Para a pergunta que é também título de um estudo publicado em livro, há muitas respostas. As mais decisivas, segundo Luís Antero Reto, na noite de 4 de Julho, são estas: porque nos comportamos mal na estrada; porque, andando em excesso de velocidade, os efeitos de um acidente pioram; porque toda a gente pensa que é melhor condutor do que o outro; porque ainda não temos suficiente medo das multas e sanções. É importante falar aqui na primeira pessoa do plural. Tem a ver com todos. O mais pacato cidadão fica furioso ao volante.
O presidente do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e também colaborador do Governo nas questões da prevenção rodoviária esteve no Centro Universitário Fé e Cultura, na última sessão do Fórum::Universal antes das férias.
Três Guerras Coloniais
Entre 1986 e 2006, morreram 39 mil portugueses na estrada, o equivalente ao número de mortos de três Guerras Coloniais. 187 mil pessoas ficaram gravemente doentes e houve um milhão de feridos. Trata-se de mortes silenciosas. Morre um e depois outro e depois outro. Ninguém se apercebe de que morrem tantos.
Boa notícia
A boa notícia é que a sinistralidade está a diminuir. Atingimos em 2006. Em 1995 morreram nas estradas portuguesas 2700 pessoas. Em 2006 morreram 850. Atingiu-se o objectivo previsto para 2010 no Plano de Segurança Rodoviária.
Prejuízo económico
Os acidentes rodoviários em Portugal são uma realidade desastrosa do ponto de vista humano e económico. Em 1996, o impacto negativo no PIB terá sido de 1,41 %. O custo dos acidentes com vítimas é de 2 mil milhões de euros.
Euforia económica, perigo na estrada
Nos períodos de aquecimento económico, como o foram parte do governo de Cavaco Silva e parte do de Guterres, houve mais mortes na estrada. Se a economia começa a aquecer, aumentam os acidentes. O aumento do número de acidentes tem mais a ver com “euforia económica” do que com o número de quilómetros andado ou o preço do combustível.
Bons condutores?
Os portugueses têm a percepção de que são bons condutores, enquanto “os outros” conduzem mal. A ideia de que “nós somos bons” e “os outros são o piorio” está completamente fora da realidade.
Três C
Para diminuir a sinistralidade, o caminho é o dos três C: Convencer, ou seja, persuadir no sentido de mudar comportamentos, através de campanhas; Constranger, ou seja, obrigar pela norma ou pela lei; Controlar, através da fiscalização. Estes três C têm de ser trabalhados em simultâneo.
Factor humano
O medo da multa é apontado por 30% dos condutores como decisivo para mudar comportamentos. 90% dos acidentes devem-se a factores comportamentais (humanos).
Restaurante versus Estrada
No restaurante e na estrada, as pessoas comportam-se de modos completamente diferentes. No restaurante, dão o lugar, são simpáticas, abrem a porta, deixam passar. Na estrada, tornam-se agressivas e irracionais, apitam, querem chegar em primeiro, roubam o estacionamento.
Valores dominantes
Por outro lado, na sociedade, os valores dominantes são a competição, a velocidade, o dinamismo. Ora, na prevenção, aposta-se na segurança, na calma, no sentido do outro, na educação. Há um paradoxo de valores que dificulta a prevenção rodoviária.
Homens e Mulheres
De uma maneira geral, as emoções no acto de condução são mais positivas para os homens quando conduzem fora das localidades e mais negativas quando conduzem nas localidades. Com a mulher, passa-se o contrário.
Mulheres agressivas
Nota-se um aumento de comportamentos negativos na estrada por parte das mulheres. Começam a ter comportamentos agressivos e de disputa que só eram atribuídos a homens.
Velocidade
Em 2002 os portugueses tinham a percepção de que 38% por cento dos acidentes se deviam ao excesso de velocidade. Em 2006, essa percentagem desceu 7%. Significa que há uma mudança de percepção. A opinião do “eu posso andar a 200 km/h, desde que o meu carro dê” está a desaparecer. Na verdade, a velocidade pode não ser a causa do acidente. Mas potencia os efeitos negativos do acidente.
Prioridade em França
Em França, no último mandado, Chirac teve como prioridade a diminuição do número de mortes na estrada. Uma das estratégias foi a carta por pontos (a carta é apreendida depois de um certo número de infracções). Em cinco anos o número mortes caiu para metade. Esta política teve o efeito colateral de aumentar a venda de motorizadas (devido às cartas estarem apreendidas). Muitos portugueses em França passaram a andar de motorizada.
Civismo
Em Portugal há a ideia de que a norma é para transgredir. Faz parte da nossa matriz cultural nacional. Na Alemanha, em algumas auto-estradas não há limite de velocidade (antes, não havia em nenhuma). Mas, quando se indica 30 km/h, todos obedecem.
O grande pavor
Antes, a probabilidade de pagar uma multa era baixa. Agora, com o pagamento rápido ou mesmo na hora, o crime deixou de compensar. Mas muitas pessoas, mesmo assim, não se importam de pagar. O grande medo é ficar sem carta. É o mais dissuasor. As pessoas têm um pavor terrível. É pior do que lhes retirar o BI.
Trabalho comunitário
Quando um comportamento na estrada é criminalizado, parece ser preferível optar por trabalho comunitário como pena, em vez da prisão.
Pouco impacto das campanhas de prevenção
As campanhas de prevenção têm pouco impacto. É preferível gastar os milhões que custam em parques de condução ou em kits distribuídos nas escolas. Faz mais pela prevenção uma reportagem com imagens reais nos telejornais do que a publicidade. É importante manter na agenda mediática esta questão.
