A Igreja começa e organiza-se inicialmente na cidade. Depois, parte para os campos por necessidade de fazer o anúncio do Evangelho e atender os cristãos, entretanto convertidos e agregados em aldeamentos. O clero, que assistia o bispo e cumpria as funções que lhe eram atribuídas no conjunto urbano, desloca-se periodicamente a estes aldeamentos até neles fixar residência.
Nascem as paróquias, que se vão configurando de diversos modos ao longo dos séculos, mas evidenciando sempre três constantes: um povo inserido num meio, um padre com funções de “pároco” atribuídas pelo bispo diocesano, um templo onde se reúne a assembleia aos domingos e festas ou em outros momentos marcantes da vida das pessoas e das populações. São comunidades da Igreja Episcopal espalhadas pelo território, vivendo, normalmente, em harmonia e entreajuda, professando a mesma fé e observando a mesma disciplina. As comunidades paroquiais, por meio do Bispo e da fidelidade à mensagem legada pelos Apóstolos e seus sucessores (Tradição viva), mantêm os laços de união com a Igreja de Roma presidida pelo Papa, sucessor do São Pedro.
A relação destes elementos nem sempre é linear, havendo acentuações históricas relevantes. O Vaticano II, apesar das suas inevitáveis limitações, repõe o equilíbrio e redefine o estatuto teológico da Igreja comunhão no seu conjunto e em cada uma das suas comunidades. Assim, a Igreja de Jesus Cristo, que é una, santa, católica e apostólica, realiza-se localmente em cada diocese e expressa-se a partir de cada diocese, configurando-se como comunhão entre todas as Igrejas diocesanas. No seio destas Igrejas e como realização da sua missão, são constituídas as paróquias e eventualmente outras formas comunitárias, os institutos de vida consagrada e as associações de fiéis leigos, designadamente os movimentos apostólicos.
A paróquia é, por natureza, comunidade em trânsito, que, eventualmente, fixa residência entre a população, é comunidade que habita um território, é comunidade que man-tém vivo o sonho do futuro a que aspira. Por isso, nasce da missão e vive para missionar ou evangelizar; está inserida num contexto sócio-cultural e pretende encontrar, com outras organizações humanitárias, respostas adequadas aos desafios emergentes; assume as características do peregrino que, sendo realista, demanda o futuro dos seus sonhos, realizando gradualmente os projectos viáveis da sua caminhada.
Nascida da missão, a paróquia anuncia e celebra a fé católica em toda a sua acção pastoral: despertar religioso e iniciação cristã, catequeses de aprofundamento em todas as modalidades e para todas as idades, liturgias sacramentais ou outras, construção e conservação de edifícios, obras de misericórdia adequadas às novas situações humanas vividas na sociedade, especialmente as que visam a libertação da miséria e da exclusão em qualquer recanto do mundo.
A fé católica constitui, a seu nível, a expressão mais qualificada da globalização da solidariedade, da interdependência das pessoas e dos povos, da caridade que a todos irmana e congrega na família dos filhos de Deus. Fé que não se abra à missão sem fronteiras, não é fé católica autêntica. Fé que não se enraíze nas realidades temporais e tente revelar o sentido escondido em cada uma, não é fé católica autêntica. Fé que se limite a uma fase da vida e não envolva definitivamente a vida inteira, não é fé católica autêntica. Estes elementos podem constituir a “prova de fogo” da catolicidade da nossa fé, da sua qualidade e eficácia, da sua consistência e flexibilidade.
A missionaridade paroquial é, por consequência, uma característica fundamental do ser e agir da paróquia enquanto comunidade instituída no seio da Igreja diocesana. Diz respeito a quem vive o seu baptismo, embora a preocupação pela “sorte” de toda a família humana e pelo equilíbrio dos sistemas da biodiversidade na terra enquanto “planeta azul” seja responsabilidade de todas as pessoas. Despertar para esta preocupação é tarefa básica constante do processo de evangelização com características de missionação e constitui uma ponte de contacto com outras visões do mundo ou crenças religiosas. Defender a “terra mãe”, como bem que pertence a todos e a que cada um deve ter acesso como direito de propriedade pessoal, configura um modo especial de compreender o projecto de salvação universal que Deus a todos oferece. Descobrir, respeitar e valorar as culturas dos povos, ainda que pareçam muito rudimentares, desvenda e apregoa a riqueza que elas contêm enquanto expressão do engenho humano e sinal das “sementes do Verbo”.
A missão, no seu sentido global, comporta o ser e agir da Igreja, como sacramento universal de salvação. Brota explicitamente do “fazei isto em minha memória”, do “ide e fazei discípulos de todos os povos”, do envio do Espírito que guiará os seus arautos e protagonistas.
Há uma modalidade especial de missão: a “ad gentes”, que tem como destinatários preferenciais os povos não evangelizados, as culturas onde a Igreja não está devidamente constituída a nível de leigos amadurecidos na fé e no compromisso apostólico, designadamente no envolvimento social e político, a nível de famílias estruturadas como comunidades de amor e de vida, a nível de clero autóctone suficiente para as necessidades locais e, como é normal, para ir em missão pelo mundo fora.
A animação missionária das paróquias constitui uma estratégia pastoral fundamental para a recuperação da autenticidade da fé católica, para a renovação fiel da Igreja, para o reforço do diálogo ecuménico e inter-religioso, para a realização de parcerias de cooperação em prol dos mais empobrecidos, para a eficácia da evangelização onde predomina ainda o espírito da envelhecida cristandade. Felizmente é uma realidade eclesial em dinamismo crescente, sobretudo entre os jovens, que augura um novo e promissor Pentecostes.
