
Tradicional Romaria ao Senhor Jesus dos Milagres
A Romaria ao Senhor Jesus dos Milagres é uma das grandes peregrinações de fé do centro de Portugal, nascida do encontro entre o sofrimento humano e a misericórdia de Cristo. Todos os anos, milhares de fiéis e visitantes acorrem a Milagres para agradecer graças recebidas, pedir ajuda nas dificuldades e renovar a confiança naquele que é chamado simplesmente “o Senhor Jesus dos Milagres”.
A sua origem remonta ao século XVIII, quando as gentes das aldeias vizinhas se reuniam para honrar o Senhor Jesus, reconhecido como milagroso. Segundo a tradição, tudo ganhou novo impulso com a cura de Manuel Francisco Maio, um homem paralítico que se arrastava sobre uma prancha de cortiça: depois de invocar com fé o Senhor Jesus, adormeceu e, ao despertar, encontrou‑se curado. A partir deste acontecimento, multiplicaram‑se os relatos de graças e curas, a devoção alargou‑se e nasceu o desejo de construir um santuário digno de tão grande dom.
A construção do Santuário do Senhor Jesus dos Milagres iniciou‑se em 1732, sustentada por esmolas de devotos de muitas terras. Inspirado na arquitetura da Basílica de Mafra, o templo ergueu‑se como um sinal visível da fé do povo, que quis marcar na pedra o milagre que Deus tinha realizado entre eles. Ao longo dos séculos, o santuário foi enriquecido artisticamente e tornou‑se um importante centro de peregrinação, assumindo hoje um lugar singular como principal santuário cristológico da Diocese de Leiria‑Fátima.
A festa celebra‑se em torno do dia 14 de setembro, solenidade da Exaltação da Santa Cruz, e é tradicionalmente conhecida como “festa dos catorze”. Quando o dia 14 calha à segunda‑feira, é nessa data que se realiza o ponto alto; caso contrário, celebra‑se na segunda‑feira seguinte, prolongando ao longo de vários dias um programa de oração e festa que envolve toda a região.
Antigamente, destacavam‑se os círios, grandes romagens vindas sobretudo da faixa litoral entre Nazaré e Aveiro, que percorriam longas distâncias para cumprir promessas ao Senhor Jesus. Hoje, muitos desses peregrinos continuam a chegar, agora em excursões ou grupos organizados, mantendo viva a ligação histórica de tantas comunidades a este santuário.
A devoção expressa‑se através de gestos simples e profundos. Um dos mais característicos é o beijo nos pés da imagem do Senhor Jesus dos Milagres, gesto humilde de quem se põe aos pés de Cristo, reconhecendo n’Ele o Senhor da própria vida. Depois desse beijo, muitos colocam fitas de cetim junto da imagem, como sinal de promessas feitas, agradecimentos por curas de pessoas e animais, ou pedidos confiados à misericórdia de Deus. São ainda frequentes as velas e os ex‑votos de cera, expressão material de uma gratidão que nasce da experiência concreta de ser atendido.
A segunda‑feira da romaria é o grande dia. A Missa campal, celebrada no vasto adro do santuário, reúne uma multidão de peregrinos que escutam a Palavra, oferecem as suas intenções e participam na bênção dos doentes, muitos dos quais vêm de lares e centros de dia à procura de conforto espiritual, força interior e esperança. Segue‑se a procissão de andores e a procissão das ofertas das crianças e guiadeiras, momento de intensa beleza popular e fé partilhada, em que os mais pequenos também têm o seu lugar na peregrinação.
No coração de tudo está o próprio Senhor Jesus, presente neste santuário como rosto da compaixão de Deus pelos que sofrem. A Romaria ao Senhor Jesus dos Milagres é, por isso, muito mais do que uma tradição antiga: é uma celebração viva em que a devoção, a festa e a participação do povo se unem para dizer, ano após ano, que Deus continua a agir na história e que, em Milagres, muitos encontram consolo, perdão e força para recomeçar.










