Participaram representantes do KAB da Alemanha; da ACO e da HOAC de Espanha; da KAP da República Checa; da BASE – Fut; do CIFOTIE; da LOC/MTC, do MAAC, da JOC, da Pastoral Operária, de Portugal e do MTCE e do EZA, da Europa.

Na sessão de abertura, presidida por D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga, foram destacados os objetivos deste evento. José Paixão, coordenador nacional da LOC/MTC, salientou a urgência de respostas que contrariem a desvalorização do trabalho humano e que o diálogo social é importante e deve contribuir para priorizar o trabalho e a dignidade dos trabalhadores. D. Jorge Ortiga, na sua mensagem aos presentes, afirmou que o trabalho humano é um direito de todos que tem que estar acompanhado também pela qualidade. Esta qualidade advém do trabalho e tem que estar ligada à dignidade. Na vida dos trabalhadores e das suas famílias, o trabalho, tem de permitir uma vida com dignidade, sendo imprescindíveis também os tempos para a formação, a cultura e o descanso. E desafiou a LOC/MTC a continuar a agir no mundo do trabalho, interpretando e vivendo aí o Evangelho.

A primeira conferência deste seminário, teve como orador José Castro Caldas, Economista e investigador do CES da U. Coimbra, que abordou o futuro do trabalho e do emprego à luz da controvérsia do passado. Começando com uma retrospetiva sobre as diferentes revoluções industriais, referiu que as crises do trabalho têm coincidido com as crises financeiras. E que, nestas crises, a destruição do emprego é-nos apresentada quase sempre de forma apocalíptica. E é essa versão, sobre as consequências que as mudanças tecnológicas vão provocar nos empregos e no trabalho humano, que atualmente, nos querem forçar a acreditar. Disse ainda que ao longo do século XX as tecnologias já tinham originado o desaparecimento de muitas profissões, que entretanto foram substituídas por outras novas profissões que se criaram. E afirmou que este tempo pode servir também para pensar melhor o trabalho, deixando de o ver apenas como dor e obtenção de rendimento, e que a redução do tempo de trabalho, pode proporcionar uma vida mais digna e libertadora.

Na segunda conferência, Wilfried Wienen, responsável do secretariado europeu do KAB nacional da Alemanha abordou a indústria 4.0 e a ameaça de não haver trabalho. Destacando o trabalho humano e o que ele representa na vida das pessoas e das sociedades, analisou-o também numa perspetiva do diálogo e coesão sociais e do desenvolvimento social na Europa. Falou da indústria 4.0, como modelo crescente em todo mundo. A nossa vida é, na atualidade, muito controlada através da internet. Alertou que devemos estar muito atentos e ativos sobre o que deve ser feito com esses dados pessoais, que diariamente são processados pelos servidores da internet. Devemos estar informados sobre as regras existentes e exigir que elas sejam claras e seguras e que salvaguardem a privacidade das pessoas e a sua dignidade humana, tendo consciência que a indústria 4.0 é também a revolução do sistema capitalista para o capitalismo digital.

Na terceira conferência, Brandão Guedes, técnico superior da ACT (recentemente aposentado) e animador social e cooperativo, desenvolveu uma reflexão sobre a economia digital, valorizar o trabalho e os trabalhadores. Afirmou que o trabalho não pode ser um parêntese na nossa vida. Que devemos estar muito vigilantes ao controlo e avaliação das performances dos trabalhadores e da forma como estes são substituídos pelas máquinas ou robots. Falou-nos da capacidade de concentração e de lobbing das grandes plataformas digitais que foram criadas nestes últimos tempos e que só discutem as regras e a regulamentação quando as plataformas já estão ativas. Com esta tática, conseguem que se regulamente o menos possível, podendo crescer com trabalho precário e de baixos salários, oferecendo produtos baratos aos clientes. Concluiu apresentando dois possíveis caminhos: O da inclusão e coesão, onde a economia digital e a evolução tecnológica resulta em maior igualdade social, regional e de género, com o devido controlo democrático da tecnologia. A evolução tecnológica e os seus ganhos devem estar aos serviços das pessoas, com grande preocupação de que ninguém fique para trás. Se não for desta forma o segundo caminho, o da marginalização e desigualdade, levará ao crescimento das desigualdades e à concentração das riquezas e excluirá milhões de pessoas e o modelo social de proteção desaparece. Neste processo de opções as organizações de trabalhadores continuam a ser um instrumento fundamental para a defesa do trabalho com direitos e para a dignificação dos trabalhadores. A promoção da dignidade dos trabalhadores deve continuar a ser o “coração” da nossa missão, e os mais vulneráveis e marginalizados nesta evolução devem ser a nossa prioridade.

Na quarta conferência, Charo Castello, psicóloga e educadora sócio laboral, membro da HOAC de Espanha, procurou responder à questão de como fomentar na Europa, o Trabalho Digno para todos. E garantiu que o trabalho digno é um direito que dignifica, realiza e promove cada ser humano, transformando-o num agente mais feliz e de esperança. É muito importante que se viva com esperança e com a capacidade de sonhar. Por isso não podemos renunciar nunca à esperança de ter um trabalho digno. Porque com esta luta pelo trabalho digno estamos a trabalhar pela dignidade humana. A solidariedade é parte da fraternidade e significa dar aos outros do que é meu. Devemos lutar pela justiça, e ser solidários mesmo nos níveis mais básicos da sociedade. Temos que dar testemunho. Devemos centrar-nos na questão da reforma laboral. Dar visibilidade a todas as experiencias de comunhão, para que todas as pessoas vejam o quanto é importante o que fazemos. A pobreza não é um tema de caridade, é uma questão de falta de emprego. O trabalho digno é uma prioridade fundamental. A Igreja (Bispos, padres e leigos), tem de assumir esta prioridade como uma missão, como uma tarefa premente da evangelização. E é necessário colocá-la também nas agendas políticas, económicas, sociais e empresariais, como principal meio de combate à pobreza, à exclusão, ao descarte.

Numa mesa redonda, foram ainda abordadas as formas como os trabalhadores estão a encarar as mudanças no trabalho e as novas formas como ele é apresentado. Esta sessão contou com as intervenções de Maria Martínez da ACO de Espanha, Ralf Linnartz do KAB-Alemanha, Lidmila Nemcova do KAP da República Checa, José Maria Carneiro Costa da LOC/MTC de Portugal e teve como moderador Pedro Estêvão que é atualmente coordenador de alguns de projetos do EZA, como é o caso deste Seminário da LOC/MTC. Cada um, de forma sintética, partilhou realidades dos seus países, onde o individualismo alastra e o futuro não se encara com confiança. Como apelos das suas intervenções salientamos; a prática da cidadania ativa; não há tempo para o alheamento porque quando isso acontece, outros ocupam o espaço político e económico, desvirtuando a aplicação das tecnologias, colocando-as ao serviço do lucro de poucos, enquanto o ser humano é esquecido, espezinhado e descartado; devemos exigir que a política não se deixe acorrentar pela «economia que mata» e seja capaz de regular, com bom senso e honestidade, as novas formas do trabalho digital e tecnológico. Desta forma apela-se a que cada trabalhador e trabalhadora se sinta cada vez mais responsável por cuidar dos mais frágeis; ao cuidar do outro, cuidamos de nós e sentimo-nos felizes.

Os participantes deste seminário, em três grupos, visitaram a União dos Sindicatos de Braga, O jornal Diário do Minho e a empresa de construção Casais, onde puderam conversar sobre como é que cada uma destas instituições está atenta às mudanças digitais no mundo do trabalho. Os resultados de cada visita foram apresentados no final ao conjunto dos participantes.

Cabe-nos a todos a tarefa de defender e vivenciar a cultura dos valores da solidariedade, de carinho, dos laços sociais, da responsabilidade cívica e do trabalho digno. A memória histórica das lutas e das conquistas dos que nos precederam provam-nos de que os sonhos e utopias são sempre os motores fundamentais que animam as mudanças e fortalecem a nossa Esperança.

Pela parte que nos toca queremos combater a noção de impotência, sofrendo com os que sofrem e dinamizar novos grupos portadores de  confiança no hoje e no futuro.

A Equipa Executiva Nacional da LOC/MTC