
Génesis 18,1-10; Salmo 15; Colossenses 1,24-28; Lucas 10,38-42
1. Imediatamente a seguir ao belo trabalho de amor do Bom Samaritano (Lucas 10,25-37), apresentado como figura do discípulo de Jesus, que imita Jesus, médico divino, cheio de misericórdia e de graça, e que distribui missões pelos seus discípulos: «Agora faz tu», que parte em viagem e que um dia voltará para fazer as contas («quando Eu voltar»), eis-nos a braços com outra cena de exceção do Evangelho de Lucas: Jesus, Marta e Maria (Lucas 10,38-42), que continua a expor diante de nós, neste Domingo XVI do Tempo Comum, traços salientes para continuarmos a compor a figura do discípulo de Jesus.
2. A primeira anotação do narrador é para nos comunicar que, estando Jesus em viagem, «entrou numa certa povoação», e uma mulher, de nome Marta, recebeu em sua casa (Lucas 10,38). Pode parecer estranho que Lucas não refira o nome da povoação. Estamos todos habituados a pensar que a povoação se chamava Betânia, aldeia de Marta, Maria e Lázaro. Lucas, porém, evita cuidadosamente referir os nomes das povoações por onde passa Jesus. Para Lucas, desde 9,51, Jesus vai decididamente a caminho de Jerusalém, e evita dizer os nomes de outras aldeias ou cidades, para que não se perca o único nome que lhe interessa referir. Depois deste introito, acrescenta logo Lucas que Marta tinha uma irmã, chamada Maria (Lucas 10,39), e começa de imediato a desenhar o retrato das duas irmãs.
3. De Maria, além de a apresentar como a «irmã», diz-nos que estava SENTADA aos pés de Jesus e que ESCUTAVA, num imperfeito de duração, a sua Palavra (Lucas 10,39). O leitor apercebe-se de imediato que Maria assume a figura de discípula atenta, dedicada e deliciada: SENTADA perto do Mestre, ESCUTAVA… Diga-se de passagem que, à época de Jesus, nenhum mestre hebreu teria aceitado que uma mulher assumisse em relação a si a postura de um discípulo! Mas Jesus é um Mestre novo e diferente, que salta não poucos muros tradicionais. Mas, de Maria, o narrador passa ao leitor, ainda outra nota carregada de subtileza e implicação. Sentada aos pés de Jesus, Maria é a figura do discípulo de Jesus. Mas o narrador acrescenta que Maria «escutava a sua Palavra». O mais lógico seria dizer que Maria «O escutava». Por que razão, então, o narrador diz como diz, que Maria escutava a sua Palavra? Trata-se de uma belíssima e intensa provocação para o discípulo de Jesus de todos os tempos, também, portanto, para nós, hoje. Sim, porque nós não podemos mais escutar o Jesus da história. Mas podemos continuar a escutar a sua Palavra! Eis a maravilha escondida nas dobras do texto!
4. O narrador usa outras tintas para pintar o retrato de Marta. Começa por nos dizer que andava OCUPADA (verbo grego perispáô, usado aqui no imperfeito de duração) com muito serviço (Lucas 10,40a). Na verdade, o verbo perispáô usado no imperfeito, para indicar continuação, além de OCUPADA também significa DISTRAÍDA. Sabemos isso bem. Quantas vezes as muitas ocupações significam também a queda no alçapão da DISTRAÇÃO! O narrador continua a pintar o retrato de Marta, e diz-nos: aproximando-se, porém, disse a Jesus com um certo ar de reprovação: «Senhor, a ti não te importa que a minha irmã me deixe sozinha a servir?» (Lucas 10,40b). E, sem esperar pela resposta, como quem está cheia de razão, acrescenta logo, como quem tem autoridade para dar ordens até a Jesus: «Diz-lhe, pois, que me venha ajudar!» (Lucas 10,40c). É aqui que intervém, não Jesus, mas o Senhor (ho kýrios), com a sua Palavra serena e soberana, para lhe dizer: «Marta, Marta, andas PREOCUPADA (verbo grego merimnáô) e ÀS VOLTAS (verbo grego thorybázô) com MUITAS COISAS (pollá), quando UMA SÓ (henós) é necessária» (Lucas 10,41-42). E conclui Jesus em jeito de chamamento e de provocação, para total espanto nosso e de Marta: «Maria ESCOLHEU (eklégomai) a parte BOA (tên agathên), que não lhe será tirada» (Lucas 10,42).
5. Importa que compreendamos mais a fundo este importante dizer de Jesus, o Senhor. Em primeiro lugar, a repetição do nome «Marta, Marta». No mundo do AT, só em quatro ocasiões alguém é chamado duas vezes pelo nome: Abraão (Génesis 22,11), Jacob (Génesis 46,2), Moisés (Êxodo 3,4) e Samuel (1 Samuel 3,10). Mas pode ver-se ainda no andamento do Evangelho de Lucas: «Jerusalém, Jerusalém» (Lucas 13,34), e «Simão, Simão» (Lucas 22,31). Trata-se, em todos os casos, de um chamamento, de uma vocação, e não de uma reprovação. O mesmo sucede aqui. Com a repetição do nome «Marta, Marta», o Senhor quer levar Marta a assumir outra postura. Em segundo lugar, a «preocupação» (hê mérimna) de Marta. Note-se que, na parábola da semente, esta linguagem traduz a postura daqueles que recebem a semente entre os espinhos, que são aqueles que andam sufocados pelas preocupações e pela riqueza e pelos prazeres da vida, impedindo assim a Palavra de Deus de crescer (Lucas 8,14). Em terceiro lugar, e em contraponto com as preocupações, que são os espinhos que sufocam a Palavra na parábola da semente, o adjetivo «boa» (agathê) reclama «a terra boa» (he kalê gê) que dava fruto, e que são aqueles que acolhem a Palavra no seu coração bom (he kardía kalê kaì agathê) (Lucas 8,15). Maria é mostrada como aquela que escolheu «a parte boa» (hê agathê méris) – não se deve traduzir por «melhor» –, reclamando «a terra boa» da parábola da semente, ficando Marta no meio das preocupações ou dos espinhos, que sufocam a Palavra. É, assim, fácil de ver que Marta é retratada em contraponto com Maria.
6. Importa também ver já, com clareza, que Maria não diz uma palavra em todo o episódio. Não se ouve a sua voz. Ela está tranquilamente SENTADA e totalmente concentrada na ESCUTA de outra VOZ, que não a sua. Maria é a mulher de UMA COISA e de UMA PESSOA. Por isso, na base da sua vida, tem de haver uma ESCOLHA. Nas páginas da Escritura Santa, é normalmente Deus o sujeito do verbo ESCOLHER. Quando também nós ousamos ESCOLHER, então já se percebe que deixamos muitos mundos para trás e que nasce em nós um mundo novo, por acostagem ao mundo de Deus.
7. Marta começa por receber Jesus na casa dela. É a senhora dona Marta. Olha de soslaio para a sua irmã Maria que acusa de não fazer nada, e repreende Jesus por não se importar com isso, e acaba mesmo dando ordens a Jesus, para que, por sua vez, dê ordens a Maria para a ir ajudar. É a senhora dona Marta. Manda, ou pensa que manda, em casa, na sua irmã e em Jesus!
8. A sua vida é uma azáfama, anda às voltas, ocupada por preocupações e preconceitos, descentrada e desconcentrada. O seu fazer é tradicional e convencional. Nunca ESCOLHEU. Apenas CONTINUOU a fazer o habitual. O narrador diz-nos que anda OCUPADÍSSIMA e DISTRAÍDA, e Jesus diz-lhe que anda PREOCUPADA (merimnáô) e ÀS VOLTAS (thorybázô)… Vocabulário importante. Um pouco adiante, Jesus adverte os seus discípulos para não se PREOCUPAREM (merimnáô) com a vida, quanto ao que hão de comer, nem com o corpo, quanto ao que hão de vestir (Lucas 12,22), e acrescenta logo que isso – afadigar-se com o que comer, beber e andar freneticamente, de lado para lado, como meteoritos (meteôrízô) – são coisas dos pagãos! (Lucas 12,30). E põe-nos diante dos olhos este tesouro evangélico e poético: «Considerai os lírios do campo, que não fiam nem tecem!…» (Lucas 12,27).
9. Ressalta deste finíssimo quadro que também o agitar-se por Deus ou pelo próximo pode ser coisa pagã. Não necessariamente por ser pagão o objeto da busca, mas por ser pagão o modo de procurar: com afã, inquietação, agitação! Na verdade, as «muitas coisas» podem viciar, não apenas a escuta, mas também o verdadeiro serviço. Fazer muito pode ser sinal de amor, mas pode também fazer morrer o amor! Ao hóspede é necessário oferecer companhia, não apenas coisas!
10. Ao contrário da senhora dona Marta, que nunca abriu mão da sua condição de dona, Maria percebeu bem que não é dona, mas simplesmente hóspede. Não da sua irmã Marta, mas de Jesus. Maria está, na verdade, hospedada em casa de Jesus. Por isso, está assim serena e tranquila. Entregou-lhe tudo: o coração, as mãos, os olhos, o cofre, a chave do cofre, a chave de casa. Marta não é apresentada como sendo má pessoa, mas não compreendeu que, quando Jesus entra em nossa casa, é dele a casa, e nós simplesmente seus hóspedes, tranquilamente sentados junto dele! Ai esta nossa entranhada tentação patronal!
11. Dizia um velho rabino acerca de um seu colega: «anda de tal modo ocupado com as COISAS de Deus, que até se esquece de que ELE existe!». Convenhamos que se trata de um esquecimento desastroso…
12. Veja-se bem a simplicidade, a prontidão e a candura desarmantes da lição do velho Abraão do Antigo Testamento de hoje (Génesis 18,1-10). Parece mesmo que Abraão já estava ali, à porta da tenda, à espera de alguém ou de Alguém! Depois de entrever Alguém ao longe, percorre aquela avenida num instante, e, como bom beduíno oriental, quase implora que não passem adiante sem descansar e retemperar as forças na sua tenda. Os viandantes aceitam. Abraão corre, apressa-se, e, no mesmo movimento de alegria, entram Sara, sua esposa, e o seu servo, escrupulosamente seguindo as diretrizes de Abraão. Mesmo quando os seus hóspedes estão recostados à mesa, isto é, à volta de uma pele de vaca sobre o chão à entrada da tenda, debaixo da árvore, estendida, Abraão permanece de pé, em atitude de disponibilidade e serviço. Abraão apresenta-se loquaz e atarefado, enquanto os seus hóspedes estão tranquilos e pronunciam frases curtas, antes da grande palavra de esperança, completamente inesperada, que abre novos horizontes para toda a humanidade! Abraão pede a Sara que prepare pães para os seus três convidados, e diz-lhe que vá buscar três medidas de farinha (qemah). À palavra «farinha», um redator posterior juntou outra palavra mais precisa, «flor de farinha» (solet). Trata-se de uma redundância. Uma das duas palavras hebraicas está a mais. A segunda palavra, solet, que aparece sobretudo nas leis cultuais (Êxodo 29,2.40), é seguramente secundária, mas pretende dizer que a farinha utilizada devia ser a que se utilizava no culto, querendo com este detalhe dizer que Deus se encontrava entre os três convidados! Com o acrescento redacional referido, o relato apresenta Abraão como um fiel cumpridor das leis cultuais pós exílicas, tornando-se assim, para os leitores dessa época, um modelo a imitar (cf. Génesis 18,19; 22,18; 26,5).Note-se ainda que as três medidas de farinha, de flor de farinha (Génesis 18,6) são, mais coisa menos coisa como 60 quilos de farinha, que Abraão manda Sara amassar e meter ao forno, e apontam já para a parábola do Evangelho (Mateus 13,33; Lucas 13,21), e, para além disso, dada a quantidade, para o banquete do Reino de Deus! Mas também aquele filho prometido (Génesis 18,10) aponta para o Filho que encherá as páginas do Novo Testamento e da nossa vida!
13. Na lição de hoje da Carta aos Colossenses 1,24-28, Paulo apresenta-se como «servidor» (diákonos) do Evangelho a toda a criatura (v. 23) e como «servidor» (diákonos) do corpo de Cristo, que é a Igreja (ekklêsía) (v. 24). Tudo isto, não por vontade do Apóstolo, mas segundo a «economia» (oikonomía) de Deus, dada a ele por Deus para proveito nosso para levar a cumprimento a Palavra de Deus (v. 25). A Deus aprouve dar-nos a conhecer (gnôrízô) o seu mistério (mystêrion). Portanto, o mistério bíblico não é o que não se sabe nem se pode saber; é, antes, aquilo ou Aquele que Deus nos dá a conhecer (v. 26-28). Mistério, portanto, prometido, anunciado, ensinado e conhecido! Para glória de Deus e nossa! Mas Paulo, o Apóstolo, ainda quer deixar diante de nós uma leitura nova do sofrimento, de que tanto fugimos e que a tanto custo suportamos. Diz o Apóstolo: «Alegro-me (chaírô) nos sofrimentos em vosso favor e completo o que falta nas tribulações de Cristo na minha carne em favor do seu corpo, que é a Igreja» (v. 24). Só o amor dá sentido à dor.
14. O Salmo 15 é uma «Liturgia de ingresso» no santuário, ou uma «Liturgia das portas». Constituía, na prática, uma espécie de liturgia penitencial ou exame de consciência feito à porta do Templo, para se aquilatar se a pessoa reúne condições para poder entrar no Templo. Quer isto dizer que, para alguém poder transpor o limiar do Templo, para poder ir à presença de Deus, tem de preencher uma série de requisitos morais e existenciais, e não apenas de pureza ritual, que nem sequer é falada no Salmo. Nas fachadas dos santuários do Egito e da Mesopotâmia estavam inscritas as condições requeridas para se aceder ao culto. Tratava-se, em quase todos os casos, de preceitos de natureza ritual ou exterior. Também o Talmude lembrava que «o homem não deve subir ao monte do Templo com sapatos ou bolsa ou com os pés cheios de pó; não deve reduzir os átrios do templo a entradas apressadas, e muito menos cuspir neles». Como se vê, o nosso Salmo não se entretém com ritualismos exteriores, mas requer comportamentos como o cumprimento de atos éticos e existenciais, que envolvam a justiça e a verdade, que evitem a calúnia e o insulto e a usura. Tenha-se presente que, no mundo oriental, o empréstimo interesseiro atingia, por vezes, níveis altíssimos. Por exemplo, na Mesopotâmia, as taxas de empréstimo chegaram a variar entre 17/% e 50%. O nosso Salmo apela à verdade e à generosidade.
António Couto

