Carta de amigo muçulmano ao sacerdote caldeu assassinado no Iraque

Carta de Adnan Mokrani, muçulmano, professor de Islamismo da Universidade Gregoriana de Roma, ao Pe. Ragheed Aziz Ganni, sacerdote caldeu assassinado no dia 3 de Junho com três subdiáconos.

ADNAN MOKRANI

Em nome de Deus, clemente e misericordioso, Ragheed, meu irmão:

Eu te peço perdão, irmão, por não ter estado ao teu lado quando os criminosos abriram fogo contra ti e teus irmãos, mas as balas que trespassaram o teu corpo puro e inocente trespassaram-me também o coração e a alma.

Foste uma das primeiras pessoas que eu conheci ao chegar a Roma, nos passeios do Angelicum [Universidade Pontifícia de São Tomás], onde nos conhecemos e onde bebíamos os dois o nosso “capuccino” no café da universidade. Tu tinhas-me impressionado pela tua inocência, alegria, sorriso terno e puro que não te abandonava nunca. Eu não posso deixar de te imaginar a sorrir, feliz, cheio de alegria de viver. Ragheed, para mim, és a inocência feita pessoa, uma inocência sábia, que leva no seu coração as preocupações do seu povo infeliz. Recordo que um dia, no restaurante da universidade, quando o Iraque estava sob embargo, tu me disseste que o preço de um só “capuccino” teria podido sanar as necessidades de uma família iraquiana durante todo um dia, como se te sentisses de algum modo culpado por estares distante do teu povo assediado e de não compartilhares os seus sofrimentos…

Depois voltaste ao Iraque, não só para compartilhar com as pessoas o seu destino de sofrimentos, mas também para unir o teu sangue ao de milhares de iraquianos que morrem em cada dia. Não poderei nunca esquecer o dia da tua ordenação na Universidade Urbaniana… Com lágrimas nos olhos, disseste-me: “Hoje morri para mim”… uma frase muito dura.

Na altura, não a compreendi bem, ou talvez não a levasse a sério como deveria… Mas hoje, através de teu martírio, compreendi esta frase… Tu morreste na tua alma e no teu corpo para ressuscitar no teu bem-amado e mestre, e para que Cristo ressuscite em ti, apesar dos sofrimentos e das tristezas, apesar do caos e da loucura.

Em nome de que deus da morte te mataram? Em nome de que paganismo te crucificaram? Sabiam verdadeiramente o que faziam?

Ó Deus, nós não vos pedimos vingança ou represália, mas vitória… vitória do justo sobre o falso, da vida sobre a morte, da inocência sobre a perfídia, do sangue sobre a espada… O teu sangue não terá sido derramado em vão, querido Ragheed, porque santificaste a terra do teu país… e teu sorriso terno continuará a iluminar desde o céu as trevas das nossas noites e anunciando-nos um amanhã melhor.

Eu te peço perdão, irmão, mas quando os vivos se encontram, crêem que têm todo o tempo para conversar, visitar-se e comunicar os sen-timentos próprios e os pensamentos… Tinhas-me convidado para ir ao Iraque… Eu sonhava sempre com isso… visitar a tua casa, os teus pais, o teu escritório… Nunca teria pensado que seria o teu túmulo o que um dia visitaria ou que teriam sido os versículos de meu Corão os que recitaria para o repouso de tua alma…

Um dia, acompanhei-te a comprar lembranças e presentes para a tua família nas vésperas de tua primeira visita ao Iraque, após uma longa ausência. Tinhas-me falado do teu trabalho futuro: “Queria reinar sobre as pessoas antes na base da caridade do que da justiça”. Então era-me difícil imaginar-te como “juiz” canónico… Mas hoje o teu sangue e o teu martírio pronunciaram sua palavra, veredicto de fidelidade e de paciência, de esperança contra todo o sofrimento e de sobrevivência, apesar da morte, apesar do nada.

Irmão, o teu sangue não foi derramado em vão… e o altar da tua igreja não era uma farsa… Tu assumiste o teu papel com profunda seriedade, até ao fim, com um sorriso que nada poderá apagar… nunca.

Teu irmão que te ama,

Adnan Mokrani

Roma, 4 de Junho de 2007

Tradução: Zenit. Adaptação: CV

Pe. Ragheed Aziz Ganni e os diáconos Basman Yousef Daoud, Ghasan Bidawid e Wadid Hanna foram assassinados no dia 3 de Junho, perto da Igreja do Espírito Santo, em Mossul (Iraque). O sacerdote, de 34 anos, tinha acabado de presidir à Eucaristia.

O padre e os três diáconos da comunidade católica caldeia (uma das mais antigas do mundo, com ritos em aramaico) foram vítimas do disparo de armas automáticas. Algum tempo depois dos factos, “os corpos ainda estavam nas ruas, porque ninguém ousava recuperá-los, devido ao clima de tensão” que os extremistas islâmicos fomentam, refere a agência ÁsiaNews.