
Mensagem da Rev.Ma Ir. Alessandra Smerilli, F.M.A. Prefeita do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, por ocasião do Dia Mundial da Saúde Mental
10 de outubro de 2026
Nenhuma ferida psicológica poderá jamais apagar a dignidade da pessoa humana. Estas são as primeiras palavras que o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral deseja pronunciar por ocasião do Dia Mundial da Saúde Mental de 2026. Como recorda o Papa Leão XIV na Dilexi Te, Cristo, “através do seu amor doado até ao fim, mostra a dignidade de cada ser humano, sobretudo quando é ‘mais fraco, mísero e sofredor’”.[1]’”
O cuidado com a saúde mental faz parte do desenvolvimento humano integral, voltado para o bem de cada pessoa e da pessoa toda[2]. Na Gaudium et Spes, o Concílio Vaticano II ensina que o desenvolvimento deve estar a serviço da pessoa em sua integralidade, levando em consideração não apenas as necessidades materiais, mas também as exigências da vida intelectual, moral, espiritual e religiosa[3] . Um desenvolvimento que ignore a mente e o coração não é um desenvolvimento integral.
O Papa Leão XIV identificou com clareza o problema. Em Barcelona, disse aos jovens que a saúde mental “está cada vez mais ameaçada no contexto de sociedades que se consideram avançadas”, sinal de que “há algo profundamente errado em uma determinada ideia de crescimento”.[4] Em todo o mundo, inclusive nas regiões consideradas “avançadas”, uma visão limitada do progresso frequentemente tornou as pessoas alheias e até mesmo indiferentes ao bem-estar mental dos outros.
Hoje, as feridas interiores, emocionais e relacionais representam uma das dimensões mais profundas do sofrimento humano. As paróquias, as escolas, as comunidades religiosas e as pequenas comunidades eclesiais são frequentemente os lugares aos quais as pessoas levam o próprio sofrimento e onde procuram uma escuta atenta, acompanhamento e apoio nos momentos de vulnerabilidade psicológica. Consequentemente, em muitas Igrejas locais, a saúde mental está emergindo como um dos desafios pastorais mais urgentes.
Duas situações requerem atenção especial. A primeira diz respeito às pessoas que vivem crises humanitárias — guerras, migrações forçadas, instabilidade política, desastres ambientais e pobreza estrutural —, que deixam traumas profundos nos indivíduos e nas comunidades. A segunda diz respeito aos jovens, que enfrentam novas formas de vulnerabilidade emocional relacionadas à pressão social, à incerteza econômica e ao isolamento. As situações são diferentes, mas a raiz é a mesma: uma pessoa torna-se vulnerável quando lhe faltam segurança, relações, sentido e esperança.
A todos aqueles que sofrem, a Igreja diz: vocês não estão sozinhos e Deus não os abandonou. Em Barcelona, depois de ouvir uma jovem falar sobre sua depressão, o Santo Padre recordou Jó: quando Deus parece ausente, podemos confiar a Ele os nossos fardos, “chegando mesmo a gritar por Ele ou a protestar como Job, certos de que, de alguma forma, Ele se faz presente e está perto, mesmo quando aparentemente não fala [5].”
Entre os pacientes de um hospital psiquiátrico em Malabo, disse simplesmente: “Deus nos ama como somos. […] Deus quer nos curar[6]”. Na hora de sua angústia, Cristo assumiu em sua própria carne toda a angústia da humanidade[7]. A fé não substitui o cuidado, mas o acompanha e lhe dá esperança.
Ninguém se cura sozinho. “Não podemos fazê-lo sozinhos”, disse o Papa aos jovens de Barcelona; precisamos de alguém “que nos acompanhe com discrição, sem a pressa de nos explicar aquela dor”. Isso está em sintonia com o tema do Dia Mundial da Saúde Mental deste ano: “Ouvir as experiências vividas: vozes reais, mudança real”. A cura muitas vezes começa no momento em que uma pessoa se sente verdadeiramente ouvida.
A escuta deve traduzir-se em ação. A Igreja não pode limitar-se a respostas ocasionais ou reativas. Como cristãos, somos chamados a desenvolver um ministério estável, competente, compassivo e preventivo, que acolha a pessoa em sua totalidade: corpo, mente e espírito. Isso requer agentes pastorais preparados, colaboração com profissionais da saúde, fluxos de encaminhamento claros, atenção à prevenção do suicídio, apoio às famílias e cuidado com os jovens. O Dicastério convida, além disso, todas as pessoas de boa vontade a se comprometerem de maneira significativa com aqueles que enfrentam dificuldades relacionadas à saúde mental e a colaborarem com a Igreja e outras instituições na definição de políticas, serviços e soluções.
Aqueles que vivem um sofrimento mental não são apenas destinatários de cuidados, mas protagonistas do caminho a ser percorrido, e suas vozes devem contribuir para moldar as respostas. Cuidar deles não é uma questão marginal, mas parte integrante do coração da missão da Igreja.
Confiemo-nos a Maria, Salus Infirmorum, para que cada pessoa possa redescobrir, mesmo nas provações mais difíceis, a alegria de sentir-se amada, reconhecida e acompanhada em seu caminho humano e espiritual.
Ir. Alessandra Smerilli, F.M.A.
[1] Leão XIV, Exortação Apostólica Dilexi Te (4 de outubro de 2025), n. 2.
Dilexi Te – Vaticano
[2] Cf. Paulo VI, Carta Encíclica Populorum Progressio (26 de março de 1967), n. 14.
[3] Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes (7 de dezembro de 1965), n. 64.
[4] Leão XIV, Viagem Apostólica à Espanha, Vigília de Oração no Estádio Olímpico “Lluís Companys”, Barcelona (9 de junho de 2026), n. 2. [https://www.vatican.va/content/leo-xiv/en/speeches/2026/giugno/documents/20260609-spagna-veglia.html
[5] Leão XIV, Vigília de Oração, Barcelona, n. 2.
[6] Leão XIV, Visita aos profissionais e pacientes do Hospital Psiquiátrico “Jean Pierre Olie”, Malabo (21 de abril de 2026). [https://www.vatican.va/content/leo-xiv/en/speeches/2026/april/documents/20260421-guinea-eq-ospedale.html]
[7] Cf. Leão XIV, Vigília de Oração, Barcelona, n. 2.
