«Se não estivermos convencidos de que somos todos iguais, não vai ficar tudo bem», afirma o Papa (C\vídeo)

Na véspera do XXX Dia Mundial do Doente, que se assinala hoje, o Papa Francisco deu conta o trabalho da Igreja junto dos doentes, ao longo dos tempos, e criticou “outras patologias” de hoje que provocam “desigualdades” gritantes no acesso à saúde e nos cuidados

Leia, na íntegra, o texto da Videomensagem do Papa ao Webinar «Dia Mundial do Doente: Significado, Objetivos e Desafios»

 

Dirijo a minha saudação a todos vós que participais deste Webinar: “Dia Mundial do Doente: Significado, Objetivos e Desafios”, organizado pelo Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, por ocasião do XXX Dia Mundial do Doente. E o meu pensamento dirige-se com gratidão a todos aqueles que, na Igreja e na sociedade, estão amorosamente próximos de quem sofre.

A vivência da doença faz-nos sentir fragilizados, faz-nos sentir necessidade dos outros. Mas não só. «A doença obriga a questionar-se sobre o sentido da vida; uma pergunta que, na fé, se dirige a Deus. Nela, procura-se um significado novo e uma direção nova para a existência e, por vezes, pode não encontrar imediatamente uma resposta[1]».

São João Paulo II indicou, a partir da sua experiência pessoal, o sentido deste caminho de procura. Não se trata de se fechar sobre si mesmo, mas, pelo contrário, de se abrir a um amor maior: « Se um homem, se torna participante dos sofrimentos de Cristo, isso acontece porque Cristo abriu o seu sofrimento ao homem, porque Ele próprio, no seu sofrimento redentor, se tornou, num certo sentido, participante de todos os sofrimentos humanos. Ao descobrir, pela fé, o sofrimento redentor de Cristo, o homem descobre nele, ao mesmo tempo, os próprios sofrimentos, reencontra-os, mediante a fé, enriquecidos de um novo conteúdo e com um novo significado» (Carta Apostólica Salvifici Doloris, 11 de fevereiro de 1984, 20).

Não devemos esquecer nunca «a singularidade de cada paciente, com a sua dignidade e as suas fragilidades[2]». É a pessoa inteira que precisa de cuidados: o corpo, a mente, os afetos, a liberdade e a vontade, a vida espiritual… O cuidado não pode ser dissecado; porque o ser humano não pode ser dissecado. Poderíamos – paradoxalmente – salvar o corpo e perder a humanidade. Os santos que cuidaram dos doentes seguiram sempte os ensinamentos do Mestre: curar as feridas do corpo e da alma; orar e agir juntos pela cura física e espiritual.

Este tempo de pandemia tem-nos ensinado a olhar a doença como um fenómeno global e não apenas individual, e convida-nos a refletir sobre outros tipos de “patologias” que ameaçam a humanidade e o mundo. O individualismo e a indiferença ao próximo são formas de egoísmo que infelizmente se ampliam na sociedade do bem-estar consumista e do liberalismo económico; e as consequentes desigualdades também se encontram no campo da saúde, onde alguns gozam da chamada “excelência” e muitos outros têm dificuldade de acesso aos cuidados mais básicos. Para curar este “vírus” social, o antídoto é a cultura da fraternidade, fundada na consciência de que somos todos iguais como pessoas humanas, todos iguais, filhos de um só Pai (cf. Fratelli Tutti, 272). Com base nisto, será possível ter tratamentos eficazes para todos. Mas se não estivermos convencidos de que somos todos iguais, não vai ficar tudo bem.

Tendo sempre presente a parábola do Bom Samaritano (cf.ibid., Capítulo II), lembremo-nos de que não devemos ser cúmplices nem dos bandidos que roubam um homem e o deixam ferido na rua, nem dos dois funcionários do culto que o veem e passam adiante (cf. Lc 10, 30-32). A Igreja, seguindo Jesus, o Bom Samaritano da humanidade, sempre trabalhou em favor dos que sofrem, dedicando, em particular, grandes recursos pessoais e económicos aos doentes. Lembro-me dos dispensários e das instalações de saúde nos países em desenvolvimento; Penso nas muitas irmãs e irmãos missionários que gastaram a vida a cuidar dos doentes mais pobres; às vezes eles mesmos doentes entre os doentes. E penso nos numerosos santos que em todo o mundo iniciaram trabalhos de saúde, envolvendo companheiros e companheiras e assim dando origem a congregações religiosas. Esta vocação e missão para o cuidado humano integral deve também hoje renovar os carismas no campo da saúde, para que não falte proximidade com as pessoas que sofrem.

Dirijo um pensamento cheio de gratidão a todos aqueles que na vida e no trabalho estão todos os dias perto dos doentes. Aos familiares e amigos, que cuidam com carinho dos seus entes queridos e compartilham as suas alegrias e esperanças, dores e angústias. Aos médicos, enfermeiros e enfermeiras, farmacêuticos e todos os profissionais de saúde; assim como aos capelães dos hospitais, aos religiosos dos institutos dedicados ao cuidado dos doentes e muitos voluntários, e existem tantos voluntários. A todas estas pessoas asseguro o meu pensamento na oração, para que o Senhor lhes dê a capacidade de ouvir os doentes, de ter paciência com eles, de cuidar deles de forma integral, corpo, espírito e relações.

E rezo, de modo particular, por todos os doentes, em todos os cantos do mundo, especialmente por aqueles que estão mais sozinhos e não têm acesso aos serviços de saúde. Queridos irmãos e irmãs, confio-vos à proteção materna de Maria, Saúde dos enfermos. E a vós, e a quantos de vós tratam, envio cordialmente a minha Bênção.


[1] Mensagem para o XXIX Dia Mundial do Doente, 2020

[2] Mensagem para o XXXI Dia Mundial do Doente, 2022

Tradução Educris a partir do original em italiano

10.02.2022

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