Moçambique: Religiosa dá conta de pessoas que pedem «folhas de árvores para cozinhar»

Irmã portuguesa retrata situação “no limite” na região de Lichinga, no interior norte de Moçambique

 A morar há “quatro anos em Lichinga”, Mónica Moreira da Rocha, a religiosa portuguesa responsável pela Casa do Imaculado Coração de Maria, na paróquia da Cerâmica, traça um cenário de grande necessidade no norte interior de Moçambique, agravada pelos deslocados internos.

“Temos lá no jardim [da casa], duas árvores que dão umas folhas e as pessoas vêm muitas vezes pedir essas folhas para cozinhar. As pessoas levam, cozinham e fazem uma refeição com aquilo…”, lamenta, em choque a irmã, em declarações à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).

Situada na província de Niassa a cidade de Lichinga viu agravada a pobreza das populações locais fruto da “chegada de deslocados oriundos de Cabo Delgado”, região que tem estado no epicentro da violência terrorista neste país lusófono.

As irmãs Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima têm testemunhado o sofrimento de quem chega à região de Lichinga, fugindo dos ataques, de quem lhes bate à porta de mãos completamente vazias provocando-lhes um sentimento de impotência difícil de explicar por palavras.

“A gente sente essa impotência quase todos os dias. Só não sinto quando não estou em casa ou quando estou de retiro, porque temos o portão fechado. Sente-se essa impotência, que é diária…”.

Face ao drama humano as próprias irmãs interrogam-se perante quem precisa de ajuda para sobreviver.

“Será que posso fazer mais alguma coisa? Eu não posso fazer, mas mais ninguém pode, e o que é que vai ser dessa pessoa, que vai ser dessa família? Esta é uma realidade de todos os dias. A gente passa por isso todos os dias”, lamenta.

Na cidade as religiosas realizam trabalho junto das populações com uma escola e um jardim-de-infância.

Além do trabalho com as crianças, há todo um conjunto de catividades que levam as irmãs ao encontro das pessoas na intimidade da pobreza em que vivem. E às vezes custa enfrentar essa realidade.

 “Uma coisa é ouvir [falar], outra coisa é ver que as pessoas passam dias sem comer… Mesmo o visitar alguém em casa, visitar um doente, dar a comunhão a um doente, é uma das coisas que me custa muito, porque a gente entra na casa da pessoa e vê que não há condições, que não há nada. E isso é a realidade do dia-a-dia. Sim, isso choca. Choca muito”, denuncia.

Educris|17.02.2022

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