conjunto reclamamos a necessidade de agir com responsabilidade a favor da “cultura do cuidado” da nossa casa comum e também de nós próprios, procurando erradicar as “sementes do conflito: ganância, indiferença, ignorância, medo, injustiça., insegurança e violência”.
A humanidade nunca teve tantos meios para atingir este objetivo como agora. Os legisladores da COP26 em Glasgow são urgentemente chamados a oferecer respostas eficazes para a crise ecológica em que vivemos e, portanto, esperança concreta para as gerações futuras. Mas todos nós – e vale a pena repetir, todos e onde quer que estejamos – podemos desempenhar um papel na modificação da nossa resposta coletiva à ameaça sem precedentes da mudança climática e da degradação da nossa casa comum.
Tradução Educris a partir do original em italiano
29.10.2021




