«Pecámos contra a terra e contra os irmãos», Papa Francisco

Catequese desta quarta-feira assinalou o 50º Dia Mundial da Terra, que hoje acontece. Francisco alertou para o descalabro ecológico e levantou a voz em defesa dos mais frágeis

Leia, na íntegra e em português, a reflexão do Papa Francisco

Catequese por ocasião do 50º Dia Mundial da Terra

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje comemoramos o 50º Dia Mundial da Terra. É uma oportunidade de renovar o nosso compromisso de amar a nossa casa comum e cuidar dela e dos membros mais frágeis da nossa família. Como a trágica pandemia de coronavírus nos mostra, somente juntos e fazendo-se próximo dos mais frágeis podemos superar os desafios globais. A Carta Encíclica Laudato si’ tem este subtítulo: “sobre os cuidados da casa comum”. Hoje refletiremos todos juntos sobre esta responsabilidade que caracteriza “a nossa passagem nesta terra” (LS, 160). Devemos crescer na consciência do cuidado pela casa comum.

Somos feitos de matéria terrestre, e os frutos da terra sustentam as nossas vidas. Mas, como nos lembra o livro de Génesis, não somos simplesmente “terrestres”: também carregamos em nós o sopro vital que vem de Deus (cf. Gn 2, 4-7). Portanto, vivemos na casa comum como uma única família humana e em biodiversidade com as outras criaturas de Deus. Como imago Dei, imagem de Deus, somos chamados a cuidar e respeitar todas as criaturas e nutrir amor e compaixão pelos nossos irmãos e irmãs, especialmente os mais frágeis, imitando o amor de Deus por nós, manifestado no seu Filho Jesus, que se tornou homem para compartilhar esta situação connosco e nos salvar.

Por causa do egoísmo, falhámos na nossa responsabilidade de sermos guardiões e administradores da terra. «Basta olhar a realidade com sinceridade para ver que há uma grande deterioração da nossa casa comum» (ibid., 61). Poluímos, saqueamos, colocando em risco as nossas próprias vidas. Para isso, vários movimentos internacionais e locais foram formados para despertar consciências. Agradeço sinceramente estas iniciativas e continua a se ainda necessário que os nossos filhos saiam à rua para nos ensinar o que é óbvio, ou seja, não há futuro para nós se destruirmos o ambiente que nos apoia.

Falhámos em proteger a terra, a nossa casa-jardim, e no cuidado para com os irmãos. Pecámos contra a terra, contra o nosso próximo e, finalmente, contra o Criador, o bom Pai que provê a todos e quer que vivamos juntos em comunhão e prosperidade. E reage a Terra? Há um ditado espanhol que é muito claro nisto, e diz o seguinte: “Deus sempre perdoa; nós, homens, perdoamos algumas vezes; a terra nunca perdoa”. A terra não perdoa: se a deterioramos, a resposta será muito bruta.

Como podemos restaurar um relacionamento harmonioso com a terra e o resto da humanidade? Um relacionamento harmonioso … Muitas vezes perdemos a visão da harmonia: a harmonia é obra do Espírito Santo. Mesmo na casa comum, na terra, mesmo no nosso relacionamento com as pessoas, com o próximo, com os mais pobres, como podemos restaurar esta harmonia? Precisamos de uma nova maneira de olhar para a nossa casa comum. Lembrai-vos: não é um repositório de recursos a serem explorados. Para nós, crentes, o mundo natural é o “Evangelho da Criação”, que expressa o poder criativo de Deus em moldar a vida humana e em fazer o mundo existir juntamente com o que ele contém para apoiar a humanidade. O relato bíblico da criação termina assim: «Deus viu o que havia feito e eis que era uma coisa muito boa» (Gn 1, 31). Quando vemos estas tragédias naturais que são a resposta da Terra aos nossos maus-tratos, penso: “Se pergunto agora ao Senhor o que ele pensa sobre isto, não creio que me diga ser uma coisa muito boa”. Fomos nós que arruinamos a obra do Senhor!

Ao celebrar hoje o Dia Mundial da Terra, somos chamados a redescobrir o sentido do respeito sagrado pela terra, porque não é apenas o nosso lar, mas também o lar de Deus, e daí surge a consciência de estar numa terra sagrada!

Queridos irmãos e irmãs, «despertemos o sentido estético e contemplativo que Deus colocou em nós» (Exortação Apostólica postada em. Querida Amazónia, 56). A profecia da contemplação é algo que aprendemos, acima de tudo, com os povos indígenas, que nos ensinam que não podemos cuidar da Terra se não a amamos e não a respeitamos. Eles têm essa sabedoria de “bem viver”, não no sentido de se divertir, não: mas de viver em harmonia com a terra. Eles apelidam essa harmonia de “o bom viver”.

Ao mesmo tempo, precisamos de uma conversão ecológica expressa em ações concretas. Como uma família única e interdependente, precisamos de um plano compartilhado para afastar ameaças contra a nossa casa comum. “A interdependência obriga-nos a pensar num mundo, num projeto comum” (LS, 164). Estamos cientes da importância de colaborar como comunidade internacional para a proteção da nossa casa comum. Exorto aqueles com autoridade a liderar o processo que levará à realização de duas importantes conferências internacionais: COP15 sobre a Biodiversidade, em Kunming (China), e o COP26 sobre as Mudanças Climáticas, em Glasgow (Reino Unido). Estas duas reuniões são importantíssimas.

Gostaria de incentivar a organização de intervenções concertadas também ao nível nacional e local. É bom convergir, todos juntos, de todas as condições sociais e também dar vida a um movimento popular “a partir de baixo”. O mesmo Dia Mundial da Terra, que comemoramos hoje, nasceu assim. Cada um de nós pode dar a sua pequena contribuição: «Não devemos pensar que estes esforços não mudarão o mundo. Tais ações espalham um ativo na sociedade que produz sempre frutos além do que pode ser verificado, porque causam nesta terra um bem que sempre tende a espalhar-se, às vezes de forma invisível» (LS, 212).

Neste tempo pascal de renovamento, procuremos amar e apreciar o presente magnífico da terra, a nossa casa comum, e cuidar de todos os membros da família humana. Como irmãos e irmãs como somos, oremos juntos ao nosso Pai celestial: “Manda o teu Espirito e renova a face da terra” (cf. Sl 104, 30).

Tradução Educris a partir do original em italiano

22.04.2020

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