Vila Real: «É essencial educar para o valor do Outro», D. António Augusto Azevedo

Iniciativa da «Famílias em Rede» apresentou caso real de violência sobre mulheres e propôs caminhos de esperança

Mais de sete dezenas de pessoas marcaram presença na iniciativa da paróquia de Murça que nesta sexta-feira refletiu “sobre o fenómeno da violência” em tempo de confinamento.

Numa sessão moderada pelo padre Sérgio Dinis, a iniciativa apresentou “um caso real” a partir do qual os participantes foram convidados a refletir sobre o “drama” da violência e do modo como “ela se vai apropriando da vítima tolhendo-lhe as reações e a capacidade de discernimento”, explicou o padre Sérgio Dinis.

Perante o exemplo apresentado ficou claro “que quando há violência física, ela é global porque se associa logo a questão psicológica, sexual e financeira”.

A “cultura de violência” onde muitas mulheres vivem ainda hoje “pode perpetuar a miséria e impossibilitam que as vítimas se encontrem consigo próprias” cortando o ciclo de violência na própria família, afirmou José Carlos Gomes da Costa, psicólogo clínico e Professor da Universidade de Trás os Montes e Alto Douro.

Presente na sessão o comandante Teodoro, da Guarda Nacional Republicana de Murça, deu conta de que hoje “ainda persistem culturas de violência em alguns locais mais recônditos”.

“Existe, ainda, a ideia de que ‘quem dá o pão dá educação’. Esta ideia faz com que, encoberta por uma certa lei natural, se estabeleça uma cultura de violência que se perpetua, mas que, felizmente, tende a desaparecer”, lamentou.

Prevenir, legislar, denunciar, acolher e acompanhar

O professor Emanuel deu conta de que à escola cabe, antes de mais, “proteger os «filhos destas situações” encaminhando os mais novos para os gabinetes de psicologia ao mesmo tempo de “sinalizam à Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e à Segurança Social a situação”.

Catarina Gouveia, advogada, traçou o quadro legal e histórico da “violência doméstica” que “hoje é um crime publico e que deve levar à ação todos os cidadãos”.

Em sentido oposto a jurista lamentou que o “bullying ainda não esteja regulamentado na lei portuguesa” e é da opinião “de que a lei deveria equiparar as duas formas de violência”.

Presente na sessão o padre Márcio Martins responsável pela Catequese de Vila Real considerou que “num caso como este a que foi apresentado” fica clara “a necessidade de olharmos para o modo como fazemos comunidade, a vários níveis, e fazermo-nos atentos às realidades pessoais. No caso da catequese mais do que grandes conteúdos é fazer caminho com aquela criança e adolescente, de modo a que se conheça a realidade e a ilumine a partir do encontro com Jesus Cristo”.

Igreja deve estar “atenta e atuante” despertando a sociedade “para o valor do Outro”

D. António Augusto Azevedo, Bispo de Vila Real considerou que “esta iniciativa de reunir famílias é uma excelente forma de utilizar este tempo de confinamento”.

Considerando o “tema difícil e muito atual” o prelado sustentou “que é importante perceber estes problemas na nossa região na nossa localidade”.

D. António Augusto Azevedo lembrou que “a Igreja tem, neste drama da violência, uma voz e, sobretudo, um papel de acompanhamento e de escuta daqueles que sofrem em silêncio e que precisam de ser ajudados na sua autoestima e na sua dignidade”.

As participantes o Bispo de Vila Real desafiou a “escutar cada caso”, a dar “maior atenção à prevenção logo a partir do namoro” pois, considerou, que “não bata criminalizar para o problema desaparecer”.

Enquadrando o problema da “violência doméstica” numa “cultura de violência generalizada na atualidade”, D. António Augusto Azevedo considerou ser necessário “uma análise séria perante os efeitos desta mesma violência em tantos videojogos, realidades virtuais e cyberbully” e o acompanhamento “de vítimas e agressores” para sanar as situações.

“Para os crentes é fundamental acolher e cuidar, e um desafio a educar para a cultura de valor do outro. Essencial para quem tem fé e valor ético para todos”, concluiu.

«Familias em Rede» com nova edição

O «Famílias em Rede» é uma iniciativa do grupo de pais da Catequese Familiar da Paróquia de Murça, na Diocese de Vila Real, e tem apresentado uma série de temas importantes para a família em tempo de confinamento.

No próximo dia 26 de fevereiro o «Famílias em Rede» vai abordar o tema «Cuidar dos Idosos».

Educris|13.02.2021

Scroll to Top