São Gonçalinho, Aveiro 

Cavacas e Licor de Alguidar

O Beato Gonçalo de Amarante, da Ordem dos Frades Pregadores, é conhecido em Aveiro, na zona do bairro da Beira-Mar, como São Gonçalinho, diminutivo afetuoso que o aproxima das gentes vizinhas e dá nome à sua festividade, de cariz marcadamente popular que, ano após ano, atrai milhares de pessoas.

Gondisalvus de Amaranto é o nome em latim do Beato Gonçalo, O.P., que nasceu em Tagilde e faleceu em Amarante, a 10 de janeiro de 1259. A sua hagiografia não refere que tenha passado por Aveiro, mas a devoção não conhece mapas e as provas são remetidas para lugar secundário, porque terá sido a Fé dos pescadores da Beira-Mar, homens moldados no seu carater pela Ria e pelo mar, que o elegeu protetor das gentes, a que não devem ter estado incólumes os frades dominicanos, com forte implantação no Convento de Nossa Senhora da Misericórdia – atual Catedral de Aveiro – e no Mosteiro de Jesus, onde haveria de viver Santa Joana, que assim terão semeado o seu culto, que depressa criou raízes profundas ultrapassando os limites do bairro.

Com o transito dos séculos, São Gonçalinho ganhou contornos múltiplos entre os fiéis e no imaginário popular. É considerado como bom casamenteiro, amparo contra as doenças, sobretudo as que afetam os ossos, e é advogado de males do peito, verrugas, infertilidade e impotência. Sobre ele também recai, curiosamente, a fama de temperamento severo e “vingativo. Diz-se por Beira Mar que não perdoa se for desrespeitado ou se não lhe for cumprido o que lhe foi prometido. Diversas histórias desta natureza e de forte influência popular são contadas de boca em boca pelos vizinhos.

Datada de 1712, a sua Capela ergue-se discreta e sólida, marcada por influências maneiristas e barrocas. A sua planta hexagonal, de traço classicista, sustenta uma cúpula que se eleva acima do bairro. Referenciada em estudos e inventários patrimoniais, destacamos o nr.º 04 da Revista Invenire (2012). Mais do que objeto académico, é um coração onde o sagrado e o profano convivem sem conflito.

Nas últimas décadas a sua festividade tem tido vasta divulgação, sendo conhecida pelas suas peculiaridades, como a “Dança dos Mancos” e, acima de tudo, pelo lançamento de Cavacas.

Feitas com farinha, ovos e açúcar, entre outros ingredientes, assemelham-se a pães doces, mas duros e de forma côncava que são arremessadas do alto da capela como pagamento de promessas ou súplica por graças. Representam o pão que o Beato Gonçalo lançaria aos leprosos, desde lugar elevado, para evitar o contágio, o que lembra de imediato o tempo do Covid-19, gesto simples que o tempo metamorfoseou em milagre, proteção e cura.

Ajustando-se o calendário à volta do dia 10 de janeiro, em cada ano o Bairro de Beira-Mar transforma-se em festa popular. Um mar de gente ocupa o adro da capela, ondulante e expectante, atento ao som do pequeno sino que anuncia cada lançamento. As cavacas lançadas rasgam o ar em voos rasantes que surpreendem a mais temível das acrobacias e caem com grande velocidade, desafiando cabeças incautas, mãos hábeis, reflexos e engenho repentino.

Guarda-chuvas invertidos transformados em nassas improvisadas tornam-se instrumentos de captura, porque apanhar uma cavaca é sempre uma aventura e cada uma delas está carregada de significado. Promessa cumprida, para quem lançou, bênção recebida para quem apanha. Pode ser logo partida e partilhada ali mesmo, num gesto espontâneo de comunhão, ou pode ser colocada junto do altar, como agradecimento silencioso. Por tradição guarda-se uma em cada casa de um ano para o outro, como sinal de abundância e proteção do lar.

Finda a festa, outro momento se revela, a solene Entrega do Ramo, rito de passagem entre Mordomias. Partindo da Igreja da Vera Cruz, a Mordomia cessante leva ramos floridos à casa dos novos mordomos, que os guardarão como símbolo de responsabilidade, continuidade e devoção. A festa tem de continuar e como momento celebrativo, há brindes. Esses fazem-se com Licor de Alguidar, com o tradicional sabor a menta fresca, nas versões de mirtilo ou de laranja.

A festa de São Gonçalinho é um gesto repetido no tempo, um pacto silencioso entre Fé e devotos, que mantém viva a identidade do bairro da Beira-Mar e faz de Aveiro um lugar onde a Memória continua a cair do céu, sob a forma doce, dura e que lembra a obra de misericórdia milagrosa.

Eduardo Domingues
Coordenador da Comissão Diocesana para os Bens Culturais da Igreja de Aveiro

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Date
Jan 10 2027
Time
All Day
Location
Aveiro - Vera-Cruz - Santa Cruz e Nossa Senhora da Apresentação
Aveiro - Vera-Cruz - Santa Cruz e Nossa Senhora da Apresentação, Aveiro, Aveiro, Portugal

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