Tráfico de Pessoas: «Precisamos manter viva a indignação», apela o Papa (C\vídeo)

Francisco afirmou que “reconhecer a dignidade de cada pessoa é o primeiro ato de cuidado”, e apelou à “indignação” perante a “arrogância da violência”

Leia, na íntegra, a mensagem do Santo Padre

Queridas irmãs e queridos irmãos!

Dirijo a minha saudação e o meu agradecimento aos organizadores do Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas, promovido pela União Internacional das Superioras Gerais e pela União dos Superiores Gerais. Um agradecimento especial ao grupo Talitha Kum que coordena a iniciativa em colaboração com muitas organizações locais e internacionais.

O tema deste ano é: «A força do cuidado. Mulheres, a economia e o tráfico de seres humanos». Somos convidados a considerar a condição de mulheres e meninas, submetidas a múltiplas formas de exploração, inclusive por meio de casamentos forçados, escravidão doméstica e laboral. Os milhares de mulheres e meninas traficadas todos os anos denunciam as consequências dramáticas dos modelos relacionais baseados na discriminação e submissão. E isso não é exagero: milhares!

A organização das sociedades à volta do mundo ainda está longe de refletir claramente o facto de que as mulheres têm exatamente a mesma dignidade e idênticos direitos que os homens. Infelizmente, nota-se que «as mulheres que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência, porque frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos» (Enc. Fratelli tutti, 23).

O tráfico de pessoas, através da exploração doméstica e sexual, devolve violentamente as mulheres e meninas ao seu suposto papel de subordinadas à prestação de serviços domésticos e sexuais, ao seu papel de provedoras de cuidados e doadoras de prazer, o que insiste num padrão de relações marcadas pelo poder do género masculino sobre o feminino. Ainda hoje, e a alto nível.

O tráfico de pessoas é violência! A violência sofrida por cada mulher e cada criança é uma ferida aberta no corpo de Cristo, no corpo de toda a humanidade, é uma ferida profunda que atinge também cada um de nós.

Há muitas mulheres que têm a coragem de se rebelar contra a violência. Nós, homens, também somos chamados a fazê-lo, a dizer não a toda violência, inclusive aquela perpetrada contra mulheres e meninas. E juntos podemos e devemos lutar para que os direitos humanos se expressem de forma específica, no respeito à diversidade e no reconhecimento da dignidade de cada pessoa, tendo no coração, de forma particular, aqueles que são prejudicados nos seus direitos fundamentais.

Santa Bakhita mostra-nos o caminho da transformação. A sua vida diz-nos que a mudança é possível quando nos deixamos transformar pelo cuidado que Deus tem por cada um de nós. É o cuidado de misericórdia, é o cuidado do amor que nos transforma profundamente e nos torna capazes de acolher os outros como irmãos e irmãs. Reconhecer a dignidade de cada pessoa é o primeiro ato de cuidado. É o primeiro ato de cuidado: reconhecer a dignidade! E cuidar é bom para todos, para quem dá e para quem recebe, porque não é uma ação de mão única, mas gera reciprocidade. Deus cuidou de Giuseppina Bakhita, acompanhou-a no processo de cura das feridas causadas pela escravidão, a ponto de tornar o seu coração, a sua mente e suas entranhas capazes de reconciliação, liberdade e ternura.

Encorajo todas as mulheres e todas as meninas que estão comprometidas com a transformação e o cuidado, na escola, na família, na sociedade. E encorajo cada homem e cada menino a não ficar de fora deste processo de transformação, lembrando o exemplo do Bom Samaritano: um homem que não tem vergonha de se curvar perante o seu irmão e cuidar dele. Cuidar é a ação de Deus na história, na nossa história pessoal e na nossa história comunitária. Deus cuidou e cuida de nós todo o tempo. Cuidar, juntos, homens e mulheres, é o apelo deste Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico: juntos podemos fazer crescer uma economia do cuidado e combater, com todas as nossas forças, todas as formas de exploração do tráfico de pessoas.

Queridas irmãs e queridos irmãos, sei que muitos de vós participais deste Dia de oração e reflexão, de vários países e de diferentes tradições religiosas. A todos expresso a minha gratidão e encorajamento: avancemos na luta contra o tráfico de pessoas e todas as formas de escravidão e exploração. Convido todos a manter viva a indignação – manter viva a indignação! – e todos os dias encontrar forças para se comprometer com determinação nesta frente. Não tenhais medo diante da arrogância da violência, não; não vos rendais à corrupção do dinheiro e do poder.

Obrigado a todos e continuem, não desanimem! Que Deus vos abençoe e ao voss trabalho. Obrigado!

Tradução Educris a partir do original em italiano

08.02.2022

Scroll to Top