À Luz da Palavra – XIII Domingo Comum – Ano C A liturgia deste domingo adverte-nos de que Deus nos chama e conta connosco para intervir na transformação do mundo e para o salvar. Convida-nos a responder a este chamamento com disponibilidade, no dom total de nós mesmos às exigências do Reino.
A primeira leitura apresenta-nos um Deus que, para actuar no mundo e na história, pede ajuda às pessoas. Eliseu é o homem que escuta o chamamento de Deus, corta radicalmente com o passado e parte generosamente ao encontro dos projectos que Deus tem para ele. O texto diz-nos que o profeta Elias, pela avançada idade, precisa de um substituto. Por isso, à ordem do Senhor, estende a sua capa sobre Eliseu, gesto que significa que este está vocacionado para o profetismo. É que o manto significa a própria personalidade, com os direitos e os carismas da vocação profética. Então Eliseu, uma vez chamado, abandonou os bois, pois estava a lavrar, e correu atrás de Elias e, numa total disponibilidade, deixou tudo o que possuía e entregou-se ao Senhor.
A segunda leitura diz-nos que o caminho do amor, da entrega, do dom da vida, é um caminho de libertação. Responder ao chamamento de Cristo, identificar-se com ele e aceitar dar-se por amor, é nascer para a vida nova da liberdade. Paulo confessa a necessidade de uma luta diária para a conquista da liberdade, pois só ela nos coloca ao serviço de Deus e dos outros, porque os nossos desejos humanos nem sempre coincidem com aqueles que o Espírito suscita em nós. Não podemos entender este texto como se de um maniqueísmo se tratasse: o humano, por um lado, e o cristão, por outro. Cada baptizado é chamado à perfeição humana e cristã, à perfeição de um ser livre em Cristo. É esta liberdade, apoiada pela acção do Espírito Santo, que nos capacita para a entrega radical ao serviço do Evangelho, lutando, por isso mesmo, para vencer o nosso próprio egoísmo.
O evangelho apresenta o “caminho do discípulo” como um caminho de exigência, de radicalidade e de entrega total e irrevogável ao Reino. “Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o Reino de Deus”. Esta frase, que Lucas coloca no final do texto, é uma frase lapidar. Por ela entendemos que o caminho que nos leva até Deus não tem regresso. Quem, um dia, a partir do seu baptismo, percebeu que a vocação cristã consiste no seguimento de Cristo e no compromisso com a sua mensagem e, por algum motivo, renuncia a esta percepção e às exigências que ela comporta, torna-se indigno do Senhor. Seguir Jesus exige uma radicalidade de amor a Deus e ao próximo, mas sem fanatismos nem fundamentalismos. Num tempo em que quase tudo nos vem sem custo, vivendo numa sociedade “pré-fabricada”, difícil se torna aquilo que só se adquire com tempo, esforço e renúncia. Não há “eternidades” imediatas e sem dispêndios. Estas, quando prometidas, são apenas miragens, porque nada de verdadeiro e imperecível se constrói sem alguma renúncia e custo. Este é o preço da nossa caminhada para a Jerusalém celeste.
XIII Domingo Comum: 1 Re 19,16b.19-21; Sl 16 (15), 1-2a.5-7; Gl 5,1.13-18; Lc 9,51-62
Deolinda Serralheiro
