É improvável que se retome o processo de canonização de Santa Joana

Entrevista Monsenhor João Gonçalves Gaspar, biógrafo e coleccionador de imagens e outros objectos da Santa de Aveiro, fala do processo de canonização. Primeiro não avançou por questões diplomáticas. Agora pouco traria de novo. Na imagem, segura a travesseira de Santa Joana. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – A propósito da beatificação de João Paulo II, tem-se falado muito dos processos de canonização e das suas etapas. Como está o processo de Santa Joana (1452-1490)?

JOÃO GONÇALVES GASPAR – Depois da beatificação, em 04 de Abril de 1693, certas dificuldades nas relações diplomáticas com a Santa Sé fizeram com que o processo não avançasse. O processo de canonização está meio feito, está no arquivo do Vaticano e é conhecido. Um dos principais testemunhos foi o do doutor Brás Luís de Abreu, médico e sacerdote, ordenado em 1732. Este médico e padre teve uma vida interessante, para não dizer esquisita, de tal forma que Camilo Castelo Branco escreveu um romance histórico sobre ele, chamado “Olho de vidro”. Este homem interveio no processo para analisar os restos mortais de Santa Joana. Há diversos testemunhos, entre eles o da sua filha (antes de se ordenar viveu casado quinze anos), Sebastiana, que conta um caso maravilhoso, para não dizer milagroso.

Há alguma possibilidade de se retomar o processo?

O processo foi suspenso por falta de interesse da parte de Portugal, sobretudo da ordem dominicana. Segundo foi dito a D. Manuel de Almeida Trindade e a mim, quando fomos à Congregação da Causa dos Santos (no Vaticano), em qualquer momento o processo poderá ser retomado. Falta a verificação de um milagre depois da beatificação.

Mas será viável retomá-lo?

Para mim, desentusiasmou-me ouvir um responsável do Vaticano dizer em espanhol que “vocês em Aveiro não se interessem por isso”. Sendo ele dominicano, afirmou – isto foi em 1978 ou 79 – que “nós é que temos interesse nisso”.

Mudaria algo, se fosse canonizada?

Não. Em 1965, Santa Joana foi proclamada por Paulo VI, ultrapassando todas as alíneas do direito canónico, padroeira única da cidade e da diocese de Aveiro. Apesar de ser apenas beata, o seu nome pode ser dito na liturgia como o dos santos canonizados. Pode haver associações, paróquias e templos em seu nome – o que até aí não era possível. Daí o seminário de Aveiro ter o seu nome, mas estar dedicado ao Sagrado Coração de Jesus.

É porque a declaração de santa não traria nada de novo para Aveiro que não há interesse?

Há interesse. Não há comissão nem fundos para promover a causa. Mas há interesse. D. Domingos ainda nomeou uma comissão que não chegou a trabalhar porque entretanto o bispo faleceu. D. Manuel de Almeida Trindade, vendo as dificuldades do processo, pediu ao Papa Paulo VI, que imediatamente a proclamou padroeira, dada a devoção popular. Ela tem todos os “direitos” de um santo canonizado.

O Monsenhor, além de ter escrito diversas obras sobre Santa Joana, é um coleccionador de objectos relativos à princesa…

Sim, o mais precioso recebi-o há dois anos: a almofada em que Santa Joana reclinou a cabeça antes de morrer. Deram-ma as dominicanas. Tive a oportunidade de consultar uma especialista em panejamentos antigos que me confirmou que o tecido é do séc. XV. Na Casa Episcopal temos também a chave da urna de Santa Joana. Foi dada a D. João Evangelista em 1909, a quando da ordenação de Bispo.

Além dessas relíquias, que outros objectos há sobre Santa Joana, numa cidade em que há uma livraria, uma funerária, uma escola de condução, freguesia…

Há muitas pinturas e escritos sobre Santa Joana. A primeira biografia em língua portuguesa surgiu em 1585. Passados dez anos, saiu outra em espanhol. De antes da beatificação conhecem-se três pinturas no Museu de Aveiro, além da mais famosa, feita durante a vida da princesa, atribuída à escola de Nuno Gonçalves. Depois da beatificação há muitas mais. Há três em Roma, uma na Sicília, num hotel que fora convento dominicano, na Holanda, no Brasil, onde há uma paróquia de Santa Joana…

O quadro de Nuno Gonçalves ou da sua escola, quanto a mim, até me provarem o contrário, foi feito para percorrer a Europa, porque Afonso V tinha interesse em casar a sua filha. Não sei se ele saiu alguma vez de Portugal, mas diz-se que o imperador da Alemanha caiu de joelhos, quando viu… Como veio parar a Aveiro? Ou ela a trouxe, ou a sua tia, D. Filipa.

Há alguma imagem que aprecie especialmente?

Há uma no convento Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, muito curiosa. Toda a gente pinta Joana com o hábito completo: túnica branca, capa preta e véu preto. Mas ela não andava assim porque não chegou a fazer os votos perpétuos. Era “freira sem profissão”, como diz Fr. Luís de Sousa. Usou sempre o véu de noviça.

Gosto muito da estátua de Hélder Bandarra, frente ao Museu. Mostra uma presença monumental e solene, uma mulher de vontade firme, determinada, com um pé a sair do pedestal. Se tivesse o pé um pouco mais à frente, caía da estátua…

Que outros objectos há sobre santa Joana?

Selos, chocolates, painéis de moliceiro, estatuetas… Tenho umas 25 estatuetas de Santa Joana, desde a da Vista Alegre à de qualquer ateliê que, ao vir para uma feira de Aveiro, traz sempre uma imagem da princesa. E já há estatuetas feitas na China.

Gostou da exposição de pinturas modernas de Santa Joana, no Museu de Aveiro (ver CV de 13 de Abril; pode ser vista até hoje)?

Fiquei surpreendido. De uma ou outra não gosto. Os autores lá saberão explicar. Mas foi uma ideia muito boa de Paulo Catarino. Algumas das pinturas são excepcionais.

Celebração da Padroeira da Cidade e da Diocese

12 de Maio de 2011

* Pelas 09h30, realiza-se a investidura dos novos irmãos da Irmandade de Santa Joana, na igreja de Jesus (junto do túmulo), por D. António Francisco dos Santos.

* Na Sé, com início às 10h30, o Sr. Bispo preside à concelebração da Eucaristia festiva. Durante a celebração será benzida a primeira pedra da Casa Sacerdotal de Aveiro. O programa da manhã termina, como é costume, com uma prece à Padroeira junto do seu mausoléu, no Museu de Aveiro.

* À tarde, a partir das 16h00, a procissão sairá da praça fronteira ao Museu de Aveiro, percorrendo algumas ruas de Aveiro; nela participarão as autoridades civis, académicas e militares, além das confrarias e associações, mesmo de outras paróquias do concelho de Aveiro.